Betrayal (Harold Pinter)/Little Vanities (Sarah Gilmartin)

Lembro que a primeira vez que ouvi falar no Harold Pinter eu estava quase terminando a primeira graduação. Foi o ano que ele ganhou o Nobel de Literatura, e no dia seguinte ao da premiação minha professora de Literatura em Língua Inglesa IV – disciplina totalmente concentrada em teatro anglófono – perguntou se alguém já tinha lido e eu fiquei morrendo de vergonha porque não só não tinha lido como nunca tinha ouvido falar1. Eu poderia até dizer que o prêmio atiçou minha curiosidade e eu imediatamente fui ler algo do Pinter já naquela época, mas o fato é que a) ninguém lê menos por lazer do que um aluno de Letras, todo o tempo de leitura fica concentrado nas leituras obrigatórias e b) acesso a livros em inglês em 2005 – antes de e-book, e-reader e afins – ainda era muito difícil. Enfim, fui ler The Homecoming muitos anos depois, e só agora em 2026 conheci Betrayal.

E conheci porque um livro lançado recentemente chamou minha atenção, e ao menos na sinopse sugeria que a peça teria grande importância no enredo. Sabe como é, não quis dar mole como no caso de Writers & Lovers e resolvi ler a peça primeiro. Sobre o livro eu já falo, mas antes quero começar comentando Betrayal porque gostei muito, é um daqueles casos em que o texto dramático é tão bom que você fica morrendo de curiosidade para ver encenado (e imagina com Charlie Cox e Tom Hiddleston no elenco, hehe). E isso principalmente por causa do efeito que Pinter cria ao manipular o tempo da história, e também por confiar no espectador/leitor, já que muito do sentido se constrói a partir do que não é dito.

Betrayal começa em 1977, um encontro entre Jerry e Emma. Quando as personagens são apresentadas, sabemos que eles tiveram um caso que durou anos, mas acabou já há algum tempo. É uma traição dupla, porque Robert além de ser marido de Emma é o melhor amigo de Jerry. No encontro, Emma conta que se separou de Robert e dá a entender que contou para ele sobre o caso com Jerry. Ele vai encontrar Robert logo depois e descobre que há pelo menos quatro anos Robert já sabia do caso e quem contou foi Emma. O cara de pau do Jerry se sente traído com a revelação.

Aí você pensa: mas peraí, isso é a peça? Acabou? Não, esse é só o começo. Depois dessas duas cenas a história vai retrocedendo no tempo. São saltos na história do trio, em momentos relevantes dos relacionamentos: o fim do affair, a crise do casal que está traindo, a hora em que Emma conta para Robert, ou quando conta para Jerry que está grávida, etc. tudo fluindo para o momento em que o caso começa.

E o que torna tudo tão interessante é que como temos a visão do futuro, digamos assim, o passado que se revela na cena seguinte ganha um sentido diferente do que teria se fosse apresentada em ordem cronológica crescente. Em um dos encontros entre Jerry e Robert quando Robert já sabia, por exemplo, você que já sabe da traição (e que Robert também já sabe) fica esperando um confronto. Uma briga que nunca vem, e mesmo as provocações de Robert você só consegue entender porque tem uma informação que o Jerry daquela cena não tem.

Depois que terminei de ler fiquei pensando aqui que o efeito é meio com o de você analisar um momento da sua vida quando algo já se encerrou. Quando começam os “é, eu deveria ter dito x, feito y”, o que só parece a decisão obviamente correta porque no fim das contas você já tem a experiência, já passou por aquilo. Ninguém é mais sábio do que seu eu do futuro.

E então temos o livro que menciona Betrayal, o nome é Little Vanities da escritora irlandesa Sarah Gilmartin2. Como no caso da peça do Pinter, também teremos um triângulo amoroso envolvendo dois grandes amigos e a esposa de um deles. E Gilmartin também dá um jeito de dobrar o tempo, não exatamente da mesma forma (presente e passado se intercalam, com o passado seguindo em ordem cronológica crescente), mas com resultando igualmente interessante. Só que já do começo o romance tem uma diferença – enquanto em Betrayal Judith (a esposa de Jerry) nunca aparece, como se fosse alguém sem importância para a história, no romance de Gilmartin Rachel (esposa de Dylan) ganha voz.

O ponto de partida de Little Vanities é um presente em um momento do pós-pandemia, o dia em que os amigos irão se reencontrar para um jogo de pôquer. Ben e Stevie são daqueles casais que vivem juntos há anos, chegam até a discutir a possibilidade de ter filhos, mas nunca se casaram. Stevie é fisioterapeuta e a pessoa que paga as contas, já que Ben é um ator meio fracassado que quase nunca consegue garantir um trabalho. Rachel e Dylan estão casados, têm uma filha e estão tentando o segundo. O problema é que Dylan está com sintomas de covid longa, então não consegue arrumar emprego e vive da lembrança dos tempos em que jogava Rugby profissionalmente. Rachel é dona de casa, mas antes era modelo. Vive insegura sobre a relação de Dylan com os amigos porque chegou mais tarde, não fazia parte da patota do Trinity.

