O filho de mil homens (Valter Hugo Mãe)

o-filho-de-mil-homens-valter-hugo1Muitas vezes como leitor você pode dizer que gostou de um livro, mas na realidade gostou do enredo. Ou ainda, gostou das ideias apresentadas pelo autor. Pode também gostar de alguma técnica de narrativa inovadora ou mesmo difícil de usar, mas que o escritor soube dominar muito bem. Mas a verdade é que depois de um tempo como leitor, ter os três elementos combinados vai se tornando algo cada vez mais raro, e é por isso que enquanto lia O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe (agora com maiúsculas!), já o fazia pensando que era livro para entrar fácil nos favoritos do ano. Sim, todos os elementos estão ali. E sim, se você como eu também se apaixonou por A máquina de fazer espanhóis, deve correr atrás sem perder tempo – vale a pena até furar aquela sua interminável lista de leituras pendentes, acredite.

O enredo encanta porque, embora melancólico, é de uma doçura surpreendente. Temos inicialmente um pescador chamado Crisóstomo, que ao chegar nos 40 anos se dá conta que por conta de fracassos na vida amorosa é agora um homem sem filho. E ele realmente acredita que um filho o tornaria completo, tiraria dele uma tristeza na qual mergulhara. “Via-se metade no espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausência e silêncios como os precipícios ou poços fundos“. Sai então procurando alguém que o aceite como um pai, para encontrar Camilo, metade como ele que com Crisóstomo forma algo inteiro, completo. Até que o menino sugere ao pai que busque uma mulher, para que seja o dobro.

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As Intermitências da Morte (José Saramago)

No dia seguinte ninguém morreu. É como José Saramago abre o livro As Intermitências da Morte, publicado originalmente em 2005. O que se vê a seguir é o que aconteceria se a morte (sim, ela insiste no uso da letra minúscula) não cumprisse seus deveres. Inicialmente recebida como uma boa notícia, logo se percebe que “não morrer” não é exatamente o maior desejo do ser humano, visto que “não morrer” quando você está doente e sofrendo não parece uma boa perspectiva, por exemplo.

A partir dessa ideia das “férias” da morte, Saramago mais uma vez usa de sua língua ferina para criticar diversos setores de nossa sociedade e, por que não dizer, nós mesmos. Mas a crítica é feita com um senso de humor formidável, fazendo da obra talvez uma das mais leves que já tive a oportunidade de ler de Saramago, o que não deixa de ser irônico visto que lida com um dos nossos maiores tabus.

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Um dia de chuva (Eça de Queiroz)

Conto publicado após a morte do escritor português Eça de Queiroz, Um dia de chuva foi publicado agora em fevereiro pela editora Cosac Naify, em uma edição em capa dura com ilustrações de Eloar Guazzelli. A curiosidade é que trata-se de um texto inacabado, portanto teve que ser estabelecido por Beatriz Berrini, e no corpo do texto encontram-se diversas notas indicando trocas de nomes de personagens ou lugares, além de trechos perdidos – o que não deixa de ser curioso para o leitor, que pode observar um pouco de como funciona o processo de escrita.

O enredo é bastante simples, não vai além do que o próprio título já diz. José Ernesto, um homem da cidade grande resolve comprar uma quinta no interior de Portugal. Porém, ao chegar ao local rapidamente tem sua visão ideal do local desfeita pelo dia de chuva que dá nome ao conto. Sem ter o que fazer ou para onde ir, acaba se entretendo através de conversas com o padre da região.

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Caim (José Saramago)

Uma característica que acho louvável em um autor é saber ser o mesmo e ser diferente ao mesmo tempo. Ele tem aquele tom que é familiar ao leitor, alguns temas reaparecem, mas aí ele tem uma carta qualquer na manga que muda tudo, e faz com que o livro mais recente não seja só “mais um livro de fulano”. Tive o prazer de perceber isso em José Saramago e seu Caim (lançado ano passado pela Companhia das Letras). Aquele que leu O Evangelho Segundo Jesus Cristo vai pensar “Ok, Saramago explorando temas relacionados com a Bíblia…”. Mas aí entramos no como ele o faz.

