Attachments (Rainbow Rowell)

Attachments-coverO quêêê? Rainbow Rowell de novo, Anica? Pois então. Resolvi seguir a sugestão da Marcia e fui conferir o primeiro livro da autora, até porque eu realmente gostei de Eleanor & Park.  Não pretendo entrar em comparações aqui, são livros completamente diferentes, e embora o mais recente pareça mais denso, acho que ainda tem muita coisa neste mais antigo para se observar, mesmo que de primeira você pense que é só um livro açucarado como outros tantos. Então, para eliminar de vez o Attachments x Eleanor & Park, basta dizer que há elementos que se repetem como os carinhas UÓÓÓÓMMMM! ou as meninas cheias de neuras sobre o corpo. Há também um punhado de referências culturais, que fazem a leitura ainda mais divertida, e nos dois casos você devora o livro sem nem perceber. Satisfeitos? Ok, agora vamos esquecer que existe um Eleanor & Park e vamos voltar nossos olhos só para o filho mais velho de Rowell, combinado?

Então. A história se passa em 1999, naquele período em que a internet ainda dava seus primeiros passos na vida das pessoas comuns. Lincoln é um carinha tímido que vive pulando de uma graduação para outra, sem saber muito bem o que quer da vida. Mora com a mãe (superprotetora) e acabou de aceitar um emprego na área de IT (have you tried turning it off and on again?), fiscalizando os emails dos funcionários para que não saíssem da linha com a ferramenta “nova” de trabalho. Parece ok, mas o negócio é que aos poucos ele começa a acompanhar a conversa de duas funcionárias, Jennifer e Beth, e apesar de apresentarem um monte de palavrão e estarem lidando apenas com assuntos pessoais, ainda assim ele não manda uma advertência. Porque aos poucos ele passa a gostar de ler aqueles emails, e mesmo daquelas meninas. Especialmente de Beth.

É óbvio que isso acaba sendo um problema. Primeiro porque ele não pode se declarar para a garota, não só por ser extremamente tímido, mas também porque né, como ele vai dizer que a conheceu lendo as conversas pessoais dela com a amiga. Segundo porque Beth tem namorado. Namorado dos sonhos, guitarrista lindo de banda que faz um monte de menina suspirar. E pronto, tá aí a engrenagem da história. É, como eu disse antes, bem açucarada e parece não ter nada demais, mas encanta. Não só porque é divertida, mas por trazer tantos elementos do final da década de 90  e ao mesmo tempo fazer com que possamos refletir como mesmo nossa relação com a internet já mudou.

Sobre as referências de 1999, é muito engraçado ver músicas, programas de tv e filmes da época sendo comentados. Beth é crítica de cinema, então muitas das conversas dela com Jennifer são recheadas de comentários sobre o que elas andam assistindo, o que vai desde O Clube da Luta até Pokémon. Há algumas escorregadas, como uma conversa sobre O Diário de Bridget Jones (que só saiu em 2001). Sim, sou chata ao ponto de ficar grifando referências para checar depois – é só que acho que se você vai escrever sobre um determinado ano, você pesquisa direito as referências. A Kika fez uma baita pesquisa sobre Inglaterra Vitoriana para o livro novo dela, por exemplo. É irônico que um livro que fale de internet esqueça justamente de uma das vantagens dessa: poder jogar o nome de um filme no imdb e saber a data de estreia em vários países, por exemplo. Mas enfim, aqui sou só eu sendo crica, é provável que muita gente nem lembre quando foi que saiu o filme.

De qualquer modo, há alguns momentos sutis que te transportam para aquele 1999. Uma pessoa brincando com o cordão do telefone enquanto conversa, ou o fato de não ter celular ser mais comum do que ter. E tem também, é claro, momentos nada sutis como os relacionados à paranoia do “bug do milênio“. Confesso que fiquei curiosa sobre a escolha do ano, aí fui pesquisar e achei no próprio site do livro uma resposta da autora (é só clicar no calendário sobre a mesa para ler todo o texto), o que acaba trazendo duas questões importantes sobre o modo como nos relacionamos com a internet.

