Demolidor (S01 e S02)

daredevil

Lembro que comecei a ver a primeira temporada do Demolidor meio naquela desconfiança de “Ok, só um episódio para ver qualé”. E aí gostei e foram lá mais dois, três e quando vi já tinha assistido toda a primeira temporada e queria mais.

Tá bom, o fato de serem só treze episódios ajuda para a sensação, mas além disso o negócio é que no meio do cansaço de tanta coisa de herói saindo no cinema e na TV, Demolidor chegava como algo completamente diferente, trazendo um pouco da humanidade que os “super” – hiperbólicos em seus poderes e paixões – já tinham deixado para trás.

Até porque o Demolidor da primeira temporada ainda é um herói em construção, aprendendo sobre como “ser” e também se questionando bastante sobre o que faz. A dúvida de Matt Murdock não vem só por ser católico, mas também porque a partir do momento que veste sua roupa (preta) para combater o crime à noite, ele de certa forma está aceitando o fato de que a justiça não funciona.

E o que torna a jornada de Matt nos treze primeiros episódios tão bacana de acompanhar, é o fato de que ele (assim como todos os coadjuvantes) são bastante humanos. Aquele punhado de qualidades e defeitos que fazem com que a história escape do maniqueísmo, pelo menos no sentido mais geral da palavra – ainda há uma luta do bem contra o mal, mas os dois pontos não se delimitam facilmente, se confundem em diversos momentos.

A começar pelo próprio Matt, que usa e abusa de tortura para conseguir a informação que deseja, isso para não falar de outras tantas leis que ele acaba quebrando para chegar até Fisk, o grande vilão da temporada e outra figura que entra na zona cinza: ele realmente acredita que fará o bem para a Hell’s Kitchen. O problema é que o que ele vem como “bem” é fruto de uma infância carregada de violência e abuso.

Aliás, o duelo entre Fisk e Matt é emocionante, do começo ao fim. E acredito que muitos críticos apontaram Demolidor como “uma série de herói para quem não gosta muito de heróis” porque muitos confrontos entre as duas personagens não se davam à noite enquanto Matt vestia seu uniforme, mas nos tribunais (ou ainda, através das investigações de Karen Page e Ben Urich).

E as atuações são ótimas – não consigo pensar aqui em qualquer pessoa do elenco que tenha deixado a desejar, todos davam conta dos desafios de suas personagens. Ayelet Zurer como Vanessa, por exemplo, está fantástica: sua personagem é contida, mas dona de uma força enorme porque no fim é ela quem controla o Kingpin (adoro o modo como uma cena é montada para mostrar isso, quando ela escolhe a abotoadura que ele usará). Vincent D’Onofrio também, até porque consegue montar uma personagem que é um misto de insanidade e (muita) inteligência.

E nessa altura já deve ter dado para perceber que um dos pontos positivos da série é justamente a galeria de personagens. Algo que vale notar é como na primeira temporada há relativamente poucas personagens e como isso permite um bom desenvolvimento de todos, não só do protagonista. Ao ponto de uma conversa entre Matt e o melhor amigo Foggy ser um misto de cena cômica com drama:

foggy

Isso para não falar de Wesley, uma das minhas personagens preferidas da primeira temporada.

E siiiim, Demolidor é uma série linda, falando do visual mesmo. O cuidado com as cores, acaba criando cenas de encher os olhos (aquela de Karen vendo as luzes do letreiro na frente do apartamento de Matt, por exemplo). E mesmo as lutas (e eu sou uma pessoal que se entendia facilmente com cenas de luta, mas uou).

Enfim, primeira temporada foi ótima e aí vem aquela dúvida de se a segunda manteria o nível. Comecei assistindo meio que no automático porque apesar de achar que a chegada de Frank Castle marca bem o novo ponto do dilema moral de Matt (antes a lei não bastava, agora já não basta mais sua atitude como vigilante), a história em si é um tanto bagunçada e meu deus do céu, como a Karen ficou chata na segunda temporada.

Eu entendo a intenção: dar mais espaço para uma mulher respondendo as críticas da temporada passada de que elas seriam pouco importantes para a trama (do que eu discordo um tanto, vide o que comentei sobre a Vanessa). O problema é que eles pegam a Karen e vão de um ponto para o extremo oposto: elas está em TODAS as tretas. E, em grande parte delas, não como agente sob controle da situação (como o Matt cada vez que coloca o uniforme), mas como uma “donzela em perigo”, tendo que ser salva ora pelo Castle, ora pelo Matt. Sei lá. Dava para ter dividido um pouco com a Claire (que merecia mais tempo de tela), até para a coisa não ficar tão repetitiva como ficou.

