We Have Always Lived in the Castle (Shirley Jackson)

we_have_always_lived_in_the_castle_coverJá tem aí vários dias desde que terminei a leitura de We Have Always Lived in the Castle da escritora norte-americana Shirley Jackson. Estava quase desistindo de escrever sobre ele e ia saltar direto para o Bough Down de Karen Green (fica para outro dia), mas minha resolução de ano novo (cofcof) é que vou escrever um post para cada livro que adorei, então vamos lá.

Motivos para gostar de We Have Always… são vários. A capa pode enganar (parece de livro infantojuvenil), a autora também (Jackson é conhecida pelo terror The Haunting of Hill House, além de ser influência de autores como Stephen King e Richard Matheson – o que levaria o leitor a pensar que teria em mãos um livro de terror, pelo menos no sentido mais genérico da palavra). Mas se posso dar um conselho é: abandone as tentativas de adivinhações e se deixe levar pela história das duas irmãs Blackwood.

Lógico, não se deixe levar sem questionar. Fique atento. Especialmente atento quando quem narra é justamente uma das irmãs Blackwood, Mary Katherine (Merricat).

My name is Mary Katherine Blackwood. I am eighteen years old, and I live with my sister Constance. I have often thought that with any luck at all, I could have been born a werewolf, because the two middle fingers on both my hands are the same length, but I have had to be content with what I had. I dislike washing myself, and dogs, and noise. I like my sister Constance, and Richard Plantagenet, and Amanita phalloides, the death-cup mushroom. Everyone else in our family is dead.

Essas são as palavras que abrem a história. Lembro que assim que li, já grifei o trecho pensando “caramba, que parágrafo inicial!”, mas o engraçado é que após terminar o livro e voltar para esse começo que me dei conta de como deixei escapar informações importantes (ou pelo menos não dei como relevantes em um primeiro momento).

A narrativa começa já anos após o incidente do envenenamento, que matou quase todos os Blackwood. O veneno estava no açúcar: Merricat sobreviveu porque, como estava de castigo, não comeu. o Tio Julian nunca colocava muito açúcar em sua sobremesa, por isso sobreviveu (mas com sequelas, ficando completamente dependente dos cuidados das meninas Blackwood). Constance, a irmã mais velha da narradora, não gostava de açúcar. Mas além de ter sobrevivido, ela se tornou a suspeita número um do crime, já que ela também foi a responsável pela preparação da refeição daquele dia.

Todas essas informações são dadas aos poucos por Merricat. É óbvio que o crime deixou marcas nas vidas das meninas: Constance teve que enfrentar um tribunal, e anos depois todos os habitantes da vila próxima à mansão Blackwood ainda tratam as meninas como assassinas, ora com medo, ora com desdém. Provocam Merricat quando essa vai comprar mantimentos, ou sequer lhe dirigem a palavra.

Mas é aí que começam a aparecer as qualidades de We Have Always…, daquelas que fazem com que o livro seja acima da média. Aqui começam os spoilers também, então malz aí se você ainda não leu e se incomoda com esse tipo de informação.

Percebam na voz de Merricat, a fantasia que só a inocência de uma criança permitiria (as palavras mágicas, o jogo para ir e voltar da vila, etc.) misturada com frases como:

I would have liked to come into the grocery some morning and see them all, even the Elberts and the children, lying there crying with the pain of dying. I would help myself to groceries, I thought, stepping over their bodies, taking whatever I fancied from the shelves, and go home, with perhaps a kick for Mrs.Donell while she lay there. I was never sorry when I had thoughts like this; I only wished they would come true.

O que comentei antes sobre informações relevantes do parágrafo inicial que deixei passar se dá em muito porque por uma boa parte da história ainda pensava que era mais sobre descobrir o que aconteceu naquela noite do envenenamento do que sobre as Blackwood. Por sorte no momento da “revelação” da identidade do assassino (bastante óbvia, é claro: Merricat é insana) eu já tinha percebido que não era bem isso e consegui aproveitar um momento da narrativa que é simplesmente marcante: quando toda a vila começa a destruir a mansão Blackwood.

Eu não sei como descrever exatamente o sentimento, mas o modo como Jackson retrata a histeria coletiva, a voz de Merricat observando seu lar (sempre tão bem cuidado!) sendo despedaçado por pessoas que as odeiam sem nem saber o motivo – olha, foi bastante forte. É quase como se toda a história fosse construída para aquele momento, para ampliar o sentimento do leitor ao chegar no clímax da narrativa (o que compensa um pouco a parte da chegada do primo distante, que confesso, estava me irritando – mais pela maldade óbvia do primo do que por qualquer outra coisa).

E assim, chegando na conclusão, tem uma das melhores sacadas em termos de história de terror: as pessoas que destruíram a casa das Blackwood passam a levar comida para as duas, como forma de compensar o ocorrido. Aos poucos, o leitor vai percebendo o que está acontecendo ali. Sabe aquelas lendas que toda casa mais abandonada de bairro têm? “Ali mora uma velha que mata crianças para comer”, “Ali vivem duas bruxas”, etc. Pois então. Pelas frases que Merricat diz ouvir do lado de fora, conseguimos notar que é isso que está acontecendo com as duas, elas estão virando a lenda local.

Citei o Richard Matheson ali no começo, e foi impossível não lembrar de Eu sou a Lenda, que de certa forma também tinha esse twist: o protagonista da história é na realidade “o monstro”, pelo menos de acordo com quem observa do lado de fora de sua casa. É o que acontece com as irmãs Blackwoods. São protagonistas, mas para os habitantes da vila, elas são bruxas, assassinas. Enfim, os “monstros” das histórias de terror contadas na região.

Quando Merricat diz:

“Poor strangers,” I said. “They have so much to be afraid of.”

Ao mesmo tempo em que fala o que fazer com os ovos deixados pela mãe de uma criança como pedido de desculpas por ela tentar chegar perto da mansão, fica um sentimento duplo: Merricat é de fato perigosa. Mas ao mesmo tempo, não é nem de longe a figura que os vizinhos criaram porque no fundo precisavam temer algo, escolhendo, evidentemente, o diferente para tal.

Vale a leitura, até porque é realmente impressionante como com tão poucas páginas (eu diria que We Have Always… é uma novela, de tão curto que é) a autora consegue desenvolver tão bem o clima claustrofóbico, o suspense e, principalmente, uma personagem tão marcante quanto Merricat.

(Pela introdução da edição que li fiquei sabendo de um conto de Shirley Jackson que parece de certo modo lidar com alguns temas de We Have Always… chamado The Lottery. Assim que ler edito com alguns comentários aqui.)

ATUALIZADO (11/06/2016): A Suma das Letras anunciou que ano que vem lançará aqui no Brasil a tradução do livro.

2 comentários em “We Have Always Lived in the Castle (Shirley Jackson)”

  1. Bacana a resenha, Ana. =]
    Meu inglês ainda é fraquinho, mas vou tentar ler esse, mesmo (ou por isso mesmo) sabendo dos detalhes.
    Adoro “A assombração na Casa da Colina” (que já li inúmeras vezes) e fico chateada por a Shirley Jackson estar entre os autores que tiveram poucos (quase nenhum) livros publicados aqui no Brasil.

  2. Nossa, você falou do inglês, fui ver se tinha alguma tradução e não achei nada. Que bizarro, é uma escritora tão importante lá fora e não foi publicada aqui ainda? Achei só uma tradução de Portugal O_o

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