Dos vários caminhos que me levam até um livro novo, o que eu mais gosto é “proposta completamente maluca”. Dá aquela vontade de saber como é que a pessoa que escreve a história dará conta de desenvolver a ideia, se o livro todo será meio fora da casinha como a sinopse (até porque normalmente é). Agora em maio um título assim cruzou meu caminho, cortesia do sub r/weirdgirlliterature.1 Mas vê essa descrição lá do Goodreads e diz se não é irresistível?
Um romance deliciosamente hilário e eletrizante sobre uma estudante de pós-graduação que assassina homens maus e justifica seus atos em nome do feminismo, escrito por uma nova e ousada voz na ficção.
Ok, não deve ser caso se você for um homem mau, mas para todos nós que não somos, a curiosidade é automática, não? Por isso não deixei Honey muito tempo na lista de livros para ler. Quando a história começa sabemos que a protagonista Yrsa estuda afropessimismo em Cambridge, que ela está em um momento de estagnação da vida: a pesquisa não parece fluir, os relacionamentos são decepções repetidas ao ponto de virarem quase um ritual. O olhar de Yrsa é o de quem se vê dentro de um ciclo mais do que cansativo – é entediante. Isso até o momento em que ela comete o primeiro assassinato, usando como justificativa a injustiça de um professor que tem caso com uma aluna e rouba toda a produção da estudante (inclusive já deixando aqui que o “em nome do feminismo” ali do marketing do livro foi muito mal escolhido, Yrsa que é tão cuidadosa com todos os -ismos da academia nunca justifica os crimes de tal forma).
O livro tem um efeito interessante na voz do narrador onisciente, no ritmo que ele vai contando para o leitor é possível captar o tédio de Yrsa e, mais além, a completa desorientação da personagem. Eu sei que como acontece com tudo que fica extremamente popular, falar em Fleabag hoje em dia já causa alguns revirares de olhos, talvez até por ser copiado e repetido muitas e muitas vezes (e sem o mesmo sucesso). Mas esqueça as cópias e volte ao original para entender o que quero dizer: não há quebra de quarta parede, não há diálogo com o leitor. Mas ao mesmo tempo há várias passagens que você quase consegue enxergar o narrador virando de lado para fazer um comentário à parte para o leitor sobre o que está sendo descrito. O efeito é engraçadíssimo, é óbvio.
E eu entendo que é estranho falar de humor quando nossa protagonista é uma serial killer, mas acho que o tom principal de Honey é esse. É afiadíssimo e não sobra alvo sem tomar alguma cutucada. Eu passei uma boa parte me ressentindo (por motivos óbvios) por fazer a comparação, mas é um pouco como Psicopata Americano, só que ao invés de o alvo ser a sociedade consumista do fim da década de 80, em Honey temos o racismo e machismo dos tempos atuais.
Enquanto lia Honey lembrei de uma leitura que minha sobrinha faz de Psicopata Americano: a de que Patrick Bateman era um homem gay preso em um mundo homofóbico perfomando heterosexualidade masculina em seus atos violentos. Foi uma conversa rápida e não nos aprofundamos, então não sei dizer quais exatamente são os pontos que a levaram a esse tipo de conclusão, mas a ideia de performance de heterossexualidade masculina passou na minha cabeça ao seguir os passos de Yrsa. As ações contra as vítimas podem até ter uma justificativa de moral torta (como se estivesse tudo bem cometer um crime, desde que a pessoa fosse má), mas sabendo de seus pensamentos vemos que ela sempre desumaniza os homens que assassinará e não é exatamente uma noção de praticar justiça que a leva a cometer os crimes, mas a busca pela excitação/euforia de cometê-los (e não ser pega).
É interessante porque o que ela acaba se tornando vai de encontro com a pesquisa que está fazendo – ela se torna o homem branco que desumaniza suas vítimas. Essa desumanização é exatamente um dos pontos do afropessimismo, de como nossa sociedade é totalmente estruturada e dependente da violência contra pessoas pretas e que por causa disso pessoas pretas são vistas como não-humanos. E achei fantástico por parte da Thompson que ela consegue incluir um monte de teoria, mas nunca é chato nem fica parecendo que foi recortado e colado de artigo acadêmico.
Ah, sim, a academia também recebe umas bordoadas, alguns momentos hilários – como no começo ainda, quando ela observa desapaixonadamente uma turma de primeiro ano, e pouco depois com muita calma e elegância cala a boca de um aluno que pergunta se “interseccionalidade já não foi longe demais”. Lembrei da minha professora de Políticas Públicas na Educação quando um aluno no melhor estilo não pisa na mioca começou a criticar programas do governo que garantiam acesso ao ensino superior.
Enfim, o fato é que como deve ter ficado claro do que falei até o momento, é que Honey tem muita coisa acontecendo. E é aí que entra meu único porém sobre o livro, que está sendo vendido lá fora como terror e thriller. O fato é que justamente por causa do humor e da crítica constante, a narrativa nunca chega em um ritmo apropriado para satisfazer os dois gêneros. Tem uma passagem em específico que pensei “aí sim”: quando Yrsa está perseguindo a próxima vítima, um daqueles influencers incels que aparecem por aí. A sequência toda é de tirar o fôlego, e parte do que sustenta esse trecho são descrições das redes sociais de pessoas próximas dele. Acho que talvez o mais assustador seja isso, perceber como nós depois de tantos anos ainda não entendemos como documentar em redes sociais tudo o que fazemos nos torna vulneráveis.
Mas mesmo depois desse momento tão tenso, o ritmo retorna a refletir o ennui de Yrsa, então nunca temos de fato a sensação de que as coisas estão escalando (mesmo que ela continue comentendo crimes). E a tensão construída a partir da possibilidade de ela ser pega e responsabilizada pelo que está fazendo, logo é quebrada com o humor de sempre. Como quando ela se dá conta de que ao falhar na tentativa de matar o influencer incel, ela acabou atraindo mais seguidores para ele (“And what can she say for herself now? Not only is Mack not dead but he’s gained followers, she’s facilitated a misogynist.”). Eu sei que é possível terror com humor, thriller com crítica social, terror com crítica social e humor2. O problema é mais que a autora não conseguiu dar conta de tudo isso – talvez nem tenha sido a intenção e o marketing que esteja empurrando os marcadores para atingir um público maior, vá saber.
E até por causa disso que dá para dizer que é mais problema de como o livro está sendo vendido do que do livro em si, não? Porque ajustando as expectativas e vendo não como um thriller ou um livro de terror (pelo menos não no sentido clássico), a história funciona muito bem. Tenho certeza que estarei atenta para o próximo livro da Thompson, mesmo que não tenha uma proposta tão maluca quanto a de Honey.
(O livro ainda não tem tradução para o português no Brasil, se sair alguma informação sobre edição brasileira eu atualizo aqui.)