Mas vá lá, foi o único ponto que realmente me incomodou. Mesmo o plot da Elektra que fica meio rocambolêstico no fim (para a história ter alguma coerência todo mundo – todo mundo mesmo – tem que ter ficado sabendo que Elektra era quem era só naquele momento, caso contrário a narrativa simplesmente não fecha). Eu acabo relevando o negócio todo porque: a) eu gostei de como a retrataram e desenvolveram ao longo dos episódios (a expressão da atriz quando ela mata um ninja na frente do Matt e pergunta se ele ainda gosta dela, caracoles!) b) as cenas de luta com a Elektra ficaram muito boas (já disse que não gosto de cenas de luta? talvez eu goste?) e c) all the feeeeeeeeeeeeeeeels.

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Eheita.

E de novo Matt dividido entre o que é e o que pensa precisar ser. De como ele se afasta de todos os amigos e acaba se aproximando justamente de Elektra, porque ela não questiona a vida de vigilante dele (no máximo a vida de cara do bem, hehe).

É interessante perceber como eles deram conta da introdução de novas personagens – as histórias do Castle e da Elektra se fundem no motivo: é Castle que fala para Matt que há um limite que depois de ultrapassado não tem mais volta (para Matt, matar alguém) e a fala acaba sendo retomada quando Stick fala para Elektra que Matt foi salvá-la porque se Elektra matasse seu mentor, aquele seria um caminho sem volta para ela.

Mais próximo da conclusão da temporada dá para perceber que já estão preparando o terreno para um A Queda de Murdock. O legal é o modo como estão fazendo isso: a ameaça de Fisk na prisão e o fato de que agora Karen sabe que Matt é o Demolidor prepara o terreno, mas não de forma urgente. Dá para fazer mais algumas temporadas de Demolidor até que essa linha seja retomada.

Então é isso. Falando bem a verdade eu nem ia publicar o post, mas aí lembrei que depois de Jessica Jones eu meio que me arrependi de não ter comentado a primeira temporada, então vai tudo aqui, né. E que venha logo Luke Cage. Antes que eu me esqueça:

avocados

5 comentários em “Demolidor (S01 e S02)”

  1. Oi, Ana!

    Me diz: a série é bem fiel aos quadrinhos? Tem essas referências mútuas entre Demolidor e Jessica Jones tb? Não é preguiça de ler, não. É pouco tempo pra verificar, no momento. :-/

    E, sei lá, não achei a Karen chata na segunda temporada. Gostei porque deu mais visibilidade a ela. Mas é opinião, né? Não pensei muito sobre então não tem embasamento. Eu fico pensando que colocá-la como (relativamente) frágil é uma estratégia de mostrar como os super são fodões. Enquanto assistia “Buffy”, percebi que, quando a Buffy estava — por diversos motivos — ausente da caçada aos vampiros e os amigos “normais” tentavam caçar no lugar dela, eles eram muito patetas! Nem 3 deles juntos davam conta de um vampiro mequetrefe, e ainda por cima iam direto pro hospital com cortes profundos. Vi a mesma coisa em Jessica Jones: a Triss luta bem MAS é fraca. Ou seja, pode ser uma forma de mostrar como as pessoas precisam dos super, como somos incapazes frente à força dos vilões, e como os heróis têm essa carinha de “cerumanos normais” mas tem um quê que faz deles especiais.

    Enfim, pode ser que os críticos e analistas já tenham dito isso mas anyway…

    Bjos!

    PS: Leio seu blog há mais de uns 10 anos. Só agora tive coragem de comentar. Vergonha das vergonhas.

    1. Oiê! Primeiro: obrigada pela visita durante todos esses anos ;*

      Da fidelidade da série aos quadrinhos eu não posso falar muita coisa, o que li do Demolidor foram arcos de história mais famosos – mas a sensação que tenho é que a série se “inspira”, mais do que adapta, se é que você me entende. A Elektra, por exemplo, eu consigo lembrar de uma sequência em um quadrinho (O homem sem medo, acho?) em que ela aparece como a namorada do Matt do tempo da faculdade, e completamente doida – algo que bate de leve ali naquela cara que ela faz para ele no episódio em que mata o ninja na frente do Matt, entende?

      Sobre o que você falou da Karen, faz sentido, seria para potencializar a ~~badassness~~ do Matt, né? Mas eu ainda acho uma pena que logo a personagem feminina tenha que ser essa figura, sendo que no elenco tinha mais personagens para o Matt salvar de quando em quando. O próprio Foggy não aparece em tanta situação “donzela em perigo” quanto a Karen – dava para ter equilibrado um pouco as coisas, não acha? Até para não “gastar” a personagem, hehe.

