A Peculiar Tristeza Guardada Num Bolo de Limão (Aimee Bender)

peculiartristezaRose é uma garotinha que está prestes a completar nove anos de idade, quando experimenta um bolo de limão com calda de chocolate feito especialmente por sua mãe. Ao colocá-lo na boca, sente um gosto ruim, mas não um sabor de ingrediente estragado ou excesso de doce ou seja lá o que deixa um bolo de limão ruim. Não, o que Rose sente é a profunda tristeza da mãe. É ali que ela descobre que tem um “poder especial”, de sentir o sentimento das pessoas ao comer algo preparado por elas. E então você une essa ideia bacanérrima com um título bastante curioso (gente, tenho uma queda por “peculiar”), uma capa fofíssima e lógico que a curiosidade sobre a história faz com que ele pule algumas posições na infinita lista de livros para ler. E aí quando você termina, com o perdão do trocadilho, sente um sabor meio agridoce. Aquela sensação de “certo, eu até gostei do livro, mas ao mesmo tempo, poutz, que ideia boa jogada fora!”. Mas me apresso, vamos devagar.

O fato é que para Rose, ainda uma criança, o tal do “poder especial” acaba se apresentando como um fardo, e não como uma dádiva. Isso porque a protagonista (e narradora) vive em um lar bastante disfuncional: não basta a mãe deprimida, ela tem um pai que parece bastante distante e um irmão tratado como prodígio mas que tem óbvios problemas para lidar com outras pessoas (inclusive Rose). Sem poder contar com a família e sem muitos amigos, a garota acaba recorrendo ao amigo do irmão, George, que a ajuda a “testar” seu poder, ou ainda, compreendê-lo melhor. A aproximação obviamente acaba virando uma apaixonite, mas sobre isso falamos logo mais. O fato é: esse primeiro momento da narrativa é fofo, embora não passe nenhuma ideia de onde é que vai dar (será uma história em que nada acontece? algo acontecerá? o foco será o poder de Rose?, etc). Mas assim que Rose começa a crescer, ela começa a ficar amarga e a narrativa também azeda. E juro que a partir de agora vou para com os termos relacionados ao paladar para falar de A peculiar tristeza guardada num bolo de limão, sério.

Enfim, qual o grande problema da história de Aimee Bender? O problema é que ela parece querer atirar para todos os lados, e acaba não abordando nenhum de modo satisfatório. Da Rose que prova o bolo de limão derivam na realidade cinco linhas narrativas: a mais óbvia, que mostra como a menina lida com essa habilidade; a história sobre como nos relacionamos com nossa família; a boa e velha história que conta como crescer é complicado; a de como ninguém se conhece de fato e, finalmente, o (im)provável romance dela com George. Siga qualquer uma dessas linhas e o que você vê é Bender só arranhando a superfície, sem se aprofundar no que precisava de mais profundidade. Parece que o maior cuidado que a autora teve foi com o plot da mãe – você consegue entender que ela se sentia solitária quando encontrou o amante e a marcenaria, que de certa forma preencheu o vazio que sentia com outros sentimentos (incluindo culpa, que Rose sentia no rosbife na hora do jantar).

O modo como Rose lida com a habilidade e a história sobre a dificuldade de deixar de ser criança acaba se entrelaçando, numa quase-metáfora sobre o que é se tornar adulto. Lembro de uma frase de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças que diz: “Adults are, like, this mess of sadness and phobias.“. A menininha doce vai dando lugar para uma jovem bastante triste, talvez até pelo contato que teve tão cedo com sentimentos tão ruins. Em algum momento alguém diz para a garota “Você é tão madura”, como se maturidade fosse sinônimo de observar o mundo com extremo cinismo. Confesso que passei a antipatizar com a narradora, porque ela parece claramente se achar superior às demais personagens. Algo como “eu sei o que você sente, sei que é ruim, e todo mundo só sente coisa ruim”. Ela simplesmente toca o foda-se e nunca relaciona-se de verdade com ninguém, mantém sempre uma distância “segura” que na realidade a torna tão reclusa quanto seu próprio irmão.

De qualquer modo, eu acho que se Bender tivesse seguido por essa linha, mantido o foco no crescimento de Rose traçando um paralelo com o desenvolvimento de sua nova habilidade, talvez a história teria me agradado mais (mesmo com a protagonista tão azeda). O problema é que do nada surge um capítulo sobre Joseph, o irmão de Rose, e por algum momento é quase como se ela nos dissesse: ei, tudo bem que eu tenho esse poder extraordinário, mas vamos dar uma espiadinha aqui no meu irmão esquisito porque talvez a história dele seja mais interessante. É uma ruptura que pode até se mostrar necessária mais para frente, mas que acaba desviando dessa ideia do crescimento, de como vamos nos tornando mais amargos a medida que vamos nos aproximando da fase adulta.

A questão é que esse desvio não funcionou. Deu ênfase para a questão familiar, ao fato de que nos desconhecemos completamente e sim, ajudou a trazer o plot de Rose e George para o centro da narrativa, mas o efeito foi aquele que comentei, de só arranhar a superfície. Joseph é extremamente complexo e precisava, na realidade, de uma história só dele, e não de um mocó na história da irmã. O fato de ele se transformar em móveis (ou sei lá, sumir quando em contato com eles) podia ter rendido muito mais, especialmente se lembrarmos a profissão que a mãe adota (que lida com móveis). Mas mesmo a relação entre Joseph e Rose é mal trabalhada. Do começo notamos um óbvio ressentimento de Rose por sua mãe amar mais o irmão do que ela, e notamos a necessidade da irmã em ser amada pelo irmão também – mas isso nunca chega a lugar nenhum. Joseph desaparece, e é isso.

E aí você pensa em como a figura do pai é deixada quase que de lado para só ser trabalhada mais para o fim, sendo que ele poderia contribuir bastante para a história (e aí ele acaba virando só mais uma das superfícies arranhadas). O pai de Rose parece saber o segredo de Joseph. Por que não falou disso antes? Ou ainda: por que nunca contou da habilidade especial do avô? E como assim ele se recusa a entrar em um hospital sendo que há uma possibilidade de a habilidade dele ser curar pessoas doentes? Páginas e páginas descrevendo os devaneios da mãe, o modo como ela pouco se importava com a família, e o pai fica assim, sem qualquer aprofundamento? Só uma personagem que “decidiu viver uma vida normal”?

É realmente uma pena, porque A peculiar tristeza guardada num bolo de limão tinha potencial para ser algo muito melhor. Não é exatamente ruim, mas não deixa de ser frustrante não ter o suficiente do que vai surgindo das memórias de Rose. Além disso, o tom extremamente melancólico da história faz com que você termine o livro com a sensação de… ok, quase usei uma palavra relacionada ao paladar. Enfim, eu sei que a vida não é perfeita e yadda yadda yadda, mas ver uma história de uma menina que enxerga o mundo com tal grau de cinismo é difícil de… argh, ok, é a última, prometo. Difícil de digerir.

PS: Uma das capas estrangeiras é tão linda quanto a nacional. Ah, e em inglês é “particular”, não “peculiar”. Gosto mais de peculiar. Adoro o som da palavra peculiar.

5 comentários em “A Peculiar Tristeza Guardada Num Bolo de Limão (Aimee Bender)”

    1. O título é muito lindo mesmo. E tem algo na voz da narradora que combina com isso (o tom de memória carregado de nostalgia, acho). Mas a autora realmente se perdeu. Sensação de que teve uma boa ideia e aí não soube bem o que fazer com isso e inventou um monte de coisa para que não percebêssemos hehe

  1. Eu concordo com toda sua resenha. A autora começa com uma boa idéia e não se decide pra onde ir, acaba falando de tudo e de nada ao mesmo tempo.
    A parte do Joseph é chata e estranha, nunca falam mais do pai, e não é necessariamente um mistério pra nossa imaginação. Eu tava gostando do livro até çomecar essa parte.

    Se ela resolvesse seguir só sobre o crescimento, a descoberta de como o seu dom poderia ser a profissão e passar de um fardo a algo positivo.

      1. É bem isso, Mila. Se ela conseguisse focar em um aspecto só, tenho certeza que o livro seria melhor. A ideia é boa, e tem muita coisa ali na personagem que dá para perceber o potencial da história. Só foi mal desenvolvida mesmo. 😐

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