The Book of Strange New Things (Michel Faber)

strange(Tentei falar sobre Aniquilação sem revelar spoilers e lembrei a razão para eu escrever meus posts com spoilers. Muito chato e no fundo você nunca chega a colocar de forma clara o que gostou/incomodou, porque tem que ficar saltando aqui e acolá para evitar o tal do spoiler. Enfim, fica o aviso: este post tem spoilers.)

Se fosse possível fazer algo assim sem qualquer prejuízo eu adoraria poder separar alguns livros em duas partes. The Book of Strange New Things, por exemplo. Tem algo ali que seria um livro “uou, que foda, vocês precisam ler!”, mas também tem aquela série de torcidas de nariz que acabam esculhambando um pouco a coisa, ao ponto de você nem poder mandar aquela famosa frase de resenha de blog literário “mas esses pontos não estragam o todo”. Estragam sim. Mas estou me adiantando, só para variar.

Lançado lá fora em outubro do ano passado (e ainda sem tradução por aqui), The Book of Strange New Things tem uma premissa interessante: um novo planeta está sendo colonizado e Peter é chamado para, hum, “catequizar” os nativos. Você sabe, meio nos esquemas europeus chegando nas Américas. O negócio é que a esposa de Peter (Beatrice) não é selecionada para acompanhá-lo na missão, e ele é daqueles caras que ficam meio sem chão quando a mulher (que aparentemente cuidava de todos os aspectos práticos de sua vida) fica assim tão longe, podendo se comunicar basicamente através de e-mails (no livro o nome da ferramenta usada por eles é ‘Shoot’).

A escolha dos nomes dos protagonistas não são lá muito sutis, eu sei. “Peter”, o Pedro, apóstolo fundador da Igreja Católica. “Beatrice”, a representação da fé na Divina Comédia de Dante. Por mais que o livro se concentre em descrever a vida em outro planeta, o processo de colonização, a viagem no espaço – ainda assim tudo acaba se concentrando principalmente na questão da fé. Não apenas no sentido religioso da palavra, mais daquela certeza inabalável que temos sobre algo.

A fé de Peter e Beatrice em Deus é o que aparece de forma mais constante, uma vez que a dela passa a ser abalada quando o fim do mundo (sim, o nosso mundo, a Terra) se aproxima. A dele inabalável, ainda mais após o contato com os Oasans. Só que mais adiante, vai ficando evidente que não é só sobre Deus, mas sobre o amor de um por outro – aquele “não importa o fim do mundo se for com você”. É bonito, é bacana, mas o desenvolvimento não deu certo.

A começar pela construção do que seria o tal do apocalipse na Terra. Os “shoots” de Bea para Peter mostram o fim chegando aos poucos, mas a completa falta de reação dele ao que ela descreve tira um pouco do impacto sobre os eventos descritos. Tornados, terremotos, guerras, falta de serviços básicos e ele lá, só contando para ela de como os Oasans o estão recebendo tão bem, o tratando quase como um Messias. Na realidade, a narração da vida em Oasis logo após uma mensagem de Bea era uma baldada de água fria na tensão desenvolvida – como assim o mundo tá acabando e as pessoas mal falam disso? Algo assim.

Talvez o problema tenha sido a tentativa de tentar incluir muita coisa em um romance só, não sei. Até porque o autor vai desenvolvendo complicações que no final das contas simplesmente não existem. O sumiço de alguns dos colonizadores? Aceita-se que se perderam pelo deserto mesmo e boas. Será que eles estão presos em Oasis para sempre? Opa, não, é só pedir para voltar. Qual a doença secreta dos Oasans? Não se sabe, só que eles ficam doentes. Etc. E eu entendo o que é colocado como ambientação (fundamental para um livro sobre outro planeta) como a dificuldade de se localizar num terreno que é plano e não tem árvores nem nada que diferencie um lugar de outro. Entendo que notemos o quão Peter foi absorvido por sua “missão”, o que é bem bacana de perceber inclusive quando ele deixa de se referir aos nativos como Oasans e passa a chamá-los pela palavra que eles usam (com os caracteres estranhos que representam os sons que eles fazem).

Mas qual é o ponto de levar questões como se fossem um mistério quando no final das contas a resposta pouco contribui para a narrativa? A questão sobre a possibilidade de voltar para a Terra, por exemplo. Quando Bea diz “Não volte”, aquilo ali já coloca a tensão no máximo. Não precisava dar a entender que ele enfrentaria algum problema para voltar. Porque, de novo, a questão era mais sobre a fé dele no amor por Bea do que sobre a viagem no espaço, digamos assim.

Era meio que essa parte que eu separaria do livro.

Por outro lado, adorei o modo como nos capítulos iniciais Faber consegue evitar qualquer menção sobre viagem espacial, colonização e afins. Mesmo o tempo da narrativa desaparece – aquele momento em que Peter e Bea estão indo para o aeroporto poderia ser de décadas anteriores a nossa, poderia ser agora, poderia ser no futuro. O problema é que pouca gente pegará The Book of Strange New Things para ler sem saber do que se trata, então fica sem o fator “surpresa” quando ficamos sabendo o que Peter de fato fará – mesmo assim, exercício interessante de narrativa. Meio como aquele começo de Station Eleven, que em nada você pode imaginar que se desenvolverá em um cenário apocalíptico.

Mas mais do que tudo, gostei da relação de Peter com os Oasans. Para mim o livro poderia ter ficado nisso, não precisaria nem daqueles momentos de comunicação entre Peter e Bea. Algumas sacadas ótimas baseadas principalmente na inocência dos nativos, como a questão de gênero (eles não possuem órgãos sexuais, portanto a diferenciação não é baseada a partir disso) ou mesmo da relação do colonizador com o colonizado, sobre a qual Peter parece lutar constantemente, buscando inverter a situação sempre lembrando que os humanos são os alienígenas ali.

‘Do they have genders?’ he said at last.

‘Who?’ she said.

‘The people we’re going to see.’

Grainger looked exasperated. ‘Why don’t you just come straight out and use the word aliens?’

‘Because we’re the aliens here.’

Enfim, dá dó porque tem potencial mas não chega lá. Não vou dizer que é um livro ruim, é só que alguns tropeços acabam deixando na linha do mediano o que poderia ser muito bom.

PS: Tem uma brincadeira mais lá para o fim que não sei se foi intencional mas achei legal. Capítulo 21 é chamado “There is no God, she wrote”. Um tanto além, Peter cita o capítulo 21 do Apocalipse: “And I saw a new heaven and a new earth: for the first heaven and the first earth were passed away; and there was no more sea.” No e-book quando Peter menciona o capítulo 21, ele vem com link para o capítulo 21 do livro. Ideia legal que mostra diferentes formas de aproveitar os recursos que os livros eletrônicos oferecem.

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