Arte e Letra: Estórias M

Quando lemos um pouco sobre a literatura do século XIX, muitos dos nomes que conhecemos até os dias de hoje tinham algo em comum, que era a publicação de seus escritos em jornal. Na maior parte das vezes eram contos, ou romances públicados em capítulos tais como se fossem novela, que garantiam o ganha pão do autor e a diversão de várias pessoas em uma época sem televisão, computador ou seja lá o que as pessoas considerem entretenimento hoje em dia. Edgar Allan Poe, Sir Arthur Conan Doyle… tenha certeza, muitos desses não estariam entre nossos favoritos caso não tivessem ganhado um espaço em periódicos daquele tempo.

E é pensando justamente nisso que a proposta da editora Arte e Letra para a revista Estórias é tão importante. Em uma revista-livro caprichadíssima, temos o que de certa forma seria a versão moderna daquelas publicações do século XIX: a possibilidade de conhecer novos escritores e de resgatar outros tantos que podem por ventura ter sido esquecidos com o passar do tempo. É um espaço para quem escreve, mas é também (e isso é importante destacar) diversão garantida para o leitor que busca na leitura não só prazer, mas a certeza de ter um texto de qualidade em mãos.

Continue lendo “Arte e Letra: Estórias M”

Gertrudes e Cláudio (John Updike)

Descrever os eventos que ocorreram antes de Hamlet, a peça de Shakespeare. Parece bastante ousado, considerando a quantidade de apaixonados pela peça, a quantidade de estudiosos que ela acumulou ao longo dos séculos e, mais importante, por ser de Shakespeare. Mas John Updike assume a tarefa no romance Gertrudes e Cláudio, livro publicado em 2000 que conta a vida de Gertrude desde um pouco antes de casar com rei Hamlet até o primeiro ato de uma das obras mais famosas do teatro.

O livro toma como base três fontes diferentes: a mais antiga é o registro da história da Dinamarca por Saxo Grammaticus (século XII). Também usa como referência o texto do francês François de Belleforest (século XVI) e óbvio, o próprio Hamlet de Shakespeare. O romance é dividido em três partes, e em cada uma delas algumas personagens apresentam nomes com grafias diferentes (Getrudes, por exemplo, é Gerutha na primeira parte e Geruthe na segunda). As mudanças não são sempre explicadas, mas o autor explica que tanto Cláudio quanto Polônio “latinizaram” o nome quando o irmão de Rei Hamlet assumiu o poder.

Continue lendo “Gertrudes e Cláudio (John Updike)”

O Longo Adeus (Raymond Chandler)

Feche os olhos e pense em um detetive particular dos filmes e livros noir. Pensou? Provavelmente o que veio na sua mente foi aquele sujeito meio cínico, de atitudes violentas quando necessárias, senso de humor corrosivo e cujo visual assemelha-se muito com Humphrey Bogart usando chapéu e capote, e sempre com um cigarro por perto, como dá para ver nessa imagem aqui:

Isso não acontece à toa. Muito do que se lê/vê de noir teve fortíssima influência de Raymond Chandler (1888-1959), que nos tempos do pós-Guerra e pós-Depressão escreveu várias histórias com uma personagem que viraria modelo de detetive particular, Philip Marlowe. E é lendo obras como O longo adeus (publicada originalmente em 1954) que dá para ter uma ideia de porque a personagem ficou tão famosa e, mais do que isso, porque é tão imitada.

Continue lendo “O Longo Adeus (Raymond Chandler)”

Luka e o Fogo da Vida (Salman Rushdie)

Vinte anos após a publicação de Haroun e o Mar de Histórias, Salman Rushdie publica o que seria uma continuação desse primeiro livro, Luka e o Fogo da Vida. De fato, personagens do primeiro livro reaparecem, mas como o foco desta vez é o caçula do contador de histórias Rashid Khalifa, o que temos é uma obra que pode ser lida de forma independente sem apresentar qualquer dificuldade de compreensão.

Luka e o Fogo da Vida foi escrito para o filho mais novo de Rushdie, e assim voltado para o público infantojuvenil. Mas é o típico caso de livro escrito para um público mas que pode agradar todo tipo de leitor, porque resgata não só a magia de histórias já conhecidas (sejam de mitologias milenares, seja do imaginário da cultura pop), mas também a estrutura básica dos contos populares, dando aquela sensação de familiaridade com o texto que permite para quem o lê simplesmente se deixar levar pela história, seduzido página após página pelo mundo encantado criado por Rushdie.

Continue lendo “Luka e o Fogo da Vida (Salman Rushdie)”

Oriente, Ocidente (Salman Rushdie)

A crítica literária sempre debate sobre o real peso da biografia de um autor na compreensão de sua obra, debate esse marcado por dois extremos: os que acham que é perigoso interpretar um texto considerando a vida do autor, e os que acham que é simplesmente fundamental. De minha parte continuo achando que o ideal é o meio termo, antes de tudo saber identificar quando dados biográficos realmente vão de encontro ao texto, podendo ser então utilizados para o estudo da obra.

No caso de Salman Rushdie, escritor nascido em Mumbai na Índia, mas que ainda jovem foi estudar na Inglaterra, acredito que deixar de lado sua biografia chega quase a ser um pecado, ainda mais no caso de Oriente, Ocidente, coletânea de contos publicada originalmente em 1994 e que agora a Companhia das Letras lança em formato de bolso através do selo Companhia de Bolso. O título mostra de bastante óbvia o que veremos nas (poucas!) 168 páginas do livro: mundos aparentemente tão diferentes se mesclam, criando uma literatura sem pátria, sem fronteiras – tal e qual acontece com pessoas como Rushdie, nascidas em um lugar mas que passaram a viver muito tempo de vida em outro.

Continue lendo “Oriente, Ocidente (Salman Rushdie)”

Lolita (Vladimir Nabokov)

Publicado originalmente em 1955, Lolita do escritor russo Vladimir Nabokov chega com nova tradução no Brasil pelo selo Alfaguara. São aí mais de 50 anos que dividem o momento da primeira publicação (após a recusa de diversos editores) para essa tradução de Sergio Flaksman. E mesmo com todo esse tempo, Lolita ainda é um livro moderno, que mais do que sobrevive ao tempo: consegue se moldar de acordo com o momento em que o leitor tem o livro em mãos.

Isso porque para quem passa da primeira parte do romance, fica mais do que óbvio que ele vai muito além do suposto teor erótico que marcam os primeiros momentos do livro. Nabokov chega a zombar no artigo “Sobre um livro entitulado Lolita” (escrito em 1956 e presente nesta edição da Alfaguara) que alguns dos leitores que abandonaram a obra o fizeram levando em conta a primeira parte, achando que a narrativa seguiria esse caminho. E complementa: “Se acharam ou não que seria pornográfico não me interessava. Sua recusa em comprar o livro baseava-se não em meu tratamento do tema, mas no tema em si, pois existem pelo menos três temas que são totalmente tabu no entender dos editores americanos.

Continue lendo “Lolita (Vladimir Nabokov)”

A Morte de Bunny Munro (Nick Cave)

É complicado começar a falar de A Morte de Bunny Munro sem comentar sobre o autor, Nick Cave, até porque a simples menção desse nome já explica a curiosidade de muita gente sobre o título. Ele é bastante conhecido como músico, através do seu trabalho com The Bad Seeds (sempre com canções envolvendo morte, religião e outros assuntos polêmicos), mas quando o assunto é arte ele não para aí: já escreveu roteiros e até atuou em certos filmes (dá uma conferida aqui) e lá fora já publicou dois romances.

A Morte de Bunny Munro é o segundo, porém é o primeiro que ganha tradução aqui no Brasil, dando a chance para muitas pessoas daqui conhecerem essa outra face do músico por trás de canções como Red Right Hand e Into My Arms. E para quem está com medo de se decepcionar, fica desde já o aviso: o escritor também sabe agradar muito bem seu público.

Continue lendo “A Morte de Bunny Munro (Nick Cave)”

As Intermitências da Morte (José Saramago)

No dia seguinte ninguém morreu. É como José Saramago abre o livro As Intermitências da Morte, publicado originalmente em 2005. O que se vê a seguir é o que aconteceria se a morte (sim, ela insiste no uso da letra minúscula) não cumprisse seus deveres. Inicialmente recebida como uma boa notícia, logo se percebe que “não morrer” não é exatamente o maior desejo do ser humano, visto que “não morrer” quando você está doente e sofrendo não parece uma boa perspectiva, por exemplo.

A partir dessa ideia das “férias” da morte, Saramago mais uma vez usa de sua língua ferina para criticar diversos setores de nossa sociedade e, por que não dizer, nós mesmos. Mas a crítica é feita com um senso de humor formidável, fazendo da obra talvez uma das mais leves que já tive a oportunidade de ler de Saramago, o que não deixa de ser irônico visto que lida com um dos nossos maiores tabus.

Continue lendo “As Intermitências da Morte (José Saramago)”

Tequila Vermelha (Rick Riordan)

Rick Riordan é mundialmente conhecido como o autor da série juvenil Percy Jackson e os Olimpianos. Agora chega ao Brasil a tradução de seu primeiro livro voltado para o público adulto, Tequila Vermelha, apresentando ao público a personagem Tres Navarre, que lá fora aparece em uma série que já conta com seis títulos. E esta foi minha primeira oportunidade de conferir o trabalho do escritor, o que resultou em um saldo bastante positivo.

Lembra dos filmes de antigamente da Sessão da Tarde? Aquela dose certa entre o divertido e a ação, sem necessariamente ser idiota? Tequila Vermelha segue esse caminho. O ritmo da narrativa é ágil, e a história se divide em capítulos curtos que vão sendo devorados sem que o leitor sequer perceba que o tempo está passando, tamanha a diversão que o livro oferece.

Continue lendo “Tequila Vermelha (Rick Riordan)”

There Once Lived a Woman who Tried to Kill Her Neighbor’s Baby

There Once Lived a Woman who Tried to Kill Her Neighbor’s Baby chegou nos Estados Unidos em 2009, através de uma tradução de Keith Gessen e Anna Summers publicada pela Penguin. O livro traz uma coletânea 19 de contos da escritora russa Lyudmila Petrushevskaya, selecionados pelos tradutores e divididos em quatro categorias:  Song of the Eastern Slavs, Allegories, Requiems e Fairy Tales; todos englobados pelo subtítulo “contos de fadas assustadores”.

Por contos de fadas é importante ressaltar que esse não é um livro indicado para o público infantil. O tom predominante das histórias é o horror, mostrando como a história de um país acaba se refletindo na obra de um escritor, aqui Petrushevskaya (nascida em 1938) traz consigo a herança do pós-guerra (extremamente forte na cultura russa), com todo o pessimismo e melancolia desses tempos.  Pense nos contos de “There once lived a woman…” como se Crime e Castigo virasse contos de fadas, e então você terá uma boa ideia de como se apresentarão enredo e personagens ao longo das histórias.

Continue lendo “There Once Lived a Woman who Tried to Kill Her Neighbor’s Baby”