As Primeiras Quinze Vidas de Harry August (Claire North)

firstfifteenHistória de sempre: li alguma resenha num canto, achei interessante, resolvi ver qualé. Não é sempre que isso funciona, vide o caso de A Violent Century que apesar de ter uma ideia legal acaba virando um livro só “meh”.  Mas com The First Fifteen Lives of Harry August, me encantei já de primeira. E olha, isso é beeeem difícil de acontecer comigo, sou meio chatonilda e só me entrego de fato lá pelos 20% de um livro (quando decido se vou seguir em frente ou se vou largar). E se comento sobre esse meu encanto inicial é justamente para explicar desde já que embora a história seja ótima (bem sacada, divertida, etc.), a maior qualidade da obra é o como a autora escreve, simples assim.

Você não precisa de ganchos forçados para querer continuar lendo o livro capítulo após capítulo, porque a narrativa de Claire North é por si só viciante. Como comentei no twitter: ela poderia estar falando sobre batatas, e você continuaria lendo achando a coisa mais legal do mundo, de tão envolvente que é o estilo da autora. Eu sei que é o tipo de coisa que não faz muita diferença para quem quer mais é saber do enredo, mas pelo menos no meu caso ter em mãos um livro tão bem alinhavado, uma narrativa tão fluida prende muito minha atenção.

Negócio é: até então eu nunca tinha ouvido falar em Claire North. Sabe quando bate aquele “Deixa eu ir preparando aqui a lista dos próximos livros que lerei?”, sem você nem ter chegado na metade do livro? Pois é. Fui sondar e descobri que Claire North era pseudônimo para um autor britânico1 que já tinha publicado várias obras, mas completamente diferentes desse livro. Fiquei pensando quem diabos Claire North poderia ser. Por sorte, comecei o livro em uma data bem próxima da revelação, então para você que está ouvindo falar agora sobre Claire North, não se preocupe, eu tenho a resposta para a pergunta “Quem é ela?”: Catherine Webb.

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Ok, a realidade é que nunca tinha ouvido falar de Catherine Webb, nem de Kate Griffin, o outro nome que ela usa para assinar suas obras.  Fábio que saca mais desse mundinho de sci-fi e fantasia disse que é um “nome conhecido e respeitado”, mas acho que ele está trucando. Anyway, já que estou confessando coisas aqui, confesso que tem algo dentro de mim que morre cada vez que vejo alguém nascido depois de 1981 publicando livros fodas como esse. Sim, sou meio mesquinha, eu sei. Moral da história: não importa quem é Claire North, vamos continuar falando sobre o livro, sim?

The First Fifteen Lives of Harry August conta a história de um homem nascido em 1919, criado pela família August e que leva uma vida até bem triste quando… ahn, quando morre. Mas, como o título já deve sugerir, o negócio é que essa é apenas sua primeira vida: Harry volta para aquele ponto inicial em 1919, tendo a chance de reviver toda a sua vida, com uma pequena vantagem: a partir de uma certa idade (ainda na infância) ele passa a relembrar da vida anterior, mais ou menos como eu e você lembramos de como foi nosso primeiro beijo ou de alguma história engraçada que vivemos. Todo o livro explorará as possibilidades de uma vida como essa de Harry, bem como suas implicações morais (tento mudar o destino da humanidade? posso mudar o destino da humanidade?, etc.).

E veja bem, é uma proposta ambiciosa que poderia dar muito errado, até porque o Harry que narra a história já tem conhecimento dessas quinze vidas, e quer repassar para o leitor suas experiências. E com quinze vidas diferentes, é óbvio que a personagem cruzará com personagens novas em cada uma, viverá experiências novas também. Como colocar cada uma delas de forma marcante? Como situar essas vidas na linha de tempo da narrativa de tal modo que não confunda o leitor? Negócio é que Claire North dá conta disso muito bem. Não há confusão nas linhas temporais, e aos poucos você pega o jeito do modo de Harry contar a história, e mesmo que em um capítulo sobre determinada vida ele conte algo que seja de vidas posteriores (ou anteriores), tudo fica bem delimitado.

E aí voltamos ao estilo da escritora. Porque pensando em termos de história, o grande evento é o cataclismo mencionado já no primeiro capítulo. “The world is ending, as it always must. But the end of the world is getting faster“, diz uma menininha para um Harry prestes a morrer em sua 11ª vida. Sabemos então que a narrativa em algum momento se concentrará nisso, em Harry tentando evitar o cataclismo. Negócio é que o livro vai longe até retornar ao assunto do fim do mundo – são quase uns 30% da obra dedicados aos primeiros anos de Harry. O legal desse começo é que ele introduz a ideia dos kalachakras (pessoas como Harry), do Cronus Club (uma associação de kalachakras), do Forgetting e afins. O terreno é muito bem preparado para quando chega a “ação” de fato.

E nisso toda uma galeria de personagens secundárias vai sendo desenvolvida. Como disse, em quinze vidas muita gente cruza o caminho de Harry, e o grande mérito do livro é que apesar de ter sim algumas personagens completamente descartáveis, outras são extremamente bem desenvolvidas. Vincent, o aluno que entra no gabinete de Harry quando ele está vivendo como professor, é simplesmente encantador. Aliás, a amizade que os dois desenvolvem é encantadora.  As discussões deles sobre viagem no tempo são fantásticas, dava vontade de entrar no meio da conversa. “You argue complexity as an excuse for inaction?“, diz Harry em uma das conversas. É inteligente a saída que o livro encontra para histórias meio megalomaníacas de viagem no tempo, por exemplo, herói volta no tempo, mata Hitler, não tem mais guerra. Não é Hitler o causador da guerra, é toda uma estrutura complexa demais para ser desmanchada por uma pessoa (ou pela morte de uma pessoa). Não é a morte de um indivíduo que muda tudo, o que precisa mudar é a estrutura.

A grande guerra acontecerá. A guerra fria acontecerá. O ataque terrorista de 11 de setembro acontecerá. E é disso que o Cronus Club assume uma postura de observadores. Virginia, primeira “sócia” do clube que Harry conhece, em determinado momento fala sobre o modo como os kalachakas veem o mundo em que vivem: “We have the privilege of seeing the present through the wisdom of the past, and frankly such an honour makes it very hard to take anything too seriously at all”. Esse tom irônico que a autora consegue atingir por causa do tédio que eles têm da eterna repetição de suas vidas. Gosto especialmente de uma passagem em que Harry conversa com a amiga Akinleye sobre o uso de drogas e ela comenta “Don’t you see how lucky you are? You can do things to your body that no one else would dare. You can die of happiness and come back to die again!” e quando chocada pergunta para Harry se ele nunca tinha experimentado drogas, ele responde “By the time I had the cash and the time, I’d also had several lifetimes of exposure to the notion that it was a bad thing.“.

E tudo isso, como eu disse, de um modo sem pressa, elementos sendo colocados de tal maneira que quando determinados eventos ocorrem, eles ganham um sentido muito mais amplo sem a autora sequer ter que dizer “Ei, vejam como isso é importante”. Somos os confidentes de Harry, sabemos que é importante. Sabemos porque algumas coisas machucarão tanto, e outras sequer serão levadas em consideração.

E eis então que chegamos ao desfecho, do qual quero falar um tico então caso não tenha lido o livro ainda, vá para o próximo parágrafo. Ok, ficamos sabendo como o fim do mundo está chegando mais rápido – aliás, notar os avanços científicos fora do tempo apropriado é mais um dos momentos legais do livro. Não vou mentir, fiquei com uma sensação estranha com o fim da história, talvez porque estivesse esperando algum plot twist do gênero “na realidade é Harry o responsável pelo cataclisma”. Mas mesmo sem a falta do twist (sim, a autora segue por uma linha bem comum e sem qualquer surpresa), pensando depois, é um final satisfatório, até porque então nos lembramos das palavras iniciais do romance e aí nos damos conta de que não somos confidentes de Harry, ele está contando sua história para seu inimigo. E é legal notar como Harry vai meio que enlouquecendo por causa dessa obsessão em vencer seu rival. Note como o tom do narrador muda um pouco nos eventos mais para o fim, de uma narrativa “confessional” para um belo “jogar na cara”, digamos assim. Dá uma força ainda maior para o que Harry está fazendo ali: mostrando para seu rival como no final ele venceu.

Enfim. O livro saiu agora em abril lá fora, não faço ideia se alguma editora brasileira já correu atrás dos direitos, torço de verdade que chegue logo por aqui para que mais pessoas tenham acesso à história. É divertido, é inteligente, é bem escrito. Sabe, tem tudo no pacote. Por enquanto a única desvantagem é que se você tenta comprar para kindle, não tem na amazon.br e na .com aparece uma mensagem dizendo que o livro não está disponível para compra (???!!). Mas olha, se você lê em inglês, eu acho que vale o esforço de dar uma garimpada pelo livro.

Atualizado (dia 03/05/2014): A Luara compartilhou um link ontem que tem uma entrevista com a Claire North/Catherine Webb. Gostei da entrevista mais do que pela explicação da razão do pseudônimo, mas da escolha de um protagonista homem – acho que fala muito sobre nossa sociedade no século anterior:

The biggest reason for writing a male protagonist was the history of the 20th century itself. When Harry August is born, women still don’t have the vote; by the time he dies, the women’s rights movement is a loud voice fighting battles across the world. The change in society in that century is massive, but women were – and are still – discriminated against. Knowing what I do of my own politics, it seemed unlikely that I’d get through the book without being drawn massively into the world of gender politics and the changing battle for women’s rights throughout the century, and while this is vitally important and a story that must be told, the story of the kalachakra didn’t feel like the right way in which to tell it. Writing a male protagonist, therefore, allowed me to focus on the story of the Cronus Club that seemed most appropriate to the narrative.

Se por um lado fica o gosto agridoce do que poderia ser um grande romance sobre as lutas femininas no século XX (e poderia), não dá para culpá-la pela decisão – lembro da minha orientadora da graduação dizendo que ao escrever monografia a parte mais difícil é a de ir deixando coisas para trás, acredito que um pouco do processo criativo de um escritor envolva essa dificuldade também, ter que trabalhar com um recorte e não com o todo e, o pior, saber abrir mão do que também parece funcionar muito bem.

Para quem quiser ler toda a entrevista, está no io9.


ATUALIZADO 18/01/2017: AE AE AEEEEEEE, finalmente está saindo tradução no Brasil. Em fevereiro chega pela Bertrand Brasil como As Quinze Primeiras Vidas de Harry August, com essa capa lindadimaisdaconta:


  1. aqui a falta de gênero na palavra author em inglês deixava as opções em aberto, poderia ser tanto um homem quanto uma mulher 

9 pensamentos em “As Primeiras Quinze Vidas de Harry August (Claire North)”

  1. Li porque você indicou, e CARALHO.
    CARALHO.

    A Claire North escreveu outras coisas? Vou atrás!
    Existe algum site/blog/texto falando sobre o livro? Fiquei tão triste acabando, sabe? Aliás, desde que comecei não queria ir rápido demais pro livro durar mais tempo (mas não rolou isso de ler devagar XP)

    1. Marcos, como Claire North ela não tem mais nada publicado (ainda), mas parece que os títulos publicados como Kate Griffin podem ser uma boa – eu ainda não li, então não posso recomendar. =/ Mas bate uma deprê depois que o livro acaba, né? É tão bacana, é daqueles que deveria durar para sempre.

      Pergunta para você que leu (SPOILER, se alguém estiver lendo isso e não tiver lido o livro nem continue): você acha que o que leva o Harry a decidir de fato a acabar com o Vincent é o quê? O fato do Vincent ter usado a Jenny para atingi-lo ou as tentativas de apagar a memória dele? Porque eu estava falando com o fábio sobre isso e ele acha que tem a ver com a Jenny, mas eu não acho que ela tivesse um peso assim tão grande nas decisões do Harry (se tivesse, ele teria procurado a Jenny em outros momentos entre a terceira e a décima quinta vida, não?). enfim, qual sua opinião? =]

  2. SPOILERS ABAIXO:

    Bate uma deprê mesmo. Fiquei meio desesperado quando vi no kindle 90% lidos. Vou ir atrás desses da Kate Griffin. Mas não acho que deva ser tão bom assim, já que parece que o fato dela ter usado um pseudônimo é justamente pq o The First Fifteen Lives era bem diferente do que ela já tinha escrito…

    Acho que nem o Harry poderia dizer o pq dele ter ido em frente com isso. Acho que os motivos que ele levanta para ter destruído o quantum mirror tbm valem para ele ter destruído o Vincent:

    “You will wonder why I did this.
    A desire to preserve the universe? It sounds incredibly grand to say it–perhaps I should get myself a T-shirt and a cape to make clear the same? Who are you, god that you would become, to destroy the world in your search for knowledge?
    Habit?
    I had dedicated so many years to bringing you down, it seemed a waste not to do it.
    Jealousy?
    Perhaps a little.
    Vengeance?
    You had been such excellent company, it was sometimes hard to remember this. Centuries are a long time to hold a grudge, but then…
    Remember.
    Remember like a mnemonic, and here we are again, swallowing poison in Pietrok-112 and being grateful for it, feeling the electrodes press into my head, tasting electricity on my tongue, not once, but twice, and the second time you held my hand and said it was for the best, of course, but for the best. Jenny. Do you like me, Harry? Do you like me? Weeping in the cold, your private secretary, your personal dog, your pet, your whatever-it-was-you-wanted-me-to-be. I close my eyes and I remember and yes.
    It is vengeance.
    And perhaps a very small realisation that something inside me has died and that this is the only way I can think of to get it back. A notion of “doing the right thing”–as if that meant anything to me any more.”

  3. Terminei!!
    Muito obrigada por ter indicado o livro…mais um livro ^^
    Gostei demais da história, de como vamos nos envolvendo nas vidas do Harry, apesar delas serem tão diferentes entre si. E como eu fui sentindo raiva e carinho pelo Vincent, de forma alternada, mais ou menos como o próprio Harry devia sentir.
    Mas, confesso, passei a metade final do livro com o coração na mão, sem ter ideia de qual seria o destino do Harry ao mesmo tempo que eu ia sofrendo com sua obsessão, com a sensação sincera de que ela o estava levando ao aniquilamento. Coisa agoniante.

    1. Nossa, o final é uma agonia sem fim mesmo! Acho que um momento que ficou muito marcado para mim foi quando o Vincent começou a se aproximar do Harry com a máquina para apagar a memória dele, dizendo “é para seu bem” e o Harry ali não podendo dizer nada contra aquilo porque teoricamente ele já tinha perdido a memória. Nuss, muito forte aquilo.

      1. E meu medo de que ele tivesse aprimorado a tecnologia do Esquecimento? Aí eu lembrava que ele está contando sobre as primeiras 15 vidas, então ele tem que lembrar pelo menos 15….mas então chegamos na 15ª e minha ansiedade foi ao máximo. Isso não faz bem para o coração.

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