The House of Impossible Loves (Cristina Lopez Barrio)

casaamoresEu entrei em um período de ressaca literária forte – comecei trocentos livros, com nenhum a leitura realmente engatava. O único que engatou (Por Escrito, da Elvira Vigna) era livro de papel e no momento eu só estou conseguindo ler no kindle porque acredite, por mais que mães sejam mestres da arte perdida de fazer tudo com uma mão só, virar páginas com uma criança no colo não é bolinho. Enfim, surge esse The House of Impossible Loves, parece interessante, amostra para o kindle, uou, interessante mesmo, comprei (a facilidade do processo de comprar um e-book só pode ser coisa do diabo).

Tem uma frase do Tibor Fischer que ficou martelando na minha cabeça: “Nunca existira um livro que não contivesse fibras de outro livro”. The House of Impossible Loves da espanhola Cristina Lopez Barrio parece ser a prova disso. Ecos de outros autores estão ali, de forma bastante clara – não à toa quase todas as resenhas desse livro acabam invariavelmente falando de García Márquez e Isabel Allende. Talvez o que diferencie a influência da mera cópia seja o fato de que no primeiro caso esses ecos surgem como ingredientes de um grande ensopado, e não como o prato principal. Barrio consegue fazer o tal do ensopado ao contar a história da estranha família Laguna e suas mulheres, amaldiçoadas há séculos a ter apenas filhas e sempre serem infelizes no amor.

O romance começa com Clara Laguna, mulher belíssima filha da bruxa de um pequeno povoado de Castela ((já peço desculpas por eventuais traduções erradas: tenho mil quilos de leituras de literatura e cultura hispânicas atrasadas e bem, eu li a tradução em inglês – sim, consigo ler em inglês mas não em espanhol. Sim, morro de vergonha de reconhecer isso)). Como todos os habitantes da região conhecem a maldição das Lagunas, nenhum homem tem coragem de se aproximar da jovem, até que um caçador andaluz aparece na região, ambos se apaixonam perdidamente e… sim, é claro, a maldição faz o seu trabalho mais uma vez.

Este é o ponto de partida, mas o livro contará a história de cinco gerações de pessoas da família Laguna. Aqui já entra algo que chamou minha atenção na prosa de Barrio – o livro não chega nem em 400 páginas, mas você sente como se tudo sobre aquelas mulheres tivesse sido revelado. Há uma série de eventos que não são necessariamente narrados, mas que o leitor consegue captar com o contexto. Outros são contados só quando já estamos mais avançados na leitura, completando o quadro de histórias daquela família. O motivo da maldição, por exemplo, surge lá na porção final do livro. Confesso que nesse momento cheguei a ficar até surpresa: como assim a autora me trouxe até aqui falando mil vezes dessa maldição e eu nem tinha dado falta de uma explicação sobre como foi que aquilo começou?

Ainda sobre a prosa e o fato de o livro cobrir várias gerações de Lagunas, gostei especialmente de como ela faz a passagem do foco de uma personagem para outra. A personagem deixa de ser protagonista aos poucos, enquanto a nova personagem vai crescendo – não só em termos de idade, mas de espaço que ganha na narrativa. Clara Laguna antes de morrer já não é protagonista, dá espaço para sua filha Manuela, que depois passa a ser personagem secundária da história da filha Olvido e assim segue. Não deixa de ser uma representação interessante do que a vida e o tempo acabam fazendo com as pessoas.

E então vem o que eu realmente adorei nesse livro, as imagens criadas por Barrio. Sabe aquele livro que parece implorar por uma adaptação? Sei que nada supera o que enxergamos com nossa imaginação enquanto lemos, mas queria muito ver o jardim da Mansão Escarlate, com suas flores crescendo teimosamente mesmo com o inverno mais congelante. Não só o jardim, há um número ilimitado de eventos na história que ganham força justamente por causa da descrição de Barrio. O domínio da autora é tamanho que ela passa a identificar personagens não pelo nome, mas por suas características, incluindo aí não só visuais, mais olfativas também (como o cheiro de sangue de galinha que é relacionado à Manuela, e o de carvalho que é relacionado à Clara).

Sobre as influências, o fato é que o realismo mágico domina a narrativa, como já fica implícito na própria ideia da maldição (ou do já mencionado jardim sempre florido). Há outros elementos que surgem na história como se fossem comuns, como os fantasmas que habitam a Mansão Escarlate, ou os sonhos proféticos que algumas personagens têm. É algo tão dominante que um leitor mais cético que de repente pudesse pensar “essa coisa de maldição é bobagem” logo entende o recado: sim, há uma maldição. A ideia do livro jamais será provar que isso não é possível. Na vida das Lagunas, tudo é possível,

As personagens femininas fortes (e muito, muito estranhas) também dominam a obra. Clara me conquistou no momento em que atirou uma pedra na testa do caçador andaluz porque ele a fez pensar que não apareceria no local que combinaram de se encontrar. Manuela é talvez a mais repugnante das Lagunas, como se sua feiura refletisse sua alma, mas ao mesmo tempo até por isso seja uma das mais complexas. Na realidade, acho que de todas as Lagunas a filha de Olvido, Margarita, é a mais mal desenvolvida – talvez por ser a única criada longe da Mansão Escarlate, não sei. Tive a impressão de ser uma menina extremamente mimada e dominada pela soberba que a mãe, descrita incansavelmente como a mulher mais linda do mundo, não tinha.

E pode parecer que só as mulheres são bem desenvolvidas, mas não acho que seja o caso. Gosto muito da figura do Padre Imperio, de Esteban e de Santiago. Mas dada a maldição das Lagunas, já sabemos que nada é fácil para o homem que resolve se aproximar dessas mulheres.

E sei que me desmanchei em elogios até agora, porém lá no Goodreads acabei dando só três estrelas. Oras, “gostei”? Pois é. Tudo lindo, tudo apaixonante, aquela certeza de personagens que te deixarão com saudades, mas a verdade é que a autora meio que se perde na porção final. Senta que lá vem spoilers:

SPOILER: clique para ler
Então. Eu já não tinha gostado muito de Margarita, então toda a história da garota já foi meio aborrecida, sem contar que naquela altura acho que ninguém mais aguentava saber sobre como os homens ficavam loucos pela beleza da Olvido. Mas ok, ainda estava indo bem. Aí nasce Santiago e a coisa vai ladeira abaixo. Não pelo incesto e si, mas achei tão desnecessária aquela história das visões com Úrsula, o surgimento dela em Madri, e aí de repente upz, Olvido não morreu. Muito forçado, tão forçado que roubou uma estrela das quatro que eu daria.

De qualquer forma, acho que continua valendo  leitura sim, nem que seja pelas duas primeiras porções da obra. É aquele tipo de história que fica conosco depois que fechamos o livro (cheguei a sonhar com o jardim das Lagunas), até pela forma que é escrito – como se fosse realmente uma “contação” de história, seguindo essencialmente o tempo cronológico mas dentro dessa linha temporal se adiantando um pouco nos eventos e depois retrocedendo para complementos, exatamente como fazemos quando contamos algo para uma pessoa. Só é realmente uma pena que não tenha o desfecho que merecia.

Antes que eu me esqueça: saiu aqui no Brasil como A casa dos amores impossíveis pela Editora Prumo. É um livro relativamente recente, sua primeira edição é de 2010. Por coincidência, tanto a tradução em inglês quanto a em português chegaram ano passado nas livrarias.

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