Ayoade on Ayoade (Richard Ayoade)

onay(Antes que alguém pergunte: sim, é o Moss do IT Crowd)

Aproveitando que finalmente O Duplo está chegando aos cinemas do Brasil (vão ver, é muito bom!), me parece um bom momento para comentar sobre Ayoade on Ayoade, de Richard Ayoade. Ao ficar sabendo que o livro consiste basicamente em um diretor de cinema se entrevistando, não tenho dúvidas que você deve pensar que as definições de punheta foram atualizadas.

Mas calma. É o Ayoade. Em mais de 300 páginas ele consegue falar muito mais de cinema (e cultura pop) do que sobre si mesmo – até porque, como responde em determinado momento, tudo o que está dito ali sobre ele é mentira (ou, talvez usando um termo mais apropriado, ficção).

Antes de tudo é importante lembrar: é um artista de nicho, portanto um livro de nicho. ((AYOADE: Why would Tim Burton be reading this? He’s an incredibly successful and busy person. And this is going to be massively niche. And not in a Tim Burton niche way – which is also very popular. Are you crying? AYOADE: No, I have hay fever. Can we stop now? AYOADE: It’s november. AYOADE: I’d like to stop now. I just want to rock on this horse for a while. AYOADE: Are you upset I said you’re niche? AYOADE: No. I know I’m niche. I just want to be quiet now. (muffled) I know I’m niche.)) Boa parte da graça da leitura consiste em conhecer (e óbvio) gostar do universo do autor, para conseguir pescar as referências e entender as piadas.

Sim, piadas. O tom do livro é de humor nonsense do começo ao fim (o que já era de se esperar se considerarmos que é uma entrevista do diretor com ele mesmo, então nem sei porque estou avisando vocês sobre o tipo de humor). Quando logo no começo o autor explica como funciona o livro (a maior parte das inúmeras notas de rodapé leva para textos nos apêndices, que devem ser lidos naquele momento, e não quando a leitura das entrevistas estiver concluída), e manda um “I don’t need an Ideal Reader; I just need an Okay One“, eu já tinha certeza de que iria adorar o que viria a seguir.

As principais partes de Ayoade on Ayoade (Cronologia e Entrevistas) são escritas quase como um roteiro de filme, salpicados com as já mencionadas notas de rodapé. Já nos apêndices, há toda uma sorte de gênero textual, incluindo e-mails, artigos, listas, etc. Se você não for o Leitor Okay do Ayoade, preciso pedir que reconsidere e leia os apêndices na ordem – são provavelmente o que o livro tem de mais engraçado, e é onde se constrói a crítica ao cinema atual.

Porque, vale lembrar, o humor serve para fazer crítica também. Aproveitando a temporada de prêmios que se encerrou esta semana com a entrega do Oscar, tem esse trecho aqui de como fazer um agradecimento:

awards

Para quem acompanha o Oscar há algum tempo já deve ter ouvido falar da fama do Harvey Weinstein, certo? E se aqui ele pega leve com o Weinstein, tem outros momentos  em que ele é bem afiado (e não, ele não se priva de dar nomes aos bois), como por exemplo, ao falar sobre como Ayoade gosta de elaborar jogos de perguntas e respostas (o Guardian disponibilizou um trecho dessa parte do livro), dá para encontrar perguntas como:

Did you know… James Cameron’s Avatar is the only film whose entire plotline is listed in the ‘goofs’ section of IMDB…?!?

Did you know… Cowboys & Aliens received a theatrical release…?!?

Ouch.

Sobra também para todo o circo que envolve o lançamento de filmes, adoro como ele usa o humor para mostrar o quanto odeia entrevistas (é, irônico, eu sei), dizendo que gostaria que existisse um jeito de pular a parte em que ele tem que fazer o filme e ir direto para as entrevistas. Porque é isso, é um tempo dele jogado fora para responder perguntas como “Qual sua maior influência?” um milhão de vezes, quando ele poderia justamente estar fazendo seu trabalho, criando mais (“The prospect of needing to make a whole film before a stranger tapes my thoughtless utterances (and uses them as the basis for a speculative, semi-hostile character portrait) makes me very sad”).

Ayoade. Foto de Antonio Olmos para o Guardian.
Ayoade. Foto de Antonio Olmos para o Guardian.

O e-mails do agente Danny Deville sobre O Duplo também são hilários Como quando tenta convencer o Ayoade a não fazer um filme baseado em um romance de Dostoiévski “Do you know how many successful films have been made ou of Dostoevsky novels? How’s about NOT EVEN CLOSE TO ONE SUCCESSFUL FILM.“, ou quando pede para que Ayoade evite falar sobre o tema do filme em entrevistas “Try avoid any talk of the film being about ‘loneliness’. Do you know what is lonely? Being the only person at the premiere of your goddamn movie because everyone heard you just made a film about loneliness. Do you know what Avatar is about? Me neither, but it sure as Satan ain’t about loneliness.

E eu sei que a essa altura você já deve estar com a sensação de que citei o livro todo aqui (ou pelo menos tudo o que vale a pena), mas não. Tem muito mais ali. Ayoade on Ayoade pode parecer revelar quase nada sobre o diretor, mas como mesmo que só usando humor ele mostra tanto sobre o Cinema. Quando vemos o material pronto esquecemos de momentos que ali são abordados (como a edição ou a manipulação de cores/imagens).

Mas acho que o que eu mais gostei em todo o livro é como Ayoade parece captar bem o nosso tempo, de forma geral. Não só sobre o cinema em si, embora é óbvio que esse seja o foco principal.  Por exemplo, o título do roteiro que ele escreveu para a biopic de Haddaway (HAHAHAHAHAHA) é “‘WHAT IS LOVE? THE HADDAWAY STORY’ – AN ORIGINAL ENVISIONING BASED ON THE WIKIPEDIAENTRY“. As paródias de emails e tweets do Terrence Malick são outro momento que ilustram bem essa combinação de cultura e internet tão comuns nos dias de hoje. Também vale mencionar algumas provocações para temas mais espinhosos, como por exemplo escrever sob o ponto de vista de uma mulher o que, trocando em miúdos, acaba caindo no problema de existir tão pouco filme com mulheres em papéis principais. ((AYOADE: You’ve never made a piece of work from a woman’s point of view. Why is that? AYOADE: The same reason I piss standing up. AYOADE: You don’t think a man can write from a woman’s point of view? AYOADE: No, I just feel more comfortable that way.))

Então, amigos do nicho, pode procurar para ler sem medo. E para quem ainda não conhece o Ayoade, ou só conhece pelo Moss the It Crowd, PORFAVOR, assista a Submarino (aka: um dos meus filmes favoritos de todos os tempos). E claro, aproveita que chegou aos cinemas e dá uma olhada em O Duplo, que é também muito bom (embora o pôster do filme não tenha dois caras um de costas para o outro, hahaha, sim, piada para quem já leu, malz aí).

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