“You’re a playlist guy.”

Claudia Cardinale, 1959.


Dia desses esbarrei em uma música que achei divertida, fui procurar a banda no Spotify e como estava ocupada com outra coisa e não podia ficar pulando faixa e procurando outras músicas, resolvi deixar tocando o álbum inteiro. A saber, a música era
Wet Dream do álbum Wet Leg da banda com o mesmo nome – vou falar mais disso, mas espera um pouco que tem umas divagações antes.

O fato é: eu ouvi o álbum inteiro do começo ao fim. E não tive vontade de pular nenhuma das faixas, todas eram boas. É uma surpresa enorme, porque isso não acontece comigo há anos, mas maior foi a surpresa ao perceber que a banda é relativamente recente? Formada em 2019 e com primeiro álbum saindo em 2022, acho que é a primeira banda com disco pós-pandemia que eu adicionei na lista de bandas favoritas. E tinha tanto, tanto tempo que eu não atualizava a lista.

É um pouco aquela piadinha de quando sai line-up de festival e você reconhece só meia dúzia de bandas. Aí vem o pessoal mais novo dizer “como assim você não conhece tendo a internet inteira à disposição?”. Eu acho que o que ajuda a explicar é que tem um rio correndo e você está nele e aí acompanha a corrente – mas chega um momento da vida em que você não quer mais ficar dentro do rio, seja porque tem pouco tempo 1, porque tem outros interesses 2, porque envelheceu e acha tudo meio parecido 3. E aí fica às margens, vendo o rio passar e de vez em quando uma coisa (uma música) chama a atenção, mas nunca o suficiente para te puxar para dentro do rio de novo.

Falei sobre envelhecer, e é até engraçado porque quando eu era mais nova eu jurava que jamais seria como os “tiozões” que ficam parados no tempo e só escutam música de uma determinada época. Eu sempre gostei de rock e achava engraçadíssimo os caras mais velhos que só ouviam rock progressivo dos anos 70, por exemplo. Aí eu envelheci e percebi que minhas playlists todas tem em sua maioria bandas dos anos 90 e começo dos 2000. Quando penso nisso sempre volto para uma cena de As Patricinhas de Beverly Hills:

Eu tenho noção de que muito do que me puxou para a margem do rio foi o fim da MTV (que acabou anos depois de eu já ter deixado de assistir MTV, mas enfim) e o fato de que eu não escuto muito rádio. A corrente de bandas novas para conhecer e incluir ao repertório para um pouco de fluir quando sua fonte passa a ser basicamente sugestão de outras pessoas (Bad Bunny quem me apresentou foi meu irmão, uns meses antes daquele show maravilhoso no Superbowl), trilha sonora de vídeos de tiktok (e.g. Too Sweet do Hozier) ou trilha sonora de filmes e séries (*flashbacks do fim do ano, eu ouvindo I’ll Believe in Anything do Wolf Parade num repeat eterno*).

Mas tem também o fator playlist, né? Eu faço várias, com nomes esdrúxulos e temas aleatórios (tipo “Ska para lavar a louça” ou “You know how to whistle, don’t you Steve?“), o negócio é que quando ouvimos playlists, ficamos restritos só ao que já conhecemos e gostamos (meu ponto é: a rádio e a MTV não tinham botão de pular para a próxima música). É mais ou menos o que a personagem do Ashton Kutcher fala no filme Vengeance:

Now, these playlists? It’s like the dating app for music. You’re not hearing other people’s voices. You’re just hearing your voice get played back to you. How are you supposed to fall in love? Art used to be in charge of us. You used to buy a whole album not even knowing what songs would be on it. Now we have everything on demand. At your fingertips. In pieces. You think half the people that are posting quotes from Oscar Wilde have ever actually read one of his plays?

“Ah, Anica, mas CD também tinha botão de pular faixa”. Sim, tinha, e o fato de ser rara a existência de um álbum em que não pulamos faixas mostra que bem, nós pulávamos faixas. Mas a relação com um CD era um pouco diferente da que temos com o lançamento de um álbum direto em serviços como o Spotify (ou mesmo dos tempos da MP3, vá lá). Acho que, um pouco, porque tinha dinheiro envolvido (reconheço com certa vergonha: o “fazer valer” os reais que você colocou naquele CD e pelo menos algumas vezes ouvir de cabo a rabo).

Eu comprei muito cd porque gostava de uma música só, mas depois acabei conhecendo e gostando de outras faixas. Lembro especialmente do Angel Dust do Faith No More, que comprei o vinil (!!!) por causa da cover de Easy, mas que serviu de porta de entrada para a banda. Hoje se eu ouvisse Easy eu procuraria a faixa, escutaria, colocaria numa playlist, mas dificilmente iria atrás de mais da banda.

Então não é um problema da tecnologia, ou da mudança do modo como escutamos música. A internet tornou tudo mais acessível e descentralizou o poder de fazer uma banda acontecer – quem viveu os tempos em que música que fazia sucesso no Brasil era música que tocava em novela da Globo entende o que quero dizer. É, no fim das contas, um problema meu e da minha relação com a música atualmente. Eu me acomodei, eu aceitei que meu gosto “se cristalizou” e de repente estou lá, ouvindo as mesmas coisas com uma novidade ou outra salpicada, porque virei “a playlist girl“.

***

Sobre o Wet Leg. Vá lá, Wet Dream tem um ritmo contagiante e a letra é engraçada, é um ótimo cartão de visitas. Outra que segue na mesma linha (e que é uma das minhas favoritas) é  Chaise Longue: Is your mother worried?/Would you like us to assign someone to worry your mother?/Excuse me (what?). O álbum mais recente é do ano passado e se chama moisturizer. Eu também ouvi inteiro, embora goste mais do primeiro – o destaque aqui para mim é mangeaout, que eu já conhecia da trilha sonora de Heated Rivalry e nem sabia, há.

Agora a parte engraçada, se for considerar tudo o que escrevi antes. O estilo da banda lembra muito rock indie do final dos 90 e começo dos 2000. Exatamente o período onde meu gosto “se cristalizou”. ¯\_(ツ)_/¯¯

  1. hoje em dia eu basicamente escuto música no carro ou quando estou arrumando a casa – eu, que era uma pessoa que só pegava no sono ouvindo rádio e levava meu Aiwa para o banheiro para ouvir música enquanto tomava banho
  2. eu por exemplo, não pergunto para as pessoas como é que elas não sabem o nome de todos os livros que estão saindo em 2026, mesmo que elas também tenham internet disponível
  3. tem uma fase da música pop que o auto-tune doía no meu ouvido e eu me sentia muito o velho gritando para as nuvens

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