Jackaby (William Ritter)

20312462A primeira vez que li algo sobre Jackaby foi no Tumblr, o que não é exatamente uma surpresa, considerando como determinados fandoms parecem se concentrar por ali. Digo isso porque o livro parece ser feito para agradar alguns grupos de fãs. Assim: para definir Jackaby, pegue um tico de Sherlock, misture com um pouco de Doctor Who, pinga aqui e ali um tanto de Supernatural e voilà!

E eu sei que isso poderia dar errado de várias formas, mas caramba, como Jackaby é divertido. Gostoso tipo a sensação de rever O Enigma da Pirâmide na Sessão da Tarde ((eles ainda passam O Enigma da Pirâmide na Sessão da Tarde? Deveriam.)). É daquele tipo de história que você até percebe como previsível, mas ao invés de se deixar levar pelo cinismo já esperado de quem tem horas e horas acumuladas de leituras de livros de detetive, dá de ombros porque no final das contas o caminho está tão legal que não importa muito o destino.

A história acontece em 1892, na Nova Inglaterra. Abigail Rook acaba de chegar ao local após uma tentativa fracassada de viver uma aventura na Europa. Já em seus primeiros dias no lugar, começa a trabalhar como assistente do excêntrico Jackaby, meio detetive, meio ocultista.

Considerando esse momento inicial onde as personagens são apresentadas, acho que é justamente essa brincadeira com os fandoms que faz parte da graça do livro. O primeiro encontro entre Abigail e Jackaby faz piada com aquele primeiro encontro entre Watson e Sherlock Holmes em Um Estudo em Vermelho, quando Holmes “adivinha” uma série de informações sobre Watson após observar detalhes. A diferença aqui é que os detalhes que Jackaby observa nada tem a ver com o que consideramos “normal” – são todos relacionados ao mundo sobrenatural.

A insistência de Abigail em definir Jackaby como um detetive “dos livros” gera inúmeras situações engraçadas. Aliás, caso não tenha ficado claro até o momento, o tom principal do livro é o humor – talvez até por isso o fato de o desfecho ser previsível não pese tanto. Para ter ideia, chega um momento em que você pode ler a seguinte frase: “I excused myself to go see a duck about a dress“. E veja bem, dentro do contexto a frase tem sentido.

Ajuda bastante para manter o tom de humor a excentricidade de Jackaby (“is this paprika or gunpowder?“). Eu sei, eu seeeeeeei que todo mundo que tem lido o livro automaticamente o imagina como um Benedict Cumberbatch, mas a imagem que eu tive da personagem era do Johnny Depp como Ichabod Crane em Sleepy Hollow.

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Enfim, o negócio é que Jackaby é uma personagem adorável, um Frankenstein de fandom que deu certo, digamos assim. O mesmo ocorre com Abigail, embora eu ainda ache que o constante assunto “mulher em uma sociedade machista” poderia ser abordado de uma forma diferente (a começar, apontando situações que pouco mudaram do século XIX para cá). De qualquer forma, é bacana como ela não é só aquele tipo de personagem que parece que está rondando um protagonista só para levantar a bola para ele cortar, digamos assim. Ela tem seus bons momentos e sim, também engraçados (adoro a insistência dela sobre o caderninho de anotações).

Sobre o período em que acontece a história, eu ainda acho que os anacronismos são tantos que no fim meio que justificaria a escolha do século XIX seriam justamente as motivações de Abigail. De qualquer modo, é um pouco como eu disse lá no começo: você percebe o anacronismo mas segue em frente porque bem, tem lá uma fantasma conversando com um pato de gravata sobre a mudança da mobília da casa de um detetive. Ser chato sobre uma informação ou outra que não bate com o período retratado nesse caso é meio como ser aquele cara mala que quando um amigo está contando uma anedota qualquer, ele fica interrompendo a história para corrigir detalhes que nem são relevantes para a punchline.

E aí tem a questão da previsibilidade que eu comentei sobre o desfecho, que eu acredito merecer alguns comentários (e o benefício da dúvida sobre ser de fato previsível ou não). Sim, é óbvio que Jackaby é um livro escrito com um determinado público em mente. Como eu disse, boa parte da graça está no modo como subverte lugares-comuns de histórias de detetive, especialmente as escritas por Sir Arthur Conan Doyle. Por outro lado, o que funciona para criar o humor (e a diversão) ao longo da história cobra lá seu preço no final: o leitor “treinado”, que já leu e releu muita coisa do gênero, acaba adivinhando o final antes mesmo da metade do livro. Porém, acho que o autor ((MEUDEUSDOCÉU, desde o começo de fevereiro eu não tinha lido mais NADA escrito por homem, tem noção? E nem é de propósito, do tipo “ah, só vou ler mulher”. O negócio é que os livros que estavam atraindo minha atenção eram todos escritos por mulheres.)) tinha lá uma certa noção de que isso aconteceria, porque mesmo que seja possível identificar o culpado, ainda assim ele deixa para o leitor a dúvida sobre qual é a entidade sobrenatural por trás dos crimes. E agora dá licença para um spoilerzinho:

SPOILER! Clique para ler
Vamos começar pelo red herring da história, o Charlie. Aquele sobrenome Cane entregava a real natureza da personagem meio que nos mesmos esquemas que o Lupin do Harry Potter, né. Mas aí, tchanaaaaam, ele não é exatamente um lobisomem. É parecido, mas segue mais a linha do Peter em Hemlock Grove.

E então temos o culpado, o Comissário Swift. Eu não tinha a menor ideia do que ele poderia ser, mas no encontro na floresta com Abigail pensei que seria um tipo de vampiro. Estava errada, era um redcap, criatura da qual eu nunca tinha ouvido falar.

Então é isso. Jackaby tem lá suas falhas, não vou negar. Mas me diverti tanto que eu não tenho como dizer que elas tenham pesado mais do que as qualidades. É um livro que pede uma adaptação, seja para o cinema, seja para a tv e iei, antes que eu me esqueça: YA sem triângulo amoroso! Aliás, mais do que isso: YA quase sem romance! Vish!

Você por favor desculpe minha preguiça de pesquisar, mas não sei se alguma editora aqui do Brasil já tem os direitos (se nenhuma comprou, estão comendo bola). Para quem lê em inglês, a boa notícia é que em setembro chega o segundo volume da série, chamado Beastly Bones. E caso ninguém tenha percebido, eu ainda estou empacada lá no sexto episódio com o nono doutor, então meio que não sei o que este livro tem a ver com Doctor Who, vou ficar devendo essa. Mas deixo aqui um gifzinho para vocês, que representa bem o que eu achava que seria Jackaby:

giphy

Um comentário em “Jackaby (William Ritter)”

  1. Achei que tinha comentado nesse post, porque foi ele que me fez decidir se eu lia ou não o livro, mas como não comentei vou comentar agora XD
    Sim, o livro é previsível, mas deixa umas dúvidas hahaha Também achava que o Cane fosse um lobisomem, o que acabou se mostrando só meio certo, e no começo também cheguei a pensar que o Swift fosse um vampiro, mas não era (fui pesquisar mais sobre redcap e descobri que no Brasil é traduzido como barrete vermelho, que eu só conhecia levemente de Harry Potter).
    Enfim, a história é muito gostosinha e todos os personagens são bem bacanas também.
    Queria ler as continuações, mas só o primeiro livro foi lançado por aqui pela editora Única 🙁

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