Vou estar odiando isso

livros.jpgCom toda essa discussão sobre a Reforma Ortográfica, tenho cá pensado com meus botões sobre o outro lado: aqueles que estão felizes e serelepes porque acham que o português ficará mais fácil. Não, eu não vou mentir: não é exatamente uma língua fácil de dominar, e eu conto nos dedos de uma mão só (e a do Lula, heim?) quem escreve sem nunca escorregar. Mas sabe, não é razão para tanto ódio e, pior, tanto MEDO.

É, hoje em dia os brasileiros têm medo da língua portuguesa. E isso por quê? Eu diria que a culpa é de gente como o Pasqualle, mas na realidade a raiz disso tudo está nessa nossa inaptidão em aceitar que nem sempre seremos fodas em tudo. Temos que ser perfeitos. Temos que ser mais do que perfeitos, para zoar daqueles que são só perfeitos. E aí vem a insegurança.

Quando surge um Pasqualle na tv criticando o “gerundismo”, o negócio vira febre e de repente está todo mundo dizendo que tem “nojo” de ouvir tal expressão – não importa se a pessoa que diz que tem “nojo” costume dizer coisas como “Peguei aquele livro para mim ler” ou ainda “Ficaram menas horas lá“. É que sobre o gerundismo elas têm certeza, elas viram o especialista execrando o hábito e então elas podem fazer isso também.

Não vou nem entrar nas ondas do preconceito lingüístico porque acho que nesse caso o Marcos Bagno já falou tudo o que eu poderia falar aqui. Mas sabe, esse medo tem criado alguns monstrinhos que começaram a me incomodar.

Um deles é essa porcaria de expressão “RISCO DE MORTE”. Não fui conferir a origem da maluquice, mas ela foi devidamente propagada por nossos colegas jornalistas, que hoje em dia fazem questão de dizer que “Fulano de tal passa bem e não corre mais risco de morte“. Minha gente, anos e anos utilizando a expressão risco de vida e de repente vem uma geração de cretino e pensa “puxa, mas o risco é de morrer” e pans.

Sabe, o português seria muito, muito mais “fácil” se parassem de procurar pêlo em ovo e simplesmente se comunicassem. E sabe o que é o pior? A expressão é gramatical, tanto quanto o nosso “vou + infitivo” para indicar futuro, que já está tão forte nas línguas e papéis dos brasileiros que chegamos ao ponto de algumas pessoas acharem errado dizer “quererei”. Duvida? Então leia o artigo do Sirio Possenti, sujeito muito batuta que certamente acabaria com alguns traumas se fosse ele o cara na tv.

4 comentários em “Vou estar odiando isso”

  1. O Brasil país é o país das medidas paliativas. É claro que existem coisas na língua portuguesa que realmente não têm razão de ser – e que certos vícios modernos (como a autocorreção do Word, que insiste em tirar acentos de palavras compostas pós-fixadas, como colocá-las) mudam um pouco as coisas.
    Mas a verdade é que isso é uma perda de tempo imensa que não vai chegar a lugar algum e que não tem nenhuma utildiade possível. Mudar a língua só vai mandar alguns desses mamíferos de Brasília para os anais cabeludos da história brasileira.

  2. Eu e um amigo meu nos prestamos a especular e filosofar acerca da origem do gerundismo. Do porquê dele ter iniciado nas operadoras de telemarketing, do amontoamento de verbos sequenciais e chegamos a uma conclusão: LOST IN TRANSLATION.

    Segundo nossa profunda e criteriosa investigação (cof cof), determinamos que, tendo em vista a origem – telemarketing de multiestatais -, o gerundismo foi parido a partir de uma má tradução de manuais de conduta/atendimento.

    Senão vejamos:

    Em inglês, uma maneira polida de se dizer, por exemplo, que a empresa enviará um presente ao cliente é:

    We will be sending you a gift.

    Se traduzirmos de uma forma decente teremos:

    Nós lhe enviaremos um presente.

    Mas como devem ter usado o babel fish pra traduzir o texto, acabamos com um

    Nós estaremos enviando a você um presente.

    Note que, se colocarmos a versão em inglês em paralelo com a má tradução, veremos que a frase foi traduzida palavra por palavra, sem a menor interpretação.

    We will be sending you a gift.
    Nós estaremos enviando a você um presente.

    :mrpurple:

  3. Ou “Nós vamos estar enviando a você um presente”, para deixar mais escabroso ainda. 😛

    Eu não gosto de mudanças na norma culta mesmo. Sempre penso que ela é como um pilar fixo em torno do qual volteiam todas as linguagens, da formalíssima que a toca em muitos pontos até os regionalismos. Mas mudanças, modas e vícios orais nunca me incomodaram muito. 😛

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