Quiçá (Luisa Geisler)

PV Rio de Janeiro (RJ) 09/10/2012 Capas de livro Foto: ReproduçãoJá comentei sobre isso quando escrevi sobre O lado bom da vida, mas como ninguém nunca clica em links vou falar novamente: o ato de ler um livro é, de certa maneira, um jogo de adivinhação. É algo quase inconsciente, funcionando como parte do processo de recepção da história. Lembro aqui de um trecho de A leitura de Vincent Jouve que explica bem essa questão:

O texto, com felicidade qualificado por Eco de “máquina preguiçosa”, necessita das previsões do leitor para funcionar. Depende dessa condição para poder confortá-lo, surpreendê-lo ou, simplesmente, interessá-lo. (pg.76)

Dando um exemplo, aposto que nesse exato momento você está pensando “Por que diabos a Anica está citando esse cara se o título ali no topo indica que ela quer falar de Quiçá da Luisa Geisler?“. Ok, acho que deu para entender como funciona. O negócio é que acredito que em alguns casos a participação do leitor nesse processo de adivinhação não toma um espaço tão importante na leitura, em outros, como acontece com Quiçá, grande parte do charme do livro é que ele dá uma importância maior para o leitor e suas adivinhações, graças à estrutura da narrativa.

O (breve) romance é estruturado da seguinte maneira: um capítulo que mescla dois tempos diferentes da vida dos primos Clarissa e Arthur, seguido por um capítulo que pode até ser lido como um microconto independente. Você, como leitor, tem ideia do que pode esperar porque talvez leia orelha de livros, resenhas e afins. A questão é que em um primeiro momento você não está nem adivinhando os rumos da história em si, mas tentando quebrar o código desse mecanismo. Quando o tempo do capítulo Arthur-Clarissa vai saltar do ponto da reunião de família para aquele ano em que o primo viveu na mesma casa de Clarissa? E nesse passado, o tempo segue de forma linear (do momento da mudança para quando Arthur voltará para casa) ou não-linear?

Então você se situa temporalmente percebendo que não será linear, que esse passado das personagens aparece como lembranças embaralhadas, quase como se o narrador tivesse em mãos um punhado de fotos de Arthur e Clarissa, tudo completamente desorganizado, mas que quando colocadas lado a lado fazem sentido.

E aí você “adivinha” essa parte do mecanismo, mas já tem outra tarefa em mãos: e os capítulos que seguem os da história principal, como funcionam? Inicialmente pensei que fossem rápidos vislumbres do futuro de Arthur e de Clarissa. Então, chega um momento em que não parece se encaixar com as personagens (aquele capítulo sobre A sordidez das pequenas coisas ser indicado ao Jabuti, por exemplo) e a partir daí você tenta “adivinhar” o que eles significam, ou, mais precisamente, qual o papel deles ali.

Aqui eu tenho que confessar que não tenho nenhuma opinião definitiva, não sinto que “quebrei o código”, digamos assim. Fiquei com a impressão que assim como a palavra “quiçá” se repete na narrativa para indicar situações que poderiam ocorrer de forma diferente, aqueles “microcontos” mostravam diferentes possibilidades na vida de outras pessoas.

Logo após terminar o livro fui procurar resenhas que batessem com minha impressão (ou que apontassem um outro tipo de leitura que eu talvez tivesse deixado passar), mas pouca gente parece comentar mais do que a mera existência desses capítulos (o que é uma pena, porque eles são muito legais). Acho que a sugestão que mais gostei foi a do Tuca no Rascunho, onde ele diz:

(…) os pares, nos lembram da quantidade de histórias que continuam a ocorrer pelo mundo enquanto suspendemos a descrença, mergulhamos num romance e convivemos por horas com personagens antes desconhecidos. Os capítulos pares são contos, fluxos de consciência, diálogos, entrevistas, citações literárias, entre outros olhares para uma realidade exterior à relação Arthur-Clarissa, o que pode gerar alguma controvérsia: há quem aprecie isto e quem creia ser algo ambicioso demais. Ou despropositado.