Em O Evangelho… o que temos é, obviamente, um foco no Novo Testamento. Saramago desconstrói a imagem que temos de Jesus, humanizando ao mostrar defeitos e fraquezas. Mas talvez até por conta disso, a ironia de Saramago em O Evangelho… é sutil, e não é nem de longe o tom predominante de uma narrativa que é extremamente densa. E agora temos Caim, no qual Saramago ao focar o Antigo Testamento desconstrói ninguém mais ninguém menos do que Deus, mas com um tom completamente diferente: narrativa leve, rápida e com o humor quase como constante.

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O Evangelho Segundo Jesus Cristo (José Saramago)

Agora que eu perdi meu medo de Saramago, vamo que vamo né. Li há uns dias e acabei não comentando aqui porque foi na semana de surto-adeus-ao-hellfire, então acho que é melhor eu deixar registrada minhas impressões antes que eu esqueça o que de fato achei (o que acontece com frequencia, acredite. O pior é que minha memória tende a amar ou odiar as coisas depois de um tempo, sem muito meio termo). E para o caso de estar com pressa e não querer ler o post até o fim para saber o veredito, eu gostei muitão, mas acho que Ensaio Sobre a Cegueira ainda é superior (o que não quer dizer muita coisa fora que se alguém pedir para eu indicar algum do Saramago, eu indicarei Cegueira, hehe).

Do começo: publicado em 1991 quando eu ainda brincava de Barbie e achava que Stephen King era a coisa mais cool no mundinho dos livros (cofcof), O Evangelho Segundo Jesus Cristo relata a história de Jesus (ah, sério?), desde a gravidez de Maria até o momento da crucificação (o legal de falar sobre esse livro é que é meio difícil lançar algum spoiler há,há).

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Ensaio sobre a cegueira

Acredito que já comentei por aqui que meu maior problema com o Saramago são aqueles parágrafos enoooormes que faziam com que eu acabasse me perdendo e nem sacasse que o sujeito está a descrever um quadro ou qualquer coisa do tipo (aí, o único livro dele que consegui ler até o fim foi O Ano da Morte de Ricardo Reis, aliás, altamente recomendável). Enfim, resolvi ler o tal do Ensaio sobre a cegueira, até porque pessoas confiáveis (hehe) elogiaram muito e eu achava que o tio Saramago merecia uma chance.

Antes de falar do livro, vamos ao resultado: agora eu quero ler tudo o que ele já possa ter escrito, até poesia em bolacha de boteco se for o caso. O Ano da Morte… é legal, muito bom mesmo, mas o que ele faz em Ensaio sobre a cegueira é único, é apaixonante.

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Primeiro Fausto e etc.

Pois então… estava na rua no momento em que desabou um dos maiores torós esse ano aqui em Curitiba (detalhe: vestida de branco ¬¬’), adoro minhas turmas de terça (ainda mais quando chegam quatro alunos novos dizendo que “Não gostaram da aula da Ana Carolina e queriam ficar na minha turma”) e eu cheguei a conclusão que me desaponto muito com as pessoas porque espero delas coisas que elas não são (ou coisa do gênero). Continue lendo “Primeiro Fausto e etc.”

Soneto LXV do Camões

(Na realidade isso aqui estava pronto para ser postado no dia em que comecei a ter os problemas para acessar o blog. Acabei deixando o rascunho numa pasta e to colocando aqui na série de comemorações de retorno hohohoho)

Então, como eu consegui me matricular em Camões para esse período (já era para eu estar indo para a aula mas estou dando uma esticada básica nas férias 😳 ), vai um soneto do poeta para comemorar ^^

LXV

Quem diz que Amor é falso ou enganoso
Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel, ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso:
Quem o contrário diz não seja crido,
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos deuses, odioso.

Se males faz o Amor, em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas as suas iras são de amor;
Todos estes males são um bem
Que eu por outro bem não trocaria

Obs. A disciplina trabalhará Os Lusíadas. Todo sábado, quatro horas seguidas. Algo me diz que minhas aparições na madrugada ficarão mais raras

Os Argonautas

Como eu tinha prometido, vou explicar a relação entre Os Argonautas do Caetano Veloso e o Mensagem, do Fernando Pessoa. Para começar, aí vai a letra da música do Caetano:

Os Argonautas

o barco, meu coração não aguenta
tanta tormenta
alegria, meu coração não contenta
o dia, o marco, meu coração
o porto, não
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso, o arco, da madrugada
o porto, nada
navegar é preciso
viver não é preciso
o barco, o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue, o charco, barulho lento
o porto silêncio

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