Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)

enhanced-buzz-wide-28958-1406900006-11Lembro que cheguei a escrever no meu post sobre o livro Garota Exemplar que essa era uma história que sobrevivia ao spoiler: mesmo você sabendo detalhes importantes do enredo, ainda assim valia a pena ler. E até por isso fiquei bastante ansiosa sobre a adaptação para o cinema, dirigida por David Fincher (de quem eu curto alguns trabalhos, mas não chego a ser pagadora de pau, etc.). Uns tempos depois, saiu por aí uma notícia de que a Gillian Flynn (autora do livro e responsável pelo roteiro) tinha alterado o final, o que obviamente aumentou minha curiosidade – alterou como? O que muda? E lá vou eu, tão logo o filme chega aos cinemas para conferir.

Antes de continuar a comentar aqui, vale lembrar que ainda acho que seja uma história que vale a pena mesmo com spoilers (embora agora esteja cá co a dúvida se um aspecto realmente não se perde quando você aprende uma coisa ou duas sobre as personagens), mas que caso você seja do tipo que se importa MUITO com isso, é melhor não continuar a ler o que escreverei aqui.  Ok? Ok. Vamos lá.

De início: não vou ficar comentando o enredo, porque a adaptação é extremamente fiel. Quase tudo o que comentei sobre o livro (link de novo, caso você não tenha clicado) vale para o filme e se considerarmos que foi um dos melhores que li ano passado, então é fácil concluir que pelo menos sobre o enredo eu não tenho qualquer outra observação a fazer: é bom, é muito bom.

Como tinha comentado lá naquele post sobre o livro, algo que chamou minha atenção em Garota Exemplar foi o modo como a autora consegue fazer com que o leitor mude de opinião sobre as personagens ao longo da narrativa. Eu realmente odiei o Nick da primeira parte, e adorei a Amy. Já no caso do filme, vem o efeito de conhecer a história previamente: eu não conseguia gostar de Amy, já ia assistindo e vendo o que era algo calculado pela personagem, e sabia que Nick não era realmente aquilo que ela descrevia nos diários. Acabou que o único momento em que lembrei do que senti sobre o Nick foi na hora em que a amante aparece – até porque por mais que usem termos como “presunçoso” ao se referir ao personagem, o fato é que o modo como Ben Affleck o interpreta fica parecendo que ele é só burro.

MUITO burro.
MUITO burro.

E é engraçado porque eu realmente não sei dizer se é por eu já ter conhecimento de detalhes da trama, mas fiquei com a impressão de que a mudança de opinião que o leitor tem sobre Nick, no caso do filme fica meio que de graça, entregue de presente na figura da jornalista que decide que ele é o culpado antes mesmo do aparecimento do diário de Amy – é quase como se terceiros sentissem aquela dúvida sobre a personagem, não quem assiste ao filme. Sabe, você dá aquele sorrisinho de canto de boca e pensa “É bem assim que a mídia funciona mesmo”, mas não se surpreende julgando o sujeito. Como quando Nick diz “Me adoram, me odeiam, agora me amam de novo” (ou algo assim) – tudo ali é por causa do “circo da imprensa”, que também está presente no romance, mas que não é o que mexe com nossa opinião sobre as personagens. No romance nós achamos que Nick é um babaca porque o vemos através dos olhos de Amy, pura e simplesmente.

Mas aí você pensa “Então estragou o filme?”. Não! Primeiro porque a adaptação do thriller em si (e não desse exercício da relação leitor/personagem) é fantástica e também porque a Rosamund Pike está PERFEITA (assim, capslock mesmo) como Amy, especialmente a partir da segunda parte, quando sabemos que o sumiço é parte do plano dela. Caramba, aquela cuspida no copo da vizinha, o olhar que ela faz, é a Amy, pura e simplesmente. E você pensa que é só pela frieza com a qual ela vai desenvolvendo seus planos (o que incluiu a “fuga” da casa do ex-namorado), mas não é só isso. Ali na terceira parte, quando temos Nick e Amy vivendo juntos de novo, quem de fato passa a noção de perigo ali é a Pike, mais do que o Affleck consegue passar de estar sentindo medo. Tem uma cena em que ela está servindo o café da manhã que é perturbadora, porque é isso, a Amy servindo café da manhã – mas como um olhar a atriz consegue passar perfeitamente a sensação de que ela é uma maluca que poderá matar Nick a qualquer momento, caso ele a contrarie.

Foto do Fincher para capa da EW e que putz, putz, putz, deveria ser pôster do filme.
Foto do Fincher para capa da EW e que putz, putz, putz, deveria ser pôster do filme.

Aliááás, sobre o terceiro ato. Então que falaram da tal da mudança, eu não percebi nada no fim, talvez minha memória da obra já não esteja mais tão boa (um artigo no Slate aponta algumas mudanças do livro para o filme mas não tem nada de muito diferente, no final das contas). Mas algo que me incomodou um pouco é que ali o filme parece um tanto picotado, perde a fluidez. Explico: a primeira parte segue muito bem intercalando o presente sob o ponto de vista de Nick (partindo do dia do sumiço de Amy) com passagens do passado do casal (narrados por Amy como trechos de diário). Ali há um encaixe, o presente tem uma conexão com o que será dito sobre o passado.