Não acho que tenha sido despropositado, estou do lado de quem gostou dos capítulos ali por mais que não tenha me sentido segura sobre o papel deles para o todo. Gostei porque gostei deles (simples assim: adoraria lê-los em uma coletânea, por exemplo, até aquele que era meramente um cep), mas também por ter me convidado a pensar, causado a estranheza, a quebra da expectativa (opa, esse não é o futuro dos dois). Eu não estava meramente recebendo uma história sobre a convivência de dois primos e participando como “adivinhadora” apenas para tentar antecipar os eventos do enredo, mas também tentando montar um quebra-cabeças.

Então é mais ou menos assim: se você pegou Quiçá para ler esperando ser um livro “fácil” por ser “curto” e por ser de uma escritora ainda jovem (nascida em 1991), já aviso que não é por aí. Ele vai exigir um pouco de você, e isso é ótimo.

E eu sei que pareço completamente apaixonada pela estrutura, fazendo parecer que o enredo não tem a menor importância e a autora poderia estar falando de batatas que eu estaria ok, só que não é isso. O enredo também encanta. Primeiro porque pelo menos no meu caso, tive uma identificação imediata com Clarissa. Tinha algo nela que fez com que eu lembrasse de um trecho de A vida é cheia de som e fúria, em que Rob fala:

(…) Nós, os idiotas, precisamos de alguém que nos salve dos sorrisos na fila do cinema nas noites de domingo, alguém, que nos impeça de cair no fosso, onde os solitários vivem com suas mães e pais. Nós, os idiotas, como dizia Shakespeare, devemos contar a história das nossas vidas, cheias de fúria e som, e que não significam nada.

Arthur é o sujeito que a salvará dos sorrisos na fila do cinema nas noites de domingo. Alguém que mostrará que tem algo além do que tirar boas notas e sair da escola para casa todos os dias. Eu tive Arthures em minha vida, pessoas que insistiam no “vamos lá, vamos sair” quando eu queria só ficar trancada no quarto ou esparramada no sofá vendo tv. Então você entende a relação, inclusive a admiração que a menina tem por aquele sujeito que embora seja mais velho, ainda não é de fato um adulto.

Além disso, há um mistério correndo timidamente as páginas do livro (ah, a adivinhação novamente). São pequenas frases, descrições de eventos que vão despertando a curiosidade do leitor. E senta que lá vem spoiler.

SPOILER: CLIQUE PARA LER
Se você está fazendo uma leitura mais atenta, o “plot twist” do fim, com o pai de Clarissa sendo também pai de Arthur não é exatamente um plot twist, é só consequência do que já estava sendo desenvolvido nessas pistas. Por que Arthur está sozinho no quarto com o pai de Clarissa? O que as tias de Clarissa tanto falam trancadas no quarto? É quase como se progressivamente o narrador fosse oferecendo as pistas, para que o leitor siga adivinhando e o desfecho venha como confirmação, não exatamente como surpresa.

Eu não sou o tipo de leitora que pensa que romances de estreia devam ser necessariamente fracos, mas me surpreendeu saber que esse foi o primeiro de Luisa Geisler porque já li muita coisa de escritor com ‘n’ livros publicados que não chegou perto de propôr (e cumprir) o que Quiçá faz. Não vou dizer que nada tenha me incomodado – a repetição sobre a descrição da tv, por exemplo, tem um propósito mas mais para frente fica chato, tanto que pensei até em brincar sobre isso e com os textos que li sobre Quiçá na internet incluindo um “Prêmio Sesc de Literatura” cada vez que citasse aqui o nome da Luisa Geisler, hehe. Mas entenda: aí já é um detalhe, e que bate mais no pessoal, sem influenciar o todo. E tenho certeza que para outras pessoas o efeito da repetição foi positivo do começo ao fim (só que sobre a questão do consumo, gostei mais daquele passeio de Clarissa com o pai no mercado).

De qualquer forma, foi uma ótima leitura. O mais engraçado é que anteriormente eu tinha começado algumas vezes e abandonado, só segui em frente nessa vez porque a Izze reforçou a recomendação quando comentei que estava empolgada com as escritoras brasileiras ao falar de Meu coração de pedra-pomes. Então: Izze, beijo pra você =*

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