Imagina as pessoa tudo

Ontem saiu notícia de que a “bancada evangélica” da câmara de vereadores de Curitiba estava criticando o conteúdo da página da Prefeitura no Facebook, por apoiar o casamento gay. Sei que parece um negócio surreal (tanta coisa para ser feita e vão perder tempo com post no facebook?), mas calma que piora. Cito a reportagem do G1:

Para a vereadora, o casamento só pode ocorrer entre pessoas de sexo distinto. Na opinião dela, o texto publicado pela Prefeitura de Curitiba desconsidera os tradicionais casais heterossexuais que serão atendidos pelo programa. Pimentel ainda argumenta que a benção religiosa seria cerceada e critica a falta de discussão sobre o tema. Carla Pimentel afirmou ainda que não é uma questão religiosa e sim uma questão de princípios de governança, já que considera que a publicação foi tendenciosa para um Estado laico.

Ok, vamos por partes. Primeiro: “o texto publicado pela Prefeitura de Curitiba desconsidera os tradicionais casais heterossexuais que serão atendidos pelo programa”. O post que tanta revolta causou foi esse aqui:

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Como dá para perceber, o casal heterossexual é representado na figura do meio. Ou seja.

Segundo e Terceiro: Inicialmente temos que “Pimentel ainda argumenta que a benção religiosa seria cerceada” e então “considera que a publicação foi tendenciosa para um Estado laico“. Amiga, tua preocupação é diminuir a importância da cerimônia religiosa e você vem me dizer que a publicação que foi tendenciosa para um estado laico?

Confesso que jamais imaginaria que alguém da bancada evangélica usaria a carta do “estado laico”, mas depois me dei conta de como estão sendo espertos: o sentido de laico aqui não é de não ter relação com religião alguma, mas o de “respeitar todas as religiões”.

A falha principal desse raciocínio dela é que ser gay não é uma religião. Então vamos combinar que ficou no mínimo incoerente usar o termo “laico” aqui.

De qualquer forma, fiquei curiosa sobre a figura e fui pesquisar mais sobre ela. Bateu um puta peso na consciência, porque me dei conta (ainda mais em ano de eleição), que a gente faz esse auê todo na hora de votar, e aí larga os “eleitos” lá no cercadinho deles e deixa que eles façam o que quiserem.  Estou dizendo isso por causa disso aqui (que tem assinatura da mesma vereadora): Câmara aprova Dia da Família no calendário de Curitiba.

Nhoooum, que lindo, dia da família, combate à violência dentro de casa, o amor, a união. <3 <3 <3

Calma.

Para quem não clicou no link, cito a vereadora: “Temos muitos questionamentos sobre como a família é constituída. Essa Casa não pode se furtar desta discussão. A Declaração Universal de Direitos Humanos afirma que é direito da família ser protegida pelo Estado. Definir família é apenas reafirmar seu núcleo natural. Não entendo que existem dois tipos de família – moderna e tradicional. Entendo que há uma única família: a natural”.

NÚCLEO NATURAL. FAMÍLIA NATURAL. Está entendendo onde isso vai nos levar? Sim, isso mesmo.

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A velha história de que a imagem acima é cute, mas não é de uma família.

E o que quebra a perna é que o texto da proposição não fala em momento algum sobre família natural.  Consta apenas:

Art. 1º Fica instituído no Calendário Oficial do Município de Curitiba o Dia da Família – a ser comemorado, anualmente, no dia 29 do mês de agosto.

Art. 2º A data comemorativa ora instituída passará a constar do Calendário Oficial do Município de Curitiba.

Art. 3º O Poder Público Municipal poderá apoiar eventos ligados à comemoração da data ora criada, inclusive autorizando a realização de atividades culturais e religiosas.

Art. 4°. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

E na justificativa:

A proposta visa fundamentar a celebração e valorização da família, que é a base de toda a sociedade.

A data pretende estimulara reflexão, estabelecer vínculos, fundamentais como fraternidade, tolerância e cultura relacional. A proposta é que neste dia nos voltemos para a importância da família para que haja paz, firmamento de elo, vínculo, referência.

Desta forma, fortaleceremos o município.

Isso é de uma canalhice sem tamanho, não colocar no papel o que realmente está querendo propor com a lei. E me assusta MUITO que apenas UMA pessoa tenha questionado essa questão de “família natural” na votação (a saber, a vice-líder do PT, Professora Josete).

Querem mais uma coisa para fechar tudo com chave de ouro? A Carla Pimentel faz parte da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara.

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Pois é.

Conclusões dessa maluquice toda:

1. É (infelizmente) uma democracia, e tem quem se sinta representado por essa bancada evangélica (embora já que a moça tenha falado em estado laico, que coisa mais bizarra um estado laico com bancada evangélica, não?).

2. É (felizmente) uma democracia, e temos o direito (e o dever) de questionar as decisões da dita bancada evangélica. Vai dar trabalho, mas se te incomoda mesmo, não deixa o G1 ou a Gazeta do Povo te avisar. O site da Câmara tem tudo documentado, torna um hábito sempre dar uma conferida no que está acontecendo lá.

3. Cuidado com teu voto de zoeira. Muita gente vai às urnas achando que a eleição é decidida em um esquema “quem ganha mais voto”, mas não é assim que funciona para cargos como o de vereador. Aqui tem um texto que explica o que os vários votos de zoeira no Tiririca para deputado representaram na última eleição, acho que dá para entender como funciona o sistema proporcional. Atualizado: ótimo post do Eric Novello que explica bem o sistema proporcional, vale a pena ler.

4. E já dizia o João Lennon

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