      (Repensando aqui, a cena da saída dela com o Matt meio que compensa também. Achei tão lindo aquele lugar em que eles foram jantar, com aquelas luzes coloridas. Lembrou uma das minhas cenas favoritas de Birdman ^^ )

      1. Oi de novo!

        Sim, concordo que pesaram muito em colocar só a Karen em perigo. Sendo que o Foggy é muito mais tonto que ela. Hahaha Brinks. Sei bem que tem questões ideológicas e culturais implícitas.
        Eu não vejo muitas séries, mas, das poucas que assisti até hoje, o Joss Whedon em “Buffy” foi o único que conseguiu retratar as mulheres com a força que merecem, sem forçar barra nenhuma. É bem natural…

        Falando em estética visual… Não aguentei e re-assisti a primeira temporada de “Demolidor”. Agora reparei muito mais em aspectos formais (som, iluminação, figurinos, cores, direção, etc.). É uma paleta muito escura, só que a iluminação… Fantástica! Muito jogo de luz, sombra, cores de luzes e tal. Imagino o quão difícil foi filmar isso!
        Concordo com você que a cena no restaurante é a mais mágica da série toda. Lágrimas escorreram perante tal beleza!
        Momento causos de minha vida: Eu gosto muito de ópera — Não, não sou chique. E é barato. Com 30 conto dá pra se divertir. Haha Tem um diretor cênico, o André Heller-Lopes, que trabalha muito com jogos de luzes e elimina quase que totalmente o uso de cenários (ou seja, economiza pacas). Depois procura umas fotos da montagem dele pra “A Valquíria” e “O Crepúsculo dos Deuses”. De cair o queixo! Enfim, lembro muito das técnicas dele quando assisto “Demolidor”!

        Agora fiquei curiosa e vou assistir Birdman. 🙂

        Bom, parei de floodar sobre “Demolidor”. Haha Daqui a pouco vc me bloqueia. 😛

        1. O Whedon é famoso pelo cuidado com as personagens femininas, né? (só que foi dar uma mancada nos Vingadores e o pessoal caiu matando, galera da internet não perdoa :~~ ). Dele você já viu Doctor Horrible’s Sing Along Show? É uma minissérie com o Patrick Harris no papel principal, é super engraçada (e destrói nossos corações, como o Whedon sempre faz tão bem hahaha).

          O legal de Demolidor se concentrar tanto nesse jogo de luz e sombra é que meio que copia o que ele “vê”, né? Eu gosto do cuidado com o uso do vermelho. E achei engraçado como na segunda temporada teve muita cena puxando mais para o amarelado, você notou? aquela da Elektra que está no gif aqui do post, por exemplo (já anotei a sugestão, vou procurar pelo trabalho do André Heller-Lopes ;D )

          E nem esquente, pode falar o quanto quiser que o espaço está aqui para isso mesmo. Na real, adoro quando sai uma prosa dos posts hahahah =*

          1. Vixi, eu sou uma Whedonette falseta. Só vi Buffy mesmo. Vou ver essa outra! Valeu pela dica! Eu vi que é musical. Detesto musical (Julgue-me), mas, tomando pela experiência daquele episódio de Buffy que é um musical, deve ser muito bom!

            Agora nessa re-assistida eu reparei que, na verdade, eles usam amarelo já na maioria das cenas em que o Fisk aparece. Pelo que doutor Google disse, amarelo pode significar poder, mas também loucura, covardia, traição e egoísmo (In: http://www.colormatters.com/the-meanings-of-colors/yellow). Acho que a equipe já estava querendo sinalizar a traição/loucura, porém também demonstrar o egoísmo de Fisk disfarçado de boa causa.

            Outra coisa que me chamou muita atenção desde que vi pela primeira vez: o fato de o Matt ser fluente em espanhol e a Karen arranhar bastante bem. É o extremo oposto do comportamento do norte-americano branco-classe-média comum, e muitas vezes divulgado pelos quadrinhos e filmes. Quebra essa barreira entre o Outro [Hispânicos] x Nós [WASP] e dá todo um toque de humanidade, além de servir pra reforçar a característica do Matt como defensor dos oprimidos de forma geral, independentemente da classe social. As cenas com a Sra. Cardenas são muito tocantes. Pelo menos pra mim!

            Bom, vou continuar assistindo e depois loto mais sua caixa de comentários. 😉

            bjus!
            E valeu pela oportunidade de comentar! 🙂

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