Beth O’Leary, plot twists, primeira pessoa, a vida, o universo e tudo mais

Conheci a escrita da Beth O’Leary meio com todo mundo, em 2019. Um ano depois do meu Ano de Leitura e Descaralhamento apareceu um romance que todo mundo estava elogiando, dizendo ser fofinho e divertido e em um final de semana qualquer era bem o que eu precisava e resolvi ler. The Flatshare1 era de fato fofinho e divertido, exatamente o que eu precisava naquele momento.

Numa pegada meio O Feitiço de Áquila em tempos de mercado imobiliário maluco cobrando valores impossíveis, a história girava em torno de Tiffy e Leon, que resolvem compartilhar um apartamento, cada um ocupando em um horário diferente. A comunicação entre os dois começa através de post-its até que eles finalmente se conhecem e se apaixonam. É um livro com protagonistas amáveis, então parte do drama e dos obstáculos encontrados pelo casal se dá por conta de outras personagens. Enfim, um livro gostoso para quando você não quer nada muito além de um romance.

Eu pulei o lançamento seguinte, The Switch2, na época a proposta não chamou minha atenção e eu vivo ensaiando uma leitura, mas é tanto lançamento o tempo todo que sempre acaba ficando para depois. Depois em 2021 temos The Road Trip3, que eu gostei e meio que serviu para eu colocar a autora naquela lista de “sempre que sair algo, vale dar uma olhada”.

O’Leary tem mais dois romances que seguem dentro do formato típico do gênero, The Wake-Up Call4 que tem um protagonista brasileiro (é curioso ler menção à série A Grande Família, por exemplo, mas umas coisas você percebe que é gringo imaginando brasileiro, porque não fazem muito sentido) e também Swept Away5 que até tentei começar a ler, mas a leitura nunca engatou.

Nessa recapitulação fica claro que o trabalho de Beth O’Leary agrada um público bem específico (leitores de romance), e mesmo para esse público ainda é um caso de erros e acertos – é, e falo sem maldade alguma, uma produção mediana. Isso é claro, se você considerar apenas os livros mencionados. Eu quero chamar a atenção para outros dois, que saem do comum e brincam com as possibilidades da escrita e por causa deles acho uma pena que por ela ter ficado famosa como escritora de romances fofinhos, os títulos acabem passando batido por leitores de outros gêneros.

Não se engane: são romances. Mas eles têm uma sacada tão legal, e exploram tão bem algumas características da escrita que tenho até dificuldade de imaginá-los adaptados para a TV ou o cinema6. Vou comentar aqui sobre os dois, mas eu já deixo um alerta de spoiler, porque eu obviamente vou ter que entrar em detalhes que estragam a surpresa de quem está lendo pela primeira vez.

O primeiro foi lançado em 2022 e se chama The No-Show7. A história começa com três mulheres diferentes levando bolo do mesmo homem no dia dos namorados. Siobhan, Miranda e Jane não se conhecem, mas têm Joseph Carter em comum. O leitor primeiro é fisgado pela curiosidade: o que leva Joseph a enganar as três? Depois, conforme a narrativa se desenrola, fica a dúvida de quando é que as mulheres perceberão que Joseph é um fuckboy e como é que se livrarão dele. E aí mais para o fim…

Descobrimos que cada personagem tem sua história acontecendo em anos diferentes na vida de Joseph. Ele não está enganando as três, embora muito do que aconteça nos eventos de duas mulheres tenha relação com o passado dele e Siobhan. Como eu disse, é um efeito que só é possível porque o texto escrito nos força a pensar que o tempo é linear se o leitor não encontrar algum marcador que indique o contrário. O trabalho da autora aqui foi apagar propositalmente os marcadores e fazer com que inicialmente o leitor pense que tudo ocorre ao mesmo tempo e que Joseph não presta.

A conclusão é fofa como exige o gênero, mas o efeito aqui é o de querer imediatamente voltar para o começo e ver Joseph com outros olhos (é meio parecido com a sensação ao acabar de assistir O Sexto Sentido, aquele “como é que não percebi?”). Eu acho que poucas vezes um livro conseguiu de forma convincente mudar tanto e tão rápido a minha opinião sobre uma personagem.

Lembro que passei um bom tempo pensando em como é legal quando o autor explora possibilidades dentro do que pode ser considerado uma limitação da mídia? O fato de não conseguirmos enxergarmos os marcadores de tempo (pessoas mais velhas, cortes de cabelo diferentes, como vemos no audiovisual, por exemplo) e de o livro exigir que o leitor complete com suas próprias ideias o que não é dito, serve como um recurso para no fim contar a história sobre como é que um homem finalmente ficou pronto para começar um novo relacionamento após um grande trauma.

