Waiting on a Friend (Natalie Adler)

A memória mais antiga que tenho da epidemia de AIDS é a infame capa da Veja com o Cazuza – e nem é de quando foi lançada, no final de 1989. A revista se congratulava muito pelo barulho ao redor da capa1, e nos anos seguintes volta e meia ela aparecia em matérias sobre a doença. Acredito que considerando que na época da capa eu tinha ainda oito anos, é normal que eu demorasse quase dez anos para entender a gravidade do assunto. Isso tudo para dizer que, embora nascida em 1981, eu não vivi de fato aquele período e não sei muito sobre ele a não ser o que li depois.

O material sobre os primeiros anos da epidemia é farto. Representações no cinema, reportagens, artigos, livros. O quadro formado não é bonito, e sempre o que mais se destaca é o preconceito da época, já que inicialmente a AIDS era vista como uma “doença de gays”. Você que sobreviveu à pandemia de COVID e agora está com o olho tremelicando só de lembrar como muita gente achou que dava para tocar uma vida normal já que “só idoso morria de COVID”, talvez consiga ter alguma ideia do que esse descaso inicial com a epidemia significou porque inicialmente criou-se a ideia de que existia um “grupo de risco” cuja vida era dispensável ou não relevante.

A questão é: ainda que igualmente revoltante, não foi de forma alguma a mesma coisa. O descaso do começo da epidemia de AIDS tinha um toque de crueldade, uma visão asquerosa de que a doença era uma espécie de punição para um grupo específico de pessoas. Basta assistir ao curta da Vanity Fair When AIDS Was Funny, que trouxe ao público áudios até então inéditos da conferências de imprensa da época do começo da epidemia. Eu recomendo o clique porque acho importante sempre não esquecer para não repetir, mas é sim um conteúdo pesadíssimo, especialmente quando passa o som da risada de todo mundo na conferência de imprensa assim que o repórter se refere à doença como “peste gay”.

No resgate do áudio da conferência que aconteceu em 1982, já com quase 1000 mortes nos Estados Unidos, é possível ouvir o diálogo entre um jornalista e o então secretário de imprensa da Casa Branca:

Lester Kinsolving: O presidente tem alguma reação ao anúncio do CDC em Atlanta de que a AIDS agora é uma epidemia com mais de 600 casos?

Larry Speakes: AIDS? Não tenho nada a dizer sobre isso.

Lester Kinsolving: Mais de um terço deles morreram. É conhecida como a “peste gay”. [Risos da imprensa.] Não, é mesmo. É uma coisa muito séria. Uma em cada três pessoas que contraem a doença morre. E eu me pergunto se o presidente estava ciente disso.

Larry Speakes: Eu não tenho. [Risos da imprensa.] E você?

Lester Kinsolving: Você não tem? Bom, fico aliviado em saber disso, Larry! [Risos da imprensa.]

E se trago isso aqui é porque resolvi falar do romance de estreia de Natalie Adler chamado Waiting on a Friend e não acho que seria possível explicar um dos pontos fortes do livro sem contextualizar esses primeiros anos da epidemia de AIDS, que é quando a história se passa. Eu vou falar disso mais para frente, mas vamos começar com um breve resumo da história: Renata é uma nova iorquina com uma habilidade peculiar: ela consegue enxergar pessoas mortas. Já acostumada com os encontros paranormais, ela perde o melhor amigo e obviamente espera reencontrá-lo. A questão é que ele nunca reaparece. A primeira frase do livro é daquelas ótimas para já prender nossa atenção: “When Mark died, I thought I’d start seeing him around more.”

Falando assim fica até estranho ter passado tantas linhas falando sobre AIDS, mas faltaram os marcadores: Renata é lésbica, e quem morre de AIDS é o amigo gay Mark – e antes deles alguns outros amigos faleceram por causa da mesma doença. É aqui que entra um dos pontos fortes do livro que estava comentando: a autora não vai em nenhum momento se esquivar dos horrores daquele começo de epidemia dentro do grupo de pessoas que Renata tinha como uma família. O não saber o que estava acontecendo, ver em tempo real vidas tão queridas se desmanchando, a indignidade do modo como eram tratados no fim da vida. Está tudo lá.

A questão é que no meio do horror, Adler consegue alinhavar outros fios através de uma galeria de personagens que mesmo quando ganham poucas páginas na história, ainda assim nos encantam. É assim: com o cenário retratado a autora poderia facilmente pender para o lado do pornô de sofrimento, mas ela consegue equilibrar o tom da obra de um jeito quase dissonante – ao mesmo tempo que Renata relembra da vida com Mark e acompanhamos a dificuldade da personagem durante os primeiros momentos do luto, temos uma história correndo paralelamente envolvendo um grupo de caça-fantasmas do mal que prende assombrações de apartamentos que passarão por uma espécie de processo de gentrificação.

(Há aí uma metáfora sobre essas vítimas não aceitarem serem silenciadas, mas eu acho que não é bem executada no livro, até pela falta do retorno de Mark. Mas comento apenas entre parênteses porque no fundo é algo meio irrelevante para o todo.)

A trama dos caça-fantasmas é meio bobinha, quase como um episódio de Scooby Doo. Mas eu acho que funciona dentro de Waiting on a Friend porque a narrativa cheia de constrastes (um tema sério sendo tratado de modo sério, depois engraçado, por exemplo) acaba espelhando o processo de luto que a protagonista está vivendo: nada é simples, mesmo o tempo fica todo embaralhado, os sentimentos se confundem da culpa de ter sobrevivido até a sensação de ter sido deixada para trás (como quando cita um poema dizendo “If there is a place further from me I beg you do not go“).

O que complica o luto de Renata é que ela ainda não tinha se recuperado da perda da mãe. E o todo da história é o caminho que a protagonista percorrerá para finalmente fazer as pazes com a perda do amigo/irmão/amante/alma gêmea. Eu acho curioso o quanto ela revela dos sentimentos não para os amigos mais próximos, mas justamente Patrick, o último namorado de Mark que ela ressente por ter roubado o tempo que eles teriam juntos.

“I’m angry,” I said, “because there was supposed to be more time.”

“You had a decade.”

“That’s not enough.”

“It’s a third of your life.”

“And one day it will be much less.”

A escrita de Adler é ótima porque ela consegue captar bem o absurdo da dor da perda para quem precisa continuar tocando a vida, seguindo em situações cotidianas, mas agora sem uma pessoa ali. Por exemplo: “Everything my mother left behind was a reminder that she didn’t need it anymore” ou ainda “You just hurt and hurt and eventually someone asks you what you want for dinner and then the rent is due.“. Além disso, ela também domina muito bem os diálogos. Se você já teve a sorte de ter um grupo de amigos brilhantes que cada conversa parecia ter saído direto de uma peça de teatro, vai entender bem o que são as conversas entre os amigos de Renata.

He wanted to go home to France for treatment because, he was sure, they wouldn’t treat him like garbage like they did here. His boyfriend, Leon, said, “Don’t be silly, baby. In this country, garbage gets taken care of.”

“It’s a good line”, Mark said, “But the garbagemen do go on strike every couple of years.”

E a parte bonita da história é justamente essa família que Renata (órfã) encontra nos amigos. São pequenos detalhes, algumas vezes grandes ações, mas está sempre ali o afeto que nutrem um pelo outro, como se cuidam e se protegem. Eu não acho que deixa tudo menos triste, mas há uma nota diferente na história quando você percebe que apesar do medo, aquelas pessoas não estavam sozinhas. É, de novo, o contraditório: a solidão da doença mesmo quando rodeado de pessoas que te amam tanto. O senso de comunidade vindo de um grupo que é abandonado por um governo que deveria protegê-los. Achar humor quando tudo parece infinitamente triste.

E eu já estava completamente encantada com o livro, mas o desfecho me conquistou ainda mais. Em uma parada de Halloween (a festa dos mortos, vale lembrar), Renata finalmente vê Mark. Mas não como ela tinha visto todos os outros fantasmas até então. É, no fim das contas, ela aceitando a perda de Mark.

“All I’d ever have of him is what we already had. It wasn’t enough, but it was so much. I watched Mark take me by the hand and we disappeared into the crowd. I held on, and I let go.”

***

Para quem achar que o tom de humor não combina com o tema e preferir uma narrativa mais sóbria (e infinitamente mais triste) eu recomendo também Juno Loves Legs de Karl Geary. Ele foi publicado em 2023 e também se passa nos anos 80, mas nesse caso o cenário é Dublin. A relação de Juno com Legs é mais platônica do que a de Renata e Mark, mas também passa por um grau de amor e confiança que só são possíveis após anos de convivência. E como é de se imaginar, assim como acontece em Waiting on a Friend, Juno Loves Legs também tratará de perda e luto. E a edição americana tem uma capa linda demais que eu espero de verdade que seja a mesma aqui no Brasil caso um dia alguma editora resolva traduzir o livro.

  1. isso aqui por si só já era um sinal do que a revista se transformaria em tempos de cliques e views como métrica, né, vale tudo desde que exista um número grande de gente acessando

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