Veja bem: dos quatro, nenhum está em um momento realmente bom da vida. O ponto de vista vai variando entre eles, e o que a gente vê é um quarteto extremamente insatisfeito com a vida. O dia vai sendo construído de tal maneira que quando chegamos no momento do encontro para o pôquer, já sabemos bem das frustrações de cada personagem, e até entendemos porque a noite termina com Rachel sendo grosseira com as visitas, amigos que Dylan não encontrava já há algum tempo, mas que eram tão importantes para ele.

E na mudança do capítulo que começamos a entender como é que Gilmartin vai mexer com o tempo da história. Agora vamos para o passado das personagens, mais especificamente, primeiro um relance na vida de Dylan e Ben antes da faculdade, e depois quando Dylan conhece Stevie nos primeiros meses de vida acadêmica. Aqui foi um trecho tão bem desenvolvido, tão bonito que eu fiquei até com vontade de escrever um post separado para falar sobre o uso de música em livros, mas vamos tentar deixar a coisa toda num parágrafo.

O fato é: Dylan meio que se apaixona à primeira vista por Stevie. Ben o convidou para uma festa, mas quando Dylan chega ao local o amigo não está lá. Ele liga o celular para jogar snake, e então Stevie puxa conversa. Você percebe a conexão automática entre os dois, mas já tem conhecimento do futuro naquela noite do pôquer narrada anteriormente. Em dado momento na conversa entre eles começa a tocar All We Have is Now do Flaming Lips.

“As logic stands you couldn’t meet a manWho’s from the futureBut logic broke as he appeared, he spokeAbout the future

“We’re not gonna make it”He explained how the end will comeYou and me were never meant to bePart of the future
All we have is nowAll we’ve ever had is now”
Você vai lá, escuta a música, lembra dos versos e dá um estalo: a banda Flaming Lips é mencionada na noite do pôquer. Volta para o capítulo anterior, aí o trecho:

With a sigh Stevie folded and began to root in her handbag. ‘Can I change the music?’ she said. ‘No offence, Dyl.’

‘There isn’t a thing wrong with Flaming Lips.’

‘Sure,’ she said. ‘They’re just a bit old school?’

Dylan looked wounded. ‘I thought you loved them.’

‘Years ago.’

E então saltando entre presente e passado vamos entendendo as relações dos quatro, e conhecendo melhor cada um deles: sonho, medo, inveja, ciúme, cada ida ao passado parece dar mais cor para o quadro que é apresentado do presente. São personagens falhas e que tomam péssimas decisões, e o presente sempre revelando os resultados dessas.

Além desse jogo com o tempo, algo que gostei muito em Little Vanities é o desenvolvimento da tensão ao longo da história. Tem um capítulo em específico que é genial, o da festa de anivesário da filha de Dylan e Rachel. É meio que acompanhar o movimento de dois carros que você sabe que vão bater, com a diferença que com os quatros nunca dá para saber quem é que vai explodir primeiro. O capítulo da estreia de Betrayal segue a mesma linha, e talvez o único caso em que Ben passa a ser de fato um dos protagonistas. É estranho que ele seja tão importante para a história (seja como o traído, seja como o amigo que ressente o sucesso do outro), mas ele parece quase ser a Judith da Gilmartin. Ao ponto de mesmo com os capítulos do passado nunca ficar claro como a Stevie passou vinte anos com ele.

E eu adoro que a grande revelação já perto do desfecho da história não é uma surpresa para o leitor (pelo menos não para quem estava atento). Seja em devaneios de Rachel sobre a festa de despedida de solteira, seja em Ben dizendo que queria interpretar o Jerry, estava pronto para o papel e nunca tinha entendido Robert como personagem (“He’d understood Jerry, turned him inside out, revealed the insecurity that manifested as arrogance, truly, he had found the juice. Robert, the betrayed husband, was proving much harder to crack. Where was the juice in being cuckolded? Where was the gold?“), Gilmartin nunca quis de fato que a revelação fosse uma surpresa, embora se apresente como tal para as personagens.

Além disso, a autora tem um ótimo senso de humor, e é tão bonita a forma como ela consegue descrever os sentimentos das personagens sem falar de forma literal, como quando Dylan está olhando para Rachel e lembrando da primeira vez que a viu:

Dylan remembered the first time he saw her, weaving through the crowds on a dance floor in a glitterball dress with hundreds of metallic scales that flashed light in all directions, the sharp ends of her hair tipping her breasts. He tried to see that person now but could only see his wife.

Foi realmente um prazer acompanhar os tropeços desses quatro, ao ponto de até ficar chateada quando o livro acabou. Mas nada melhor do que se encantar pela escrita de alguém e descobrir que essa pessoa já tem outros livros publicados. A autora tem dois romances (Service de 2023 e Dinner Party de 2021), além de coletâneas de contos.

  1. E eu hoje em dia sei que é um sentimento besta, porque se eu conhecesse toooooodos os autores e toooooodos os livros eu nem precisaria estar na faculdade, né, mas quando a gente é jovem também é meio bocó.
  2. ainda sem tradução no Brasil

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