O Irmão Alemão (Chico Buarque)

IRMAO-ALEMAOMinha família por lado de mãe é tão apaixonada pelo Chico Buarque que conversando sobre isso com minha tia dia desses até brincamos que temos o hábito de falar dele como “Chico” como se fosse o único Francisco desse mundo. Se alguém diz “Saiu livro novo do Chico”, para nós já é informação suficiente.

Eu sabia que tinha algo para chegar este ano (devo ter lido algum comentário lá no blog da Companhia, não sei), mas conforme a data de lançamento ia se aproximando, eu ficava cada vez mais curiosa: sobre o que diabos é esse livro? “O novo livro de Chico Buarque é um romance em busca da verdade e dos afetos“. Maaaaais, quero saber maaaaais. E aí começam a aparecer as primeiras resenhas e finalmente descubro: O Irmão Alemão é um romance que usa como base uma história pessoal do Chico (desculpa, aqui será Chico), buscando informações sobre um irmão nascido na década de 30 na Alemanha, de quem ele só foi tomar conhecimento quando já adolescente.

Enfatizo a palavra romance porque apesar de usar fatos verídicos para o grosso do enredo, ainda assim trata-se de ficção. E é essa linha entre a verdade e a ficção que mais chamou minha atenção ao longo da obra, mais do que qualquer voyeurismo envolvendo a vida pessoal de uma figura que admiro tanto. Não fiquei tentando atribuir “isso aconteceu” ou “isso não aconteceu” a cada informação nova, me deixei levar pela memória de Francisco de Hollander como em outros momentos fui conduzida pela memória de Bentinho, de Holden Caulfield ou qualquer outro narrador-personagem. Isso, narrador-personagem.

Ainda adolescente Francisco encontra uma carta de uma certa Anne Ernst guardada dentro de um livro do pai. É através dela que ele fica sabendo da existência do “irmão alemão”, que a partir de então vira uma obsessão para o narrador, ao que me parece, muito por causa de um vínculo que a personagem parece desesperada para estabelecer com o pai, sempre perdido entre livros e tão distante dele (aquele diálogo sobre Kafka doeu em mim, devo dizer).

O romance girará em torno da busca por esse irmão alemão, sendo contada através de um fluxo de consciência que antecipa alguns acontecimentos, engana o leitor em outros e, principalmente, lembra muito o que seria a tentativa de organizar cronologicamente o que na realidade não obedece muita ordem: nossas vidas vistas de um ponto avançado no futuro acabam sendo contadas com esses saltos para frente e para trás, de modo a tentar encaixar eventos que antes pareciam não ter relação alguma, para depois dar continuidade à narração.

Da descoberta da carta até uma viagem para a Alemanha em 2013, Francisco de Hollander segue um longo caminho, sempre cheio de livros, como as paredes de sua casa. Aliás, acho curioso como ao mesmo tempo que os livros parecem criar uma barreira entre o narrador e o pai (barreira essa que ele tenta ultrapassar encontrando o irmão alemão, vale lembrar), ainda assim parecem estar sempre ali, como se fossem um membro extra da personagem. A carta é encontrada em um livro, o namoro na juventude envolvendo troca de livros, o amigo de infância que vai trocando de apelido conforme envelhece, mas sempre adotando nomes de personagens, etc. Para bibliófilos é um romance cheio de passagens com as quais é possível se identificar imediatamente, como por exemplo quando Francisco precisa de dinheiro e cogita vender parte dos livros da biblioteca que pertencera ao pai:

Para ganhar tempo, cogitei vender a um sebo alguns quilos de romances mais lidos e sabidos, mas o folheá-los percebi que recordava apenas fragmentos de suas narrativas, nomes de personagens, personagens trocadas de livros, frases soltas, lampejos, rescaldos de um sonho. E por cima dos meus ombros ainda pairava o vulto de mamãe, que teria horror a ver a biblioteca fatiada, até por admirá-la mais por fora do que por dentro.