A primeira, e aqui tomando o que a Rowell diz no site, é que aquele tipo de e-mail que Beth e Jennifer trocavam só é verossímil se pensarmos nas duas como pessoas que acabam de começar a usar emails, e portanto ainda fazem dele algo muito mais próximo da carta convencional do que da troca de mensagens que é tão influenciada inclusive pelos messengers e sms da vida. Uma linguagem não abreviada, seguindo uma estrutura, mesmo que apresentada do modo lá e cá. E então eu lembrei dos emails gigaaaaaaantes que eu mandava para minha amiga Nane, escrevendo sempre offline para enviar assim que chegasse a meia-noite e eu pudesse conectar. Ainda não dividíamos a conversa como é tão normal fazer hoje em dia, era uma resposta que seguia a ordem apresentada no email anterior. E é o que vemos nas trocas de email das garotas, mesmo que em alguns momentos sejam mais breves.

A segunda tem a ver com se apaixonar por alguém pela internet. Eu sei que isso acontece com bastante frequência (Fórum Valinor formou mais casais do que o Par Perfeito, aposto), mas há algo na história que só era possível naquele momento: de Lincoln se apaixonar sem nunca ter visto o rosto da pessoa. Não vamos seguir no esquema Catfish das coisas, de fingir ser quem não é. É mais que dava um trampo do cão mandar uma foto para alguém naquela época. Era tão complicado que eu lembro que a primeira foto que mandei foi pelo correio mesmo (ok, foi em 1998, mesmo assim…). Não era o tempo de celular com câmera e fotos de pintos e peitos a dois cliques de distância. Tem um tom de inocência que hoje não é mais possível. Se alguém te diz “não tenho câmera” atualmente, você automaticamente desconfia “Ihhh, é um barbudo pagando de menininha”, etc. Mas naqueles tempos o normal era não ter câmera. Aliás, câmeras fotográficas digitais só começaram a ficar mais acessíveis em 2002. Enfim, se a história acontecesse nos dias atuais, seria impossível não torcer o nariz para a demora de Lincoln em conhecer o rosto da amada, por exemplo.

Desse modo, Attachments não é nostálgico só pelas ‘n’ referências culturais (pelo visto uma marca registrada da autora), mas até pelo momento da Internet que ela retrata. E vá lá, além da nostalgia, a história é gostosa de ler também pelo clima de romance de filmes como os da época (há até um comentário sobre “o que Meg Ryan faria” em determinado momento). Aliás, acho que o clima para ler o livro é meio parecido com o que você precisaria estar para assistir Mensagem para você ou Sintonia de Amor (o último já tem 20 anos, socorro!!).

Em tempo: não, eu não sei quem vai publicar aqui no Brasil, nem se vão publicar (espero que sim). E eu sei que já linkei o site do livro, mas vou colocar o link aqui novamente porque realmente está bem legal. Tem uma crítica da Beth sobre Billy Elliot (recomendo a leitura só após já ter terminado o livro), lista de músicas favoritas das personagens, “cenas deletadas” e outras coisas mais. É legal ver a autora comentando sobre o que era seu primeiro livro, sobre como ela não tinha ideia do que estava fazendo e do que teve que mudar, incluindo aí o título do livro, que era para ser Re: Lincoln – o que seria realmente muito legal, mas concordo que as pessoas pensariam no presidente.

3 comentários em “Attachments (Rainbow Rowell)”

  1. Ai que emoção, que emoção, você leu um livro que eu indiquei! =) Fico feliz que tenha gostado!
    Só para constar: eu também já li por indicação sua – foi o Thirteen Reasons Why, muito bom, inclusive. Agora bora esperar o próximo dela, o Fangirl?

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