Cidade em Chamas (Garth Risk Hallberg)

Não, a capa do livro não é em gif. A imagem é da divulgação da Companhia das Letras. Mas gente, vão numa livraria ver essa capa, linda. Dá vontade de comprar o livro de papel *_*
Não, a capa do livro não é em gif. A imagem é da divulgação da Companhia das Letras. Mas gente, vão numa livraria ver essa capa, linda. Dá vontade de comprar o livro de papel *_*

É meio dizer o óbvio ao notar suas mil e tantas páginas que Cidade em Chamas de Garth Risk Hallberg é um baita romance. Mas a definição não cabe só por ser longo, ele é ambicioso, sabe. Se concentra em eventos de um determinado período da história de Nova York, mas outros anos vão se esparramando ao longo da narrativa, vemos o antes e o depois de uma forma não-linear. A melhor forma de descrever é citando um trecho onde uma personagem refletindo sobre o espetáculo de fogos de artifício:

(…) cada espetáculo de fogos é totalmente preso ao tempo. Uma singularidade. Sem passado e sem futuro. Fora o próprio fogueteiro, ninguém jamais vem a saber que o grand finale é o grand finale até tudo estar acabado.

E aí, por mais que aqui e acolá você tropece em uma descrição do livro falando qualquer coisa sobre o ser sobre os irmãos Hamilton-Sweeney e as pessoas com quem eles convivem, eu acho que vai um tanto além. Aliás, a cola que parece prender todas as personagens (bem como a narrativa em si) é Sam, a menina apaixonada por música e fotografia contra quem alguém atirou no Central Park na noite da virada de 76 para 77.

Não vou negar: muito do que prende a atenção até uma parte do livro é descobrir o que aconteceu naquela noite. Quem atirou? Por quê? O negócio é que ao desenvolver a história, contar os eventos anteriores e posteriores aos tiros, Hallberg vai criando uma série de histórias dentro de uma história só. Não é só sobre os tiros contra Sam. Não é só sobre os irmãos Hamilton-Sweeney. Mercer. Jenny. Os Pós-Humanistas. Charlie. Não. É sobre um punhado de gente, e você quer ver onde é que aquilo tudo vai dar – por mais que a vida dessas pessoas chegue a tocar de forma extremamente sutil a de Sam.

Ok, para um pouco nesse ponto. Já volto para o Cidade em Chamas.

Quando estava mais ou menos na metade do livro (e sendo completamente atropelada pelos eventos da minha vida, incluindo – há! – um incêndio no andar do prédio onde moro e um diagnóstico de stress pós traumático de presentinho), cheguei a fazer um rascunho de um post sobre livros longos. Estava lembrando do jornalista que escrevia sobre livros e indagou em sua coluna “quem é que tem tempo para um livro de 800 páginas?”.

Porque é um assunto que volta e meia ressurge, não? A questão do catatau. Nós que adoramos ler torcemos o nariz para quem diz que não tem tempo para catatau, mas ao mesmo tempo fazemos aquele mental self-five quando terminamos um livro grandão.

E olhando rapidamente o Goodreads de amigos leitores, noto que livros longos tendem a ficar lá na lista dos “livros para ler”. Não só dos amigos, na minha lista também1.

É medo de investir tempo em algo que não vamos gostar? Mas onde está escrito que tem que ir até o fim de um livro que não nos conquistou? Enfim. Pirava muito com isso, um misto de apontar dedo e de sentir culpa. Até que agora em maio, durante uma fala na Semana de Letras,2 a professora Milena Ribeiro Martins veio me salvar. Vou citar um trechinho, mas olha, queria que você estivesse lá e ouvido tudo, foi lindo. Era principalmente sobre Literatura em sala de aula, mas se encaixa muito bem na questão-catatau:

E assim vamos criando geração após geração a ideia de que livro bom é livro curto, livro que se lê sem demora; e que texto comprido é ruim em essência. Como se namoro bom fosse aquele que acabasse em dois dias. Ou sorvete bom fosse aquele que durasse uma lambida. Algumas vezes é assim, mas não precisa ser sempre assim. Eu quero é mais!