Sobre a questão de realidade e ficção que tinha comentado inicialmente, me pareceu uma alternativa apropriada – mesmo que com a documentação que revelasse a identidade e o paradeiro do irmão, como preencher os buracos do que não foi dito pelas figuras que não estão mais presentes? Você pode ter informação suficiente para um artigo de enciclopédia: filho de x e y, casado com z, pai de 1, 2,3, viveu em tal cidade, trabalhou em tal lugar. Mas o que ele pensava sobre seu passado?  Tentou buscar o pai brasileiro? Como se sentia sobre o regime político de seu país? Amou? Do que gostava? Como se sentiria se descobrisse que tinha um irmão no Brasil? Há tanto entre um nome e uma pessoa, que só se sabe através da convivência, que a outra alternativa para responder essas questões passa a ser apenas a ficção.

Sergio Günther
Sergio Günther

Ainda nessa linha, interessante o rumo que a narrativa toma quando o amigo de infância e o irmão Mimmo são levado pelos militares durante a ditadura. O narrador se demora ali, falando daquelas mães que não verão mais os filhos mas não desistem de procurá-los/esperá-los. Ao descrever principalmente as atitudes de Eleonora Furtado é possível compreender a dor de não ter resposta, de simplesmente não saber. Houve um fim ou ele está em outro país? Onde ele está? E aí resta manter as esperanças através da ficção (quando Francisco inventava histórias do irmão para a mãe). Então o leitor lembra que anos antes Anne teve que entregar o filho para a Secretaria da Infância e da Juventude de Berlim, e que teve que tocar a vida com a mesma falta de respostas, o mesmo não saber. Você não precisa ser mãe para compreender.

E a ficção continua preenchendo buracos, como quando Francisco segue uma pista falsa e cria para si uma versão do que poderia ter sido, simplesmente porque aquela pista é a única coisa que ele tem em mãos para chegar até o irmão alemão. Aquele  “- Alu? – Anne?” e depois o “-Alu? – Michelle?”, ilustram bem o que quero dizer. Francisco em vários momentos imagina uma versão ideal de sua própria história para então ser confrontado com a realidade.

E não é sempre assim? No momento em que fechei o livro lembrei de um trecho de The Sense of an Ending do Julian Barnes:

How often do we tell our own life story? How often do we adjust, embellish, make sly cuts? And the longer life goes on, the fewer are those around to challenge our account, to remind us that our life is not our life, merely the story we have told about our life. Told to others, but—mainly—to ourselves.

É por isso que acho que foi acertada a opção de tornar ficção um pedaço de sua própria história. Já seria, mesmo que não de forma consciente.

No final das contas, Budapeste ainda é meu favorito, mas acho que O Irmão Alemão quase me agradou tanto quanto. Não cheguei a grifar um texto, mas foi daqueles momentos que lembrei do Chico artesão das palavras: a personagem descobre um modo de chegar até uma pessoa que pode revelar o paradeiro do irmão estrangeiro. Já disse antes que a narrativa é dominada pelo fluxo de consciência, o que normalmente significa um ritmo rápido. Mas nesse momento em especial, o narrador vai falando de tal forma que você consegue captar o desespero dele para chegar logo ao telefone, falar logo com aquela pessoa: acredite, tem ritmo. Ritmo mesmo. Eu sempre fico um pouco abobalhada quando autores conseguem fazer esse tipo de coisa em prosa.

O que agrada na leitura não tem a ver com a satisfação de alguma curiosidade a respeito da vida pessoal do autor (o que há para se saber sobre o irmão aparece em um breve parágrafo no final do livro, ou mesmo em reportagens que apareceram após o lançamento do livro*), e sim pelo modo como lida com temas como a memória e a relação entre o real e o imaginário. Ou ainda, por um trabalho que mostra de forma precisa como todos nós somos personagens dependentes da ficção.

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* Algumas delas:

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