The Grownup (Gillian Flynn)

gillianEu adoro o trabalho da Gillian Flynn. Mesmo. Depois que li Garota Exemplar fui atrás de Dark Places e Sharp Objects (todos saíram pela Intrínseca aqui no Brasil) e então fiquei cá na espera de algo novo dela para ler. Justamente por isso me animei quando The Grownup saiu pelo kindle singles: sabia que era uma história curta, só com 80 páginas (é o formato da coleção, a ideia é vender ebook curto por preço baixo), e até por isso serviria como “aperitivo” para enquanto nenhum romance novo da autora desse as caras por aí.

A novela (ou conto, depende de como você define um e outro) foi publicada originalmente com o título What Do You Do? em uma coletânea organizada por George R. R. Martin chamada Rogues, e logo de cara você consegue captar o estilão da Flynn: narração em primeira pessoa, protagonista mulher com um passado difícil e moral questionável. Aliás, o primeiro parágrafo por si só já é um baita cartão de visitas:

I didn’t stop giving hand jobs because I wasn’t good at it. I stopped giving hand jobs because I was the best at it.

E o que eu vou dizer aqui vai parecer uma crítica negativa mas não é exatamente isso. O negócio é que desde essa primeira página, o que fica claro é que Flynn aprendeu a receita do bolo. Ela tem a fórmula dela e não se arriscará muito fora disso: o modo como larga frases bem “wth?” como essa logo de cara para despertar nossa curiosidade, ou como vai mostrando que ninguém é o que parece em suas histórias e sim, os twists. Ahhh, os twists.

Sei que pensando em termos de criatividade isso pode ser ruim – puxa, tanto potencial e ela não vai sair do cercadinho? Por outro lado, o negócio é que no cercadinho ela sabe o que está fazendo, então dificilmente vai desagradar, entende? Vira aquela sua aposta segura. “Ah, quero ler um thriller bacana“, pans, vai de Flynn. É o que acontece com The Grownup.

A protagonista, que cresceu pedindo esmolas na rua e é apaixonada por livros de terror, trabalha masturbando homens nos fundos de uma empresa que oferece consultas espirituais chamada Spiritual Palms (sim, “uaaat?”)Por ser tão boa no que faz, acaba desenvolvendo uma baita LER e prontamente aceita o convite da dona do lugar para passar a fazer leituras espirituais na parte da frente da empresa, continuando o trabalho nos fundos só com os “clientes de estimação”.

Durante toda essa preparação para o modo como chegou ao trabalho de consultora espiritual, você pesca aqui e acolá frases típicas de personagens de Flynn, como “feeling sad means having too much time on your hands, usually”. A distância que ela mantém das pessoas, o modo como observa e julga a todos que aparecem ali, sejam os homens procurando a masturbação, sejam as mulheres procurando a consulta. É aquela figura que sabe ter uma enormidade de defeitos mas ainda assim se enxerga superior, de alguma forma.

So I’m left with the feeling that I’m smarter than everyone around me but that if I ever got around really smart people – people who went to universities and drank wine and spoke Latin – that they’d be bored as hell by me. It’s a lonely way to go through life. So I wear the name [Nerdy] as a badge of honor. That someday I may not totally bore some really smart people. The question is: How do you find smart people?

É então que Susan Burke aparece, procurando consultoria espiritual. A narradora logo de cara diz que a achava diferente de todos os seus clientes, parecia mais esperta. Susan aos poucos revela seu problema: ela acha que a casa onde mora é assombrada, e que a assombração de alguma forma está dominando seu enteado, Miles.

(Há. Agora que pensei aqui em “Miles”. A Outra Volta do Parafuso)

Quando finalmente ela1 visita a mansão vitoriana dos Burkes que a história de fato engrena. Porque se eu falei do cercadinho da Flynn, é porque me surpreendi ao perceber nesse momento que a autora parece mais próxima de escapar e começar algo novo, diferente. Aqui, é óbvio, lidando com o terror: as experiências da narradora dentro da casa dos Burkes é desde o primeiro momento uma homenagem às histórias de casas assombradas.

Some a isso a relação completamente absurda de Susan com os filhos – o que ao ler inicialmente pensamos ter algo a ver com o medo que ela está sentindo que o enteado esteja possuído, como quando o filho mais novo pergunta se deve trancar a porta do quarto (depois de dizer que estava com saudades??!!), ela responde “Sim, sempre tranque a porta”.

E quando as ameaças de Miles vão aumentando, nossa narradora finalmente descobre o passado da casa: uma família foi assassinada pelo filho que, ao menos pela foto que ilustra o artigo – parece com Miles. Olha, não vou negar, foi o ponto alto da novela para mim. O momento em que a narradora tem que dar o braço a torcer que dessa vez não tem esperteza que a salve.

Mãs… (spoilers, sugiro que você vá para o último parágrafo caso ainda não tenha lido)

… é Gillian Flynn, né. Claro que tem twist. Quando Miles pede que ela olhe a biblioteca da família com atenção, as peças caem no lugar: um dos seus clientes favoritos, o que levava livros de terror para ela ler, era o marido de Susan, pai de Miles. Tudo aquilo era um plano de Susan para se vingar da amante do marido e ao mesmo tempo poder se livrar do garoto de quem ela nunca gostara.

Hmkay. É um bom desfecho. Não é forçado porque aliás, é até engraçado que no primeiro encontro de Susan a narradora tinha acabado de atender o marido – e relendo depois, a sensação que dá é que no primeiro encontro Susan ainda não tinha o plano na cabeça, ela tinha ido na verdade confrontar a amante. O problema é que depois desse twist, vem outro: Miles que planejara tudo para poder chantagear a amante do pai, para que ela o levasse a uma convenção sobre fenômenos sobrenaturais. Uma explicação depois da outra em uma história de suspense acaba dando uma sensação parecida com aqueles trocentos finais da adaptação de O Retorno do Rei para o cinema, sabe como? Acabou. Opa, não. Agora acabou. Hm, péra. (etc)

Embora não fique muito definido, a impressão que fiquei é de que foi um pouco dos dois. Susan orquestrou o plano, mas Miles o aproveitou para fazer o que queria – a questão do rabo do gato é o que melhor aponta para esta possibilidade.

No final das contas sim, mesmo que seja Flynn em seu cercadinho, o negócio é que ela é realmente boa nisso. É um livro divertido, aquela leitura que prende do começo ao fim. Mas até pelo que ela mostrou em uma boa porção de The Grownup, fica agora aquela pontinha ruim da vontade de vê-la em outros cantos, tentando mais do terror, por exemplo.

Atualizado: O Paulo contou ali nos comentários que o conto já foi publicado no Brasil. Saiu na tradução brasileira da coletânea Rogue, que por aqui chegou em maio de 2015 como O Príncipe de Westeros e outras histórias, da editora Saída de Emergência.

ATUALIZADO (19/07/2016): a Intrínseca está lançando agora no Brasil com o título “O Adulto”. Para quem está colecionando fica bacana, segue a mesma linha do visual das capas dos outros livros. Tem o primeiro capítulo disponível aqui para ler.


  1. posso estar enganada, mas o mais próximo de um nome que a narradora-protagonista revela é o apelido “Nerdy” 

3 pensamentos em “The Grownup (Gillian Flynn)”

  1. Ana, essa coletânea também foi publicada no Brasil, com o título “O Príncipe De Westeros e Outras Histórias”. Deram todo o destaque para o nome do Martin e só vi o conto da Flynn por acaso.

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