Foco (Arthur Miller)

O romance Foco, escrito por Arthur Miller, foi publicado em 1945, antes das grandes peças que o consagraram como Morte de um Caixeiro Viajante e As Bruxas de Salém. Mas quem espera um trabalho mais ingênuo, ou até mesmo mais fraco com o livro (lançado recentemente com nova tradução pela Companhia das Letras), pode ter certeza que não é o caso. A semente do que se verá em seus trabalhos mais conhecidos já está plantada ali, criando não só um retrato cru e verdadeiro dos Estados Unidos daquele tempo, mas também no desenvolvimento de personagens inesquecíveis, seja pelo que têm de melhor ou de pior – porque as figuras de Miller são assim, imperfeitas, e por isso mesmo tão cativantes.

Veja o caso de Foco. O protagonista, Lawrence Newman, é apresentado para o leitor como uma pessoa horrorosa: ouvindo os gritos pedindo socorro de uma garota na rua, ele resolve ficar quieto. E não é nem por covardia, é simplesmente porque acha que se chamasse a polícia, quando ela chegasse o assunto já estaria resolvido e ele acabaria tendo que explicar a situação para os policiais. No outro dia a coisa piora ainda mais, quando em conversa com um vizinho no caminho para o trabalho, esse conta que era “só uma latina” e que ajudou o amigo bêbado que cometia a agressão a voltar pra casa – Newman nada diz sobre isso, não repreende o vizinho como esperamos que uma personagem “boazinha” faça. E aos poucos vamos vendo como ele é preconceituoso, decidindo quem ganha ou não emprego na empresa em que trabalha baseado no juízo que ele faz da aparência da pessoa. Se parece com um judeu, por exemplo, o emprego está fora de questão.

A ironia vem quando depois de um caso em que o chefe considera um equívoco provocado por uma visão ruim, Newman se vê obrigado a procurar um oftalmologista. Não suportando lentes de contato, o que lhe sobra são óculos. Óculos que fazem com que ele pareça um judeu. Eu vejo uma certa graça (ou pelo menos um toque de nonsense) que apenas uma armação com lentes fosse capaz de transformar Newman em um judeu, mas a verdade é que não só para uma pessoa, mas para várias de seu convívio ele passa a parecer como tal. Começando pelo próprio trabalho, onde o chefe resolve mudá-lo de cargo para que não fique mais no escritório com paredes de vidro e passe a ficar escondido dos demais olhares. Newman obviamente não aceita ser rebaixado dentro da empresa e se demite, voltando para casa achando que logo arrumaria um novo emprego.

É simplesmente