Trigger Warning: Short Fictions and Disturbances (Neil Gaiman)

Ler Trigger Warning (coletânea de contos e poemas de Neil Gaiman que saiu recentemente lá fora) é um pouco como reencontrar um velho amigo querido. Ok, um velho amigo querido, mas que provavelmente tem uma mania chata que 10 minutos após o reencontro te faz lembrar porque, no final das contas, você não retornou aquela ligação ou deixou a coisa no “vamos marcar!” sem nunca marcar nada.

Não entenda mal, não é que o livro seja ruim. É só que por conta de alguns textos fica um tanto irregular. Eu entendo o que Gaiman fala logo na Introdução sobre o conto ser o lugar onde o autor pode experimentar mais, o negócio é que em uma coletânea supostamente houve uma seleção e o que sai ali pode ser resultado de experimentos, mas suponho que sejam os melhores resultados. Não é o caso. Tem coisa ali que eu teria definitivamente deixado de fora, mesmo que o livro ficasse um tanto menor do que as 350 páginas da edição gringa.

Falei da Introdução e aqui já deixo um aviso para quem tem o hábito de pular esse tipo de texto: NÃO PULE. Gaiman sempre escreve ótimas introduções, o relato sobre o que o inspirou, o que ele planejava com determinada história, etc – é sempre muito legal de ler, porque ele tem aquele jeito extremamente gostoso de escrever quando fala com o leitor (provavelmente da prática de anos escrevendo no blog). Além disso, ele costuma esconder microcontos nas introduções, e com Trigger Warning não é diferente – aliás, um microconto muito legal e seria o mais assustador do livro todo não fosse Click-Clack the Rattlebag (um dos meus favoritos, por algum motivo fiquei com The Babadook na cabeça enquanto lia).

Mas tem mais uma coisa que faz dessa introdução um texto importante dentro do livro: ao explicar parte do processo criativo, você acaba enxergando com outros olhos contos que seriam apenas medianos. Por exemplo: A Calendar of Tales é na maior parte do tempo chato – você conta nos dedos quais os meses que renderam histórias realmente boas (adorei a de Janeiro). Mas aí você fica sabendo que era um projeto do Gaiman com a Blackberry, que ele mandava perguntas no twitter para as pessoas e a partir das respostas ele ia compondo e as pessoas fizeram arte a partir das histórias e po, isso é muito legal. Não é só o texto.

Outra coisa que faz de alguns contos algo especial é a questão das influências e referências que, convenhamos, é meio o que a marca registrada do Gaiman, seja em romance, conto ou em HQ. Sobre isso ele já avisa na introdução:

“We authors, who trade in fictions for a living, are a continuum of all that we have seen and heard, and most importantly, all that we have read”

Down to a Sunless Sea, por exemplo, grita A Narrativa de Arthur Gordon Pym do Poe. The Case of Death and Honey tem Sherlock Holmes e The Man Who Forgot Ray Bradbury é, evidentemente, feito sob medida para quem é fã do autor de As Crônicas Marcianas. Um crítico do Guardian apontou uma influência do T.S. Eliot em My Last Land Lady. E por aí vai. Não acho que seja realmente preciso conhecer a fonte das referências, é meio que um extra. Lembra como você achava massa encontrar uma letra de música do Roy Orbison em Sandman, e aquilo não significava nada de relevante para a obra, mas mesmo assim era bacana? Então, é isso.

E aí tem os contos que são excelentes e o seriam mesmo que não tivessem todo um background envolvendo várias mídias na criação, ou esse jogo das referências de Gaiman. Diamonds and Pearls: A Fairy Tale cria imagens fortes, o que é até engraçado, porque segundo o autor esse conto estava presente no Who Killed Amanda Palmer, onde ele escreveu histórias para fotos de Amanda Palmer morta, e aí ele diz que escolheu esse porque não precisaria da foto e é exatamente isso, não é necessário. Em nada.

Adorei também Orange e Adventure Story, que por coincidência estão juntos na coletânea e, além disso, também compartilham de um senso de humor que Gaiman não mostrou tantas vezes no livro. Ri demais com a conclusão de Adventure Story por mais que o parágrafo inicial já apontasse aquele desfecho. Ri ainda mais com Orange, e achei muito bem sacada a ideia de criar a história a partir de respostas a um questionário. Você só lê as respostas, mas acaba descobrindo quais são as perguntas e, quando descobre o motivo daquele questionário, é ainda mais engraçado.

The Thing About Cassandra é também muito bom – eu não ia ler o livro do Gaiman tão logo foi lançado (e-book na pré-venda por 26 doletas na amazon, tá loco!), mas aí disponibilizaram uma amostra grátis chamada Little Trigger que tinha exatamente esse conto, e gostei tanto que quis continuar lendo o resto do livro. Observação: até fui procurar a amostra para linkar aqui, mas parece que já não existe mais, então malz aí quem perdeu.

Sobre os poemas, começamos a entrar um pouco nas tais das manias chatas do amigo. Não sou fã da poesia dele, preciso destacar (na minha cabeça ele não deveria ter ido além de Instructions). Achei Making a Chair (que abre a coletânea) razoável, mas os outros não tem como terminar e pensar por que diabos ele vai para esses lados quando a área dele é visivelmente a prosa. Acabo me sentindo mais ou menos assim:

Deixando claro: nada contra poesia (tenho até amigos que… uepa!). O negócio é que não é o forte dele. E tá tudo bem, ninguém precisa ser bom em tudo.

E aí tem também alguns casos como The Return of the Thin White Duke (inspirado no Bowie! Tinha tudo para ser bom!!!), Black Dog (com Shadow, personagem de Deuses Americanos) e Nothing O’Clock (desculpem aí, fãs de Doctor Who) que meudeusdocéu, precisei de paciência para chegar até o fim. Pode ser uma questão meramente pessoal, mas comigo eles não funcionaram e pareceram estar ali mais para encher linguiça do que qualquer outra coisa.

Enfim, é o que falei antes, a coletânea fica irregular. Claro, para o fã apaixonado a oportunidade de ter todos os textos juntos fala mais alto (a maior parte deles já tinha sido publicada em outros lugares, como The Sleeper and the Spindle, que ganhou uma edição lindíssima ilustrada pelo Chris Riddell), por outro lado não acho que seja um livro que apresentaria para alguém que está começando a conhecer o trabalho do Gaiman. Porque para ler o livro todo sem pular contos/poemas você vai precisar daquela leve dose de “Ok, ele escreveu coisas lindas como O Oceano no Fim do Caminho“, tenha fé e continue”.

No final das contas, é aquilo, ainda prefiro o Gaiman escrevendo romance para adultos, e adoraria que ele explorasse mais o lado cômico das histórias, porque ele tem um ótimo senso de humor. Mas mesmo que eu possa estar soando meio azeda nesse post, o fato é que no geral Trigger Warning vale a leitura.

Em tempo: um conto que achei um pouco chatinho embora bem executado, The Truth is a Cave in the Black Mountains, está saindo aqui no Brasil agora em fevereiro pela Intrínseca, em uma edição ilustrada por Eddie Campbell.

ATUALIZADO (28/08/2016): Só para avisar que saiu a tradução pela Intrínseca tem pouco tempo aqui no Brasil, o título é Alerta de Risco.

4 comentários em “Trigger Warning: Short Fictions and Disturbances (Neil Gaiman)”

    1. Ele adotou o título mais como crítica ao termo (por causa daquela polêmica dos EUA sobre colocar um “trigger warning” na capa de clássicos). A teoria dele é que a vida não tem trigger warnings, então ele não entende pq um livro teria que ter.

        1. É um questionamento válido, mas acho que a questão toda não é tão simples quanto a autora quis colocar (“Gaiman pegou o bonde andando e falou merda”, basicamente). De qualquer forma concordo com o que ela dá a entender de que se o livro não tem nada que vá de fato precisar de um Trigger Warning, então outro título teria evitado esse tipo de polêmica.

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