A meu ver, é falsa a pressuposição de que a fragmentação é um traço definidor dos nossos tempos. E você tem todo o direito de pensar e concluir que eu estou errada, afinal textos curtos se casam bem com nosso modo de vida: facebook, twiter, manchetes de jornais; vida episódica em páginas de revistas. Se temos tudo isso, se temos textos curtos que nos habitam, também temos a continuidade como um desejo: penso por exemplo no sucesso das séries de ficção: posso pensar no Senhor dos Anéis (livros e filmes), em House of Cards e em Breaking Bad, como também posso pensar no Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, e mesmo em Harry Potter, de J.K.Rowling, e seus romances longos, que formam séries ainda mais longas. Escolhi, aqui, me referir a esses títulos de sucesso para tornar evidente o argumento: se eu ofereço textos curtos porque acho que o aluno de hoje quer mais é fragmentação e não gosta de coisa comprida, estou esquecendo que o leitor de hoje e o espectador de hoje também aspiram por extensão e por continuidade.

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Fiquei matutando aqui: se um Cidade em Chamas fosse dividido em quatro livros como a tetralogia napolitana da Elena Ferrante, será que passaria tanto tempo nas listas “para ler”? Calma. Não culpo autor ou editora por não pensarem em adotar a estratégia. Só chamo a atenção para a nossa percepção do livro longo mesmo.

Não gostei de A Amiga Genial, vou ler o segundo livro? Não. Não gostei das primeiras duzentas páginas de Cidade em Chamas, vou continuar lendo o livro? Não. Simples assim. Tem que parar de ver o catatau como desafio a ser vencido, teste de resistência ou sei lá o quê. É só um livro. Para o bem ou para o mal. Então chega de mental self-fives, Anica.

E se eu fugi completamente do assunto para fazer uma defesa do catatau aqui, é porque terminando Cidade em Chamas me dei conta de como livros assim são necessários. Nem que seja para romper com aquela noção estranha que se criou de que livro longo é livro “difícil”, como se o número de páginas não fosse o único “desafio” do leitor. De que é coisa para iniciados, para quem tem “bagagem”. Não é não. E Cidade em Chamas mostra bem isso.

Sim, os fragmentos que fazem parte do mosaico que é a obra (incluindo aí até páginas de fanzine) podem inicialmente confundir o leitor mais desatento, mas a verdade é que você vai ficando tão familiarizado com as personagens que às vezes o autor não precisa nem dizer o nome da personagem, você já sabe quem é. E essa é uma das vantagens do livro longo: mesmo a personagem quase sem relevância alguma vai ganhar mais cores, mais detalhes, mais vida.

Eu consigo pensar aqui em duas personagens que foram deixadas um pouco de lado por Hallberg: Felicia Goud e Cate, a filha de Regan. Mas é até perdoável, pensando no trabalho que ele faz com personagens como Charlie. A noite do guri no show do Ex Nihilo, caraca – se você gosta muito de música e de certa forma teve contato com o meio, vai entender direitinho o olhar do garoto para aquilo tudo. Eu viajei no tempo ao ver a relação dele e de Sam com a música.

E é isso. Vamos vendo os eventos pelos olhos de uma personagem, depois de outro, novos detalhes vão se adicionando à trama, mudamos de opinião sobre personagens, nos envolvemos. E embora a frase tenha sido dita sobre um evento na noite do blecaute, ela se encaixa muito bem para o livro como um todo: “Você está condenada à sua versão da noite, e eu vou ter que ficar condenado à minha.

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Ahhhh, a noite do blecaute. Caramba, que parte mais linda. Eu já conhecia alguma coisa sobre o blecaute de 77. Se a noite dos tiros contra Sam é a cola da narrativa, a noite do blecaute é o ápice. Ver aquelas pessoas com que você já está tão familiarizada enfrentando medos maiores do que o escuro por si só. A descrição de Hallberg, como ele consegue fazer com que quem não viveu a experiência consiga imaginá-la com riqueza de detalhes, quase como se estivesse lá.

