Uma dedicatória

Cornell Capa. Teenage Girls Resting Feet at First Formal Dance at the Naval Armory.

Eu acho que nesse momento dizer que 2025 foi um ano estranho é quase um pleonasmo. Não só 2025, parece que estamos acumulando anos estranhos, tropeçando meio às cegas desde que as coisas começaram a dar errado de um modo geral1. Mas divago. O fato é que 2025 foi sim um ano estranho, em partes pela experiência de ter uma pessoa muito querida naquele limiar entre vida e morte durante um período prolongado de tempo.

Sol é uma pessoa extraordinária – quem conhece sabe. Ela é tão extraordinária que ano passado mais de uma vez contradisse plantonista da UTI que nos alertava que ela poderia morrer a qualquer momento. Extraordinária porque contradisse estimativas e está aqui conosco, um ano depois. E mesmo ainda trabalhando física e mentalmente todo o trauma que viveu, ainda tira tempo para lembrar pessoas que nem conhece sobre a importância da vacina do HPV.

Em uma saída para um café (que privilégio, ainda temos nossos cafés!) falei para ela sobre como foram os dias em que ela estava apagada. Falei da primeira vez, quando um temporal despencou na cidade, uma chuva assustadora quando a vi e me dei conta ao mesmo tempo do milagre que é um corpo funcionando e de quantas coisas podem dar errado conosco. A médica chamou e avisou que poderia ser a última noite. Não foi. Não foi fácil, a recuperação ainda está em andamento, mas ela está aqui.

E por causa disso o aniversário dela em novembro teve um tom diferente, especial. Foi um aniversário no volume 11. E algo que marca minha relação com a Sol há tanto tempo é o fato de que ela é a primeira pessoa em que penso quando leio algum livro apaixonante, então sempre que surgem oportunidades (como aniversários), o presente é um livro. Então em novembro escolhi um que gostei muito e sabia que ela também iria gostar. Outra coisa sobre minha relação com a Sol é que damos a mesma importância (gigante) para dedicatórias. No livro do aniversário de 2025 eu sabia que não teria folha de guarda e folha de rosto que daria conta do que queria escrever, acabei escrevendo no Word e imprimi.

E se estou colocando a dedicatória aqui hoje é porque fevereiro marca um ano do início daquela jornada. É comemoração, mas também o desejo de que você (seja lá quem for o leitor desse post nesse momento) tenha a sorte de ter uma Sol em sua vida. Cuide bem de suas pessoas e nunca esqueça de dizer que as ama.

***

Sol,

Uma vez estava na casa da vó Cecy e meu pai apontou para um porta-retratos na estante, a foto de uma menina de roupinha verde sorrindo para a direção da câmera. Ele perguntou quem era e eu nem pensei duas vezes: sou eu. Pois não era, era uma prima. Hoje em dia acho minha prima muito mais bonita do que eu, mas não tem como negar que nós duas temos o tal do olhinho dos Bittencourts, mesma cor, mesmo formato.

A genética é um negócio maluco, porque ao mesmo tempo que eu tenho tanta coisa do meu pai ao ponto de parecer com a filha de uma irmã dele, eu reconheço em mim muitas coisas da minha mãe. É isso, eu carrego um pouco deles comigo, e meus meninos carregam também.

Mas tem coisa que forma uma pessoa que a genética não cobre. Partículas de outras pessoas que carregamos por aí, às vezes sem que elas nem saibam que tenham deixado algo para trás. As partículas se manifestam de formas diferentes. Um novo autor favorito, uma piada que será recontada décadas depois, o desejo de provar que alguém está certo ou errado sobre algo, um filme que aparece na hora certa, um elogio que volta à mente quando tudo parece ruim.

Os tamanhos dessas partículas obviamente variam, não que tenham muito a ver com o tempo de convivência, porque às vezes dez minutos mudam sua vida (e você). Mas parece que tem gente que aparece no mundo e tem uma generosidade enorme, porque vive distribuindo partículas como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Você é uma dessas pessoas. Sei que no nosso caso pesa muito a questão do tempo, você me conheceu quando eu nasci, mas não é só isso.

E se eu estou falando tudo isso é porque quando escolhi esse livro, foi inicialmente pensando que seria um livro que você gostaria. Mas depois disso, pensei na chave para interpretar essa história, e para mim é Soldados da Legião Urbana. Na hora que pensei na música, a voz do Renato Russo cantando “Nossas meninas estão longe daqui…” veio à mente, mas veio também um quarto bagunçado cheio de gente, com um recado “Apague a porta e feche a luz” na parede e essa música tocando.

É óbvio que naquela época Legião era um negócio ubíquo e eu certamente acabaria tropeçando em algum disco ou música de rádio quando já tivesse idade para ir sozinha atrás das músicas que eu escutaria. Lembro inclusive de anos depois achar engraçado ouvir um TRANSAMÉRICA! nos versos censurados de Faroeste Caboclo na rádio. Mas agora no presente, com o livro em mãos, me dei conta que você foi a pessoa responsável por me fazer ouvir Legião pela primeira vez (e eu não tenho dúvida se anos depois reencontrei a banda, é porque já tinha a semente – sim, aquele pedaço – dentro de mim). É uma das tantas partículas suas que vivem em mim.

Então no seu aniversário eu só posso agradecer por sua presença nesse tempo todo, mas mais ainda por ter ganhado mais tempo. Porque ao contrário dos genes que são repassados lá no momento da concepção e depois é isso aí e você que lute, essas partículas das quais estou falando desde o começo não deixam de ser passadas, trocadas, criadas – e não é uma relação ascendente, é uma troca mútua, a gente sabe bem. Tão bem que permite depois de anos que a gente ainda se mate de rir de palavras que não fazem o menor sentido para quem está de fora.

Por isso se eu posso desejar algo, é que a gente tenha ainda muito para descobrir juntas, e rir juntas. Que muitas e muitas partículas façam de nós duas irmãs, mesmo que a ciência e a genética digam que isso é impossível. Tem que ter um pouco de magia, não é mesmo?

Feliz aniversário, feliz demais.

nov/25

  1. minha teoria é que o ponto de rompimento é a morte do David Bowie em 2016

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