Séries em 2019

Acabei de ler um livro1 que tem uma passagem que segue mais ou menos assim: a protagonista está se apresentando para uma pessoa que acabou de conhecer, a pessoa parece emanar todo aquele “tô com a vida nos eixos” ao qual a protagonista tanto aspira. Ao ser perguntada sobre o que faz, a protagonista primeiro pensa “Eu assisto muita Netflix“, e depois se dá conta que a pergunta era sobre seu emprego.

Eu ri muito porque está aí algo que eu provavelmente responderia. Não que eu assista muita Netflix, eu assisto muitas séries. Fiz uma lista aqui e só de títulos novos foram 20. E mesmo assim, aquela angustiazinha de não estar vendo tudo o que todo mundo vê (como conseguem? do que se alimentam?), por exemplo, The Mandalorian eu resolvi assistir através dos gifs de Baby Yoda nas redes sociais mesmo2.

E aí por causa do tanto de coisa nova que está saindo eu pensei “uou, dá até para fazer uma lista de favoritos de 2019, como eu já faço com filmes e livros”. Então cá estou, um ano depois de prometer que ia atualizar o blog com maior constância, mas como tenho feito há anos, constantemente não cumprindo a promessa. De repente em 2020.

Na lista apenas coisa que comecei a assistir agora em 2019, não necessariamente lançadas em 2019. Das séries que já acompanhava o destaque para mim foi a quinta e última temporada de You’re the Worst, ouvi No Children tantas vezes depois do finale que provavelmente foi a música que mais ouvi este ano.

Outra que terminou muito bem foi Crazy Ex-Girlfriend. A temporada em si foi meio sem gracinha comparada com as anteriores, mas entregar um finale super satisfatório não é comum hoje em dia, então tem que reconhecer. E a cena do final do encontro que deu errado da Rebbeca com o Greg virou uma das minhas favoritas de qualquer série (e isso que o Greg nem era mais o Santino Fontana).

Bojack Horseman e The Good Place também vão acabar (agora em janeiro) e também são maravilhosas. O episódio da Princess Carolyn nos primeiros dias de maternidade (The New Client) é perfeito na representação do esgotamento mental desse momento inicial, lembrei muito do truque usado para representar a depressão de Bojack lá na quarta temporada (no episódio Stupid Piece of Sh*t). The Good Place a política ainda é o quanto você menos souber, melhor, então não vou me prolongar. Apenas: Jeremy Bearimy, baby.

Enfim, agora para o top5 das novidades do ano. O cinema tão saturado de heróis que agora eles já se esparramam pelas séries, e eu fico prometendo que não vou mais assistir nada de herói e quando vejo upz, acabou a primeira temporada de The Boys. Enfim, para não saturar a lista vou acabar escolhendo só uma, mas fica a dica: Doom Patrol é hilária, completamente absurda e vale a pena. O top5 2019 ficou assim:

1. Watchmen: Óbvio que se comecei falando das séries de heróis, era melhor já iniciar a lista com a minha favorita. Foi uma surpresa enorme, porque pelos teasers divulgando a série eu imaginava que seria algo endeusando o Rorschach (e lá naquele meu post sobre a HQ eu já tinha dito: ele é badass, mas é um cuzão). Aí resolvi começar a ver e de cara deu para perceber: quem endeusa Rorschach é o grupo supremacista branco. A ideia de situar o presente da série nos tempos atuais também foi ótima, e tanto Regina King quanto a Jean Smart estão perfeitas em seus papéis. E o episódio A God Walks into Abar é simplesmente espetacular. Fico torcendo para que deixem a série como minissérie mesmo e não inventem novas temporadas, a conclusão foi excelente do jeito que ficou.

2. Fleabag: Tinha feito a assinatura do Prime Video no começo do ano e resolvi assistir porque tinha ouvido muitos elogios sobre a primeira temporada. Adorei tanto que foi um dos poucos momentos que tirei as teias de aranha aqui do blog, ehehe. Comparando a primeira com a segunda, acho que a segunda é melhor, além do primeiro episódio espetacular, ainda teve o terceiro com a ótima participação da Kristin Scott Thomas e aquele finale lindo com o discurso do padre e aquele olharzinho no fim que a Fleabag dá para a audiência, dizendo um “opa, não, agora você fica aí e eu sigo sozinha”. Maravilhosa mesmo.

3. What We Do in the Shadows: o filme é um dos meus favoritos da década (se bobear, de todos os tempos), mas fiquei com aquele pé atrás sobre a necessidade de uma série, ainda mais acontecendo nos Estados Unidos. Estava enganada, a série é ótima. Em tempos que toda comédia boa acaba sendo na realidade dramédia (vide o tanto que eu costumo chorar com Bojack Horseman, por exemplo), é legal ter também algo bom que seja só comédia. A Nadja é de longe a melhor personagem do novo trio, mas os outros dois vampiros também são ótimos (o Laszlo é o Matt Berry de IT Crowd). E tem um episódio especial que traz Tilda Swinton, Evan Rachel Wood, Dani Trejo e Wesleys Snipes reprisando seus papéis de vampiros. É hilário!

4. Russian Doll: “Gotta get up, gotta get out, gotta get home before the morning comes….“. Eu sei que o conceito em si não é novo (basicamente um Groundhog Day), mas é aquela coisa de que às vezes não é bem sobre o plot, mas sobre como ele é executado. A ideia da guria morrendo e retornando sempre para o mesmo ponto, mas com algumas diferenças – dá aquele toquezinho que atiça nossa curiosidade para seguir em frente e conhecer mais sobre a protagonista que vá lá, é apaixonante. Você passa boa parte da série pensando que seria muito legal ser amiga da Nadia, só para ter umas conversas bacanas no meio da madrugada. Não sei muito bem o que vai dar da segunda temporada, por mim poderia ter encerrado na primeira.

5. Chernobyl: Não tinha como terminar a lista sem Chernobyl. É sempre um tapa na cara ver como temos uma natureza cíclica, como estamos fadados a repetir erros – Chernobyl pode não ser só uma usina nuclear explodindo, pode ser um vazamento de óleo tratado de forma horrenda por um desgoverno, por exemplo. A fala da personagem interpreta por Jared Harris3 ressoa em 2019: “Qual o custo das mentiras? Não é que as confundamos com a verdade. O real perigo é ouvirmos tantas mentiras que sejamos incapazes de reconhecer a verdade. O que poderemos fazer então?”. A série faz um ótimo trabalho trazendo a tragédia com um toque humano – não é sobre o reator, é sobre as pessoas afetadas. Embora aqui eu acho de verdade que os créditos sejam mais da Svetlana Aleksiévitch e seus Vozes de Tchernóbil (falei dele aqui no bró), que o criador reconhece como fonte. Além disso tem aquela tensão constante, o truque de usar o contador geiger como único som em algumas cenas funciona muito bem, é apavorante.


  1. o livro é Would Like to Meet da Rachel Winters. Eu sei que comédia romântica britânica não é a vibe de todo mundo, mas é meio que meu cope mechanism nesses tempos loucos, quando a nuvem em cima da cabeça está começando a ficar preta, pego logo um romancezinho para me animar. E esse é hilário demais, e eu adoraria ver um filme dele e que mais pessoas conhecessem. Eu tinha esquecido como é bom rir no meio da madrugada por causa de um livro 

  2. as pessoas estão assistindo de outro jeito? 

  3. outra série boa com o Jared Harris que vi esse ano foi The Terror 

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