Na segunda parte, temos o presente de Nick e Amy sendo intercalado, com o marido tentando se livrar de uma possível condenação (e pena de morte) enquanto Amy continua orquestrando seu plano para garantir que Nick seja preso e condenado. Aqui também segue tudo muito bem, com o clímax sendo a cena em que Amy para o carro na frente de casa, sai toda ensaguentada e ouve Nick sussurrar: sua vadia desgraçada (ou seja lá o que colocaram na legenda em português, aposto em vadia desgraçada).

Só que chega a terceira parte e é tudo tão rápido, tão corrido que não dá para deixar de lado a sensação de que talvez tenha sido o trecho do filme que levou mais corte para que não ficasse tão longo. Como disse, Rosamund Pike está perfeita e dá conta muito bem de passar aquela sensação de perigo constante (ao ponto de criar um efeito cômico quando Amy diz ao marido “Você sabe que pode dormir comigo”), mas é muita informação jogada rapidamente e amarrada de forma igualmente rápida. A policial desconfiada da versão de Amy numa cena já na outra aparece para Nick dizendo que não pode fazer nada. Nick com medo numa cena, na outra contando para a irmã que precisa continuar com a esposa por causa do filho, etc. Eu sei, eu sei, acabaria virando um longa de umas três horas, as a realidade é que estava tão bom que eu não me importaria de ficar mais um tempinho ali.

Tem até um gato <3
Tem até um gato <3

Mas ok, fora isso, acho que foi uma das melhores adaptações que vi recentemente, e isso que eu costumo ser bem chatonilda – tanto que se você perceber bem, passei mais tempo falando aqui das minhas ressalvas do que elogiando, hehe. E note que isso mesmo sabendo já da reviravolta lá no meio da história, fico imaginando então para quem está indo ao cinema pela primeira vez, sem ter ideia do que acontecerá. Na realidade, fico bastante curiosa sobre como será a impressão de quem leu o livro após ver o filme: será que minha ideia de que ele sobrevive ao spoiler está realmente certa?

Em tempo: teve todo um bafafá sobre um nu frontal do Ben Affleck. Filme já estava quase no fim, não tinha visto nada, aí aparece a tal da cena do banho e… continuo sem ver nada. Não faço ideia se o Big Ben foi cortado na versão brasileira (sem intenção de trocadilho), ou se foi inserido (juro, sem intenção de trocadilho de novo!!) no mesmo esquema que o Tyler Durden em Fight Club. de qualquer forma, se você está curioso e ainda não viu o filme, tem aqui um artigo do Vulture sobre como ver o Big Ben.

7 comentários em “Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)”

  1. Oi Anica!!! Amei o filme! Também fiquei na expectativa do final diferente, mas acredito que a única diferença foi a entrevista dada ao final. Acredito também, que nenhum spoiler seja capaz de esclarecer essa história, que é simplesmente sensacional e surpreendente!!! Obrigada pelas críticas maravilhosas, que me fazem ler essas obras maravilhosas! Abraços

  2. Então, Anica, acho que o final alterado deve ter mais a ver com quem tem a última palavra: no livro, é ele; no filme, o close no rosto dela deixa claro quem dá as cartas.
    Senti que o terceiro ato foi muito apressado e… bom, o Neil Patrick Harris não convence. Ele tenta, mas ainda não chegou lá.
    Uma crítica da Buzzfeed mencionou que faltou uma “cool girl” na história. De fato, não existe uma Cool Amy em contraponto à Amy Ofendida – e isso deveria ser enfatizado, considerando que é ela quem conta essa parte!
    No mais, amei a trilha sonora, a fotografia, achei que as atuações de Pike e Affleck convenceram muito bem, mas o roteiro não tava “redondinho”. Só não vou dizer que é o trabalho mais fraco do Fincher porque existem “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “O Quarto do Pânico”.

    1. Mas no livro ele tem que apagar o livro que está escrevendo por causa do filho – ela meio que dá a última palavra também, não? Aliás, ela termina o livro dizendo “Não tenho mais nada a acrescentar, só queria garantir que eu tivesse a última palavra”.

      Se bem que tem o negócio do Nick dando uma esculachada nela, que no filme não tem – tem só ele aceitando viver com a Amy. Se for pela esculachada, concordo com essa diferença que você aponta.

      Sobre isso de faltar a Cool Amy, acho que é em parte o problema de o passado se apresentar só como alguns flashes, né? Não dá para desenvolver tudo nesse formato – você sabe que ela ressente os pais pela personagem do livro, sabe que começa feliz com o Nick e que depois o casamento fica ruim – mas o que sabe de fato sobre a Amy? Bem observado.

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