Em The Name Game8 o jogo é outro. Aqui a história gira em torno de dois Charlies Joneses (um homem e uma mulher) que arrumam emprego em uma ilha no Canal da Mancha, em uma tentativa de começar a vida do zero. O problema é que só um(a) Charlie Jones foi contratado(a) para trabalhar na ilha, e como nenhum dos dois quer abrir mão da oportunidade, e ambos que o rival é na realidade um impostor, eles resolvem trabalhar juntos por um período: caso a loja comece a fazer lucro o suficiente para pagar pelos dois, eles continuam lá, caso não faça, um deles terá que voltar para casa. Se no meio do caminho conseguirem descobrir quem está mentindo sobre ter conseguido a vaga de emprego, ótimo.

O livro é estruturado da seguinte forma: temos capítulos em primeira pessoa que são páginas de diário da Charlie Jones (que na ilha passa a ser chamada de Charlie para se diferenciar do rival), capítulos em primeira pessoa que são emails do Charlie Jones para o destinatário Charlie Jones (ele passa a ser chamado de Jones na ilha) e capítulos narrados em terceira pessoa descrevendo eventos de um ano antes da chegada na ilha, o ponto de vista variando entre Charlie e Jones.

O grande twist aqui vem quando um dos emails de Jones é respondido. Até aquele momento o leitor é levado a acreditar que Jones escrevia para si, numa espécie de exercício de autoconhecimento. Mas quem responde é a verdadeira Charlie Jones, a pessoa que realmente tinha conseguido a vaga de emprego na ilha. O que é revelado então é que temos na realidade a história de quatro personagens diferentes no livro, embora até aquele momento imaginássemos que fosse só sobre Charlie e Jones. Eu até então lendo um romance, do nada fico:

De novo O’Leary usa uma limitação do formato (o fato de livro não ter imagem a não ser a que criamos na nossa cabeça enquanto lemos) para desenvolver o twist. Tem outro ponto interessante também que é o foco narrativo. Quando li o primeiro capítulo em primeira pessoa, pensei desanimada que a autora tivesse cedido à pressão do público para escrever dessa forma.

Contextualizando: tem pouco tempo saiu um artigo no Slate falando sobre como o público de romance tem preferido livros em primeira pessoa – é um negócio horripilante de ler, tem aspas de leitor dizendo “Eu me sinto como se não soubesse ler!” ou autor contando de gente que se aproximou em evento e disse com todas as letras que não leria o livro porque foi escrito em terceira pessoa. Eu não vou dizer que as pessoas estão ficando idiotas, porque cada um sabe o que quer quando pega um livro – a questão é que a lógica de responder a demanda do público mais barulhento acaba podando possibilidades como The Name Game.

Se o livro fosse todo em primeira pessoa, sem aqueles capítulos em terceira pessoa (e com voz mais impessoal e neutra), o twist acabaria ficando óbvio para um leitor mais atento. Foi também a possibilidade de poder mudar o foco narrativo que permitiu o efeito, o que define qual será o foco do romance não é a tendência entre os leitores do booktok, mas o modo como uma história será contada.

Enfim, fica de alerta também para quem decide o que lerá a partir desse tipo de critério. Se você só ler livros em primeira pessoa, é natural que a longo prazo começará a ter problemas com outros focos narrativos. É um problema do romance porque como ele é visto como livro “de entretenimento”, cria-se o falso argumento de que é leitura só pelo prazer de ler e portanto, que não deve apresentar desafio algum. E sim, está tudo bem ler só pelo prazer de ler. Mas quando você começa a limitar o tipo de livro que lerá, perde a chance de encontrar algumas boas surpresas, como é o caso especialmente de The No-Show, o meu favorito da O’Leary.

(E isso vale também, é óbvio, para quem diz que nunca lerá um romance.)

  1. Teto Para Dois saiu no mesmo ano pela Intrínseca, com tradução de Carolina Selvatici
  2. A Troca saiu no Brasil em 2020 pela Intríseca, com tradução de Ana Rodrigues
  3. Na Estrada com o Ex saiu no Brasil em 2022 pela Intrínseca, com tradução de Ana Rodrigues
  4. Um Amor Cinco Estrelas saiu no Brasil em 2024 pela Intrínseca, com tradução de Laura Pohl e Sofia Soter
  5. sem tradução no Brasil
  6. Tanto The Flatshare quanto The Road Trip ganharam adaptação para a TV em formato de minissérie (que na minha opinião é o melhor formato para adaptação de livros), ambos disponíveis na Paramount
  7. Mesa Para Um saiu no Brasil em 2023 pela Intrínseca, com tradução de Paula di Carvalho
  8. Sem tradução no Brasil

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