Só achei interessante que ele tenha optado por não dar muito espaço para O Filho de Sam no caldo todo. Ele é mencionado, mas não há aquela nota de medo constante por conta de um serial killer nas ruas da cidade. E mesmo assim, o trabalho de construção da Nova York da década de 70 é fantástico. A parte cultural, envolvendo os punks e a música é daquele tipo bacana que flui bem durante a leitura. Não é falar de Patti Smith só para dizer “ei, olha, cultura da época!”. É incluir na história de tal modo que, sei lá, seria incluir Morrissey em um filme baseado na minha vida.

Deu para entender onde quero chegar? Essa riqueza de detalhes, esse desenvolvimento de personagens secundárias – é bem raro de encontrar em livros mais curtos. E o que faz de Cidade em Chamas necessário? Porque ele é DIVERTIDO. É uma experiência parecida com a de se envolver por dias, semanas ou meses assistindo a uma série na tv – não é um negócio para te cansar, pelo contrário. E tem uns momentos hilários (tipo o pai puxando um ronco quando o filho fala grandes verdades) outros que ó, se tivesse comunidade no orkut “choro horrores lendo livro” eu estaria lá (aquele finalzinho do sobrinho do William!!!!!).

E é isso. Eu tenho minhas ressalvas sim, não vou negar. O Irmão Demoníaco, por exemplo, é meio que o vilão de novela (você até espera que de nada apareça a Soraya Montenegro para felicitá-lo pelas tramas). E a história da bomba também, dá umas deslizadas justamente no exagero – ou menos no absurdo – de algumas situações. Mas já que falamos de séries: sabe quando o o avião cai no quintal do Walter White, você acha aquilo meio estúpido mas de forma alguma você deixaria de indicar Breaking Bad por causa daquele momento? Algo por aí.

Termino deixando dois links:

 


  1. Desde o ano passado The Pale King me assombra – e ele tem pouco mais de 500 páginas, nem dá para chamar de catatau. Fico pensando no negócio do Wallace ter deixado os manuscritos arrumadinhos para a mulher antes de se matar e penso “Pô, o mínimo que posso fazer em consideração ao cara é ler o livro, né”, mas como disse, “desde o ano passado” 

  2. Eu voltei para UFPR, agora Licenciatura em Português. Quando estava numa fila enoooooooorme num calor do cããããão em janeiro para fazer a matrícula, lembrei do professor Michael em 2005 me encontrando na fila do exame de adiantamento de Inglês – quando já estava quase me formando – e perguntando para mim “Why are you here? Are you punishing yourself?”. Mas serinho, está sendo ótimo. Estou felizona. Ficarei ainda mais quando souber que passei em todas as disciplinas do primeiro semestre. 

6 pensamentos em “Cidade em Chamas (Garth Risk Hallberg)”

  1. Oi, Anica.
    Esse livro me chamou atenção por causa da capa e do título. Você é a segunda pessoa que vejo q leu e diz que gostou. Já vi gente que abandonou. Sem dúvidas, vou ler!
    Eu crio uma certa resistência aos tijolos mas pensei aqui no que sua professora disse e ela tem razão. E vc tb. Vou tentar superar essa resistência hahaha
    Bjos

  2. Excelente resenha, Anica. Adorei as reflexões em defesa do catatau; e a analogia com as series de tv me fisgou, me fez ter uma ideia de como será ler o romance.

  3. Cheguei aqui por acaso, Anica, e fiquei mega feliz por ter dito algo que fez sentido para você! Palmas da Merryl Streep me divertiram absurdamente! Espero que a gente se encontre em breve. Um abraço, Milena

    1. Milena, se eu não fosse extremamente tímida teria aplaudido sua fala na Semana de Letras do mesmo jeito que a Meryl no gif hahahaha Abriu meus olhos para tanta coisa, e não só pela questão dos livros longos, mas também sobre a formação de leitores (um tema que me interessa muito). Obrigada mesmo =D

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