Thirteen Reasons Why (Jay Asher)

ThirteenReasonsWhyMês passado ao comentar meu post sobre O futuro de nós dois, o Bruce falou sobre Thirteen Reasons Why, também escrito pelo Jay Asher. Fui pesquisar sobre o livro e fiquei bastante curiosa, porque parecia um daqueles casos de YA como A culpa é das estrelas e As vantagens de ser invisível: pode até ter um público-alvo, mas pode ser lido tanto por adolescentes quanto adultos. A história é sobre Hannah Baker, adolescente que decide se suicidar, mas deixa sete fitas cassete com um depoimento contando quais são os motivos (ou ainda, quem são os culpados) por seu suicídio, cada fita vem com um número pintado com esmalte azul, indicando a ordem para se ouvir o depoimento (assim como a ordem dos culpados). Há uma série de regras que garantem que as fitas chegarão apenas aos treze nomes listados por Hannah e quando o livro começa, é a vez de Clay Jensen ouvir as fitas, o que faz com que duas vozes acabem narrando o livro: Hannah (pelo depoimento na fita, marcado em itálico) e Clay, que descreve suas reações ao que está ouvindo.

Antes de continuar a falar sobre o livro, vamos para um apanhado de notícias:

Eu poderia continuar linkando uma série de notícias descrevendo o suicídio de adolescentes que sofreram bullying na escola (aparentemente a regra do jornalismo para não noticiar suicídio tem lá suas exceções), mas prefiro manter o foco nessas duas garotas em especial porque acho que elas têm algo em comum com Hannah. Vou falar melhor sobre isso ali para frente, mas tenha em mente essas duas garotas enquanto for pensar no enredo de Thirteen Reasons Why.

Então, Clay recebe as fitas e obviamente fica nervoso, pensando em como ele poderia ser culpado do suicídio. É num misto de medo da acusação e curiosidade sobre o que fez Hannah tomar a decisão que ele passa a noite (e depois a madrugada) ouvindo as 7 fitas, caminhando por lugares marcados em um mapa por Hannah, que de alguma forma têm algo a ver com o que ela está contando. Eu não acho que o livro seria tão viciante (e o termo é esse mesmo, viciante) não fosse esse equilíbrio entre Clay e Hannah, duas personagens mais do que carismáticas. Clay agrada por ser “um fofo”, não teria outro termo para usar. É aquele guri quieto da escola por quem todos nutrem uma simpatia automática, mesmo que não o conheçam de verdade, e pelo seu modo de agir e de pensar você consegue realmente acreditar nisso, e gostar da personagem.

Já Hannah é uma menina complexa e inteligente, mas sem aquele clichezão de “adolescente madura como um adulto”, que mais e mais eu acho que só existe por conta da incapacidade dos escritores de lembrarem o que era ser adolescente, pensar como um. Enfim, ela é só uma adolescente: com todas as inseguranças e dúvidas que costumam vir no pacote quando você está nessa faixa etária. Se você já está nos 20 e poucos (ou mais), sei que é fácil achar os motivos de Hannah meio bobos. Mas faça um esforço e lembre como é ser jovem, e ter todos os sentimentos superlativados porque no final das contas é o que você tem naquele momento. Não é que a vida não fica melhor quando você é adulto, o negócio é que você ganha uma série de preocupações que não tem quando mais novo, e isso faz com que você mude sua perspectiva. É como o Rob fala para Laura em Alta Fidelidade: “Aqueles tempos se foram, boa viagem e fodam-se eles; a infelicidade realmente significava algo naquela época. Agora é só um saco, como ficar resfriado ou não ter dinheiro. Se você realmente queria me sacanear, deveria ter me conhecido antes.

Há também o fato de que muita gente deixa de lado que Hannah não conta, mas deixa implícito. As treze razões não chegaram sozinhas, elas apenas criaram o momento insustentável no qual a garota se encontrava. Um dos sinais disso é quando um rapaz que não tem o nome citado dá um tapinha na bunda de Hannah, achando que está tudo bem tocá-la dessa forma, já que ela é “uma vadia”. A expressão nunca é usada, Hannah fala sempre sobre sua “reputação”, descrevendo pouco das consequências disso em seu cotidiano, mas que em alguns dos treze motivos fica bastante claro. A falta de respeito por Hannah como garota/mulher, a distorção das coisas transformando em vilã uma vítima. Hannah não é personagem de ficção. Hannah pode ser uma garota que você achou que estava ok passar a mão, porque todo mundo diz que ela é “uma vagaba” mesmo. Hannah é a Rehtaeh Parsons, Amanda Todd e outras tantas garotas que foram alvo de piadas porque, relaxa, é só uma brincadeira.

Lembra do filme Easy A? O que acontece com Hannah é parecido, com a diferença que ela toma um outro caminho: ao invés de comprar a briga, ela vai se fechando cada vez mais. E se você é daqueles que diz “Ah, eu faria como a personagem da Emma Stone, dane-se o que pensam”, etc. vou lembrar que há uma diferença bem grande entre se imaginar no lugar das personagens e estar de fato no lugar das personagens e que no caso de Easy A a personagem transborda autoconfiança, quando Hannah é uma garota que teve sua autoconfiança completamente destruída com o tempo (junto com a confiança nas outras pessoas). Isso nunca aconteceu comigo, passei minha adolescência sem qualquer grande evento traumatizante (acho que era desligada e inocente demais para perceber se me zoavam), e talvez por isso minha dificuldade em tentar prever como eu reagiria.

Se existe uma mensagem em Thirteen Reasons Why, acredito que não seja de apologia ao suicídio, mas de alerta para todos nós. De como nos esquecemos que nossas ações afetam as vidas dos outros, e de como você pode ir para casa e esquecer do que acabou de fazer com alguém, mas aquele alguém continuará sofrendo pro aquilo. De como treze razões podem ir ao chão quando a pessoa encontra uma razão para não desistir, e que você pode ser a pessoa a dar essa uma razão. Você não se irrita quando está chateado e um amigo chega para você e te diz “Não fica assim”, como se “não ficar assim” fosse solução, como se existisse botão de ligar e desligar tristeza? Imagine o que é para uma pessoa sequer poder contar com um “não fique assim”.

Thirteen Reasons Why já tem o mérito de tratar de um assunto difícil de uma forma clara e precisa. Mas some a isso o fato de que o modo como a história se desenrola te deixa completamente curioso para saber o que vem a seguir. Em um determinado momento você se encontra tão envolvido com o drama das personagens que um grito de dor de Clay parece estar também travado na sua garganta, de sentir um aperto no peito mesmo. Hannah consegue falar tão bem de seus motivos que você quase consegue escutar a voz saindo daquele texto em itálico. No final das contas não acho que cabe aqui questionar os motivos de Hannah, mas sim questionar como tudo aquilo poderia ser diferente com um pouco mais de gentileza.

Últimas:

  • O livro saiu aqui no Brasil pela Editora Ática como Os 13 Porquês.
  • Mal passa de 250 páginas, em duas noites dá para dar conta dele (foi o que eu fiz, realmente não conseguia parar de ler)
  • Não consigo acreditar que o autor é o mesmo de O futuro de nós dois.
  • Tem toda uma conversa sobre adaptação cinematográfica com Selena Gomez como Hannah, mas nada de concreto ainda.
  • Tem um blog chamado Hannah’s Reasons que conta com alguns videos com trechos dos depoimentos dela, aqui.
  • Evitem o artigo em português da wiki. Ele enumera as treze razões e bem, entregando alguns spoilers. Não que estrague a leitura, mas né, sempre bom avisar.
  • Obrigada pela sugestão, Bruce. 😉

Um comentário em “Thirteen Reasons Why (Jay Asher)”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *