Brasil x Escócia em dois tempos (não é sobre futebol)

E aí que veio a notícia ruim, e como acontece sempre que recebemos uma notícia desse tipo, ficamos meio maníacos por memórias. Criar memórias, resgatar memórias, como se lembrança por si só fosse vida. Por causa disso, ontem assistimos Brasil x Escócia juntos, uma cobertura legal, churrasquinho em plena quarta-feira à noite, duas tvs enormes e muito frio. Após o jogo perguntei para o Arthur o que ele achou da bagunça toda, ele sorriu e disse que gostou, descreveu a noite como “Umas três pessoas assistindo ao jogo e um monte de gente conversando alto sobre assuntos aleatórios”, ficou feliz por ganhar (e não ganhar) o bolão de Schrödinger.

Eu voltei paras minhas lembranças mais antigas de Copa. Tenho registrado em um diário um Brasil x Escócia anterior, de um tempo que as notícias ruins ainda não chegavam com tanta constância. Copa de 1998, seleção com muito mais moral do que na Copa anterior, embora sem o Romário. Assistimos na casa da vó, mas o cenário era o mesmo descrito pelo Tui, muito barulho e conversa, porque é o que a família faz quando reunida.

Ter o registro anotado em diário ajuda a ser mais precisa: 10 de junho de 1998, 2×1 para o Brasil (Escócia bem retranqueira). Por causa de comentários sobre outras coisas naquela página acabei relendo mais dias daquele ano, o primeiro em que estar em família já não era mais minha opção preferida, eu queria estar no bar com os amigos.

É estranho porque relendo aquelas páginas eu fiquei com a impressão de que pouco conheço daquela guria ansiosa para que a vida começasse logo. Me dei conta que com o acúmulo de anos, fui deixando aquela versão minha do outro Brasil x Escócia cada vez mais longe da versão que assistiu ao Brasil x Escócia de 2026. É um pouco aquela fala da Nora Ephron no discurso para as formandas da Wellesley de 1996:

Temos um jogo que fazemos enquanto esperamos por mesas em restaurantes, em que temos que escrever cinco coisas que nos descrevem em um pedaço de papel. Quando eu tinha a sua idade, teria escrito: ambiciosa, formada em Wellesley, filha, democrata, solteira. Dez anos depois, nenhuma dessas cinco coisas aparecia na minha lista. Eu era: jornalista, feminista, nova-iorquina, divorciada, engraçada. Hoje, nenhuma dessas cinco coisas aparece na minha lista: escritora, diretora, mãe, irmã, feliz. Quaisquer que sejam essas cinco coisas para você hoje, elas não estarão na lista daqui a dez anos — não que você não vá continuar sendo algumas delas, mas elas não serão as cinco coisas mais importantes sobre você. O que é uma das coisas mais deliciosas disponíveis para as mulheres, e mais particularmente para as mulheres do que para os homens. Eu acho. É um pouco mais fácil para nós mudarmos, mudarmos de ideia, seguirmos outro caminho.

Mas ao invés de escolher um número arbitrário de anos, eu escolho Copas. Talvez porque também sempre tive a superstição de que coisas boas acontecem comigo nos anos de Copa (e que podemos combinar que com esse 2026, é uma bobagem tremenda), o fato é que eu pareço mudar de quatro em quatro anos, mas entre um Brasil x Escócia, já são 28 anos de mudanças acumuladas.

Só que a constante sempre foi você, né? Mesmo que nossa relação tenha mudado muito de 1998 até 2026, o fato é que por sempre estar tão perto (e mesmo quando nos afastávamos, sempre tinha o momento de colocar tudo em dia em algum café da cidade), talvez você seja a pessoa que mais sabe de mim, porque com você sempre conversei sem filtro.

Eu não sei muito bem o que pensar sobre o que está acontecendo. Eu sei que você está calma, ontem quando nos falamos você comentou sobre a fé em Deus te ajudar e aí vai ver que a minha falta de crença em um Deus intervencionista meio que esteja atrapalhando o processo todo. Continuo achando tudo tão injusto, e querendo só mais um pouco de tempo, outras Copas, outros Brasil x Escócia.

Um dia antes fui ao teatro. Quando comprei o ingresso meses antes, o plano era assistirmos juntas. A gente não tem como prever as coisas mesmo, a vida gosta de mandar esses lembretes de quando em quando. Você tinha decidido que iria, mesmo que com desconforto, mas no último momento desistiu. Senti demais sua falta lá. A peça foi incrível, o Duvivier é ótimo e eu sei que sairíamos dali com a cabeça fervendo de ideias, como saímos de tantos lugares em outros momentos. Fui embora pensando que muito do que faz o teatro ser algo tão especial é a efemeridade. Um filme você pode assistir várias e várias vezes, mas uma apresentação de teatro é única porque teatro é um tanto química entre roteiro, atores e plateia.

E eu sei que não sou a primeira pessoa a fazer a comparação, mas nisso a vida parece muito com o teatro. É uma apresentação só, sem ensaio. Você ser uma pessoa que ama tanta o teatro acaba reforçando ainda mais a semelhança. Eu queria poder falar da peça com você, já não dá mais.

***

Eu ia largar esse post nos rascunhos, voltei hoje, só uma semana depois. A notícia ruim ficou pior, porque agora tem tintas de algo se concretizando. Ouvir a mãe falando de arrumar a papelada no cemitério, ou me avisando ontem à noite de um prazo definido por enfermeira foi aquela baldada de água fria, o momento de aceitar o fato de que o milagre já tinha acontecido no ano passado, quando ganhamos alguns meses extras com você. Ainda deu tempo de café, de conversa, de risada.

Fui te visitar hoje cedo e não consegui segurar o choro, e eu sei que você não precisava disso, que acabei fazendo você chorar também, como se fosse culpa sua essa droga toda acontecendo. Queria te contar um monte de coisa, mas fico feliz que deu para repetir muitas vezes que amo você (e que bom ouvir de você a mesma coisa, quando você ainda conseguia falar).

O fato é que a gente ficcionaliza as nossas vidas e isso sempre foi algo que tivemos em comum, nossos diálogos eram quase como se estivéssemos num palco improvisando, o mundo nossa plateia. Mas ao contrário de roteiros de teatro, vida não tem o menor respeito por coerência. A arma de Tchekhov segue sem disparo, coadjuvantes entram e saem de cena perseguidos por ursos e nada do roteiro faz muito sentido, se você for pensar bem.

Não faz sentido passar meses em uma UTI, sair de lá e achar que era um ciclo encerrado, e descobrir menos de um ano depois que não, não é filme de Hollywood, os créditos não sobem com a mocinha feliz observando um belo nascer do sol. Os créditos estão subindo sem você e com todo mundo triste demais, e muito puto.

Esse post também não faz sentido, porque é para você e você já não pode mais ler. Eu ainda estou custando a acreditar que vou ficar sem os seus “Então, o que você está lendo?”. Acho que dos presentes que uma pessoa pode dar para outra, tempo é o mais valioso. Você sempre me deu muito do seu tempo, em forma de atenção e interesse real no que eu falava. Eu queria poder dar mais tempo em forma de tempo mesmo, de tempo sem dor e sem doença, de tempo só de coisas legais. Tudo com trilha sonora dos Beatles, é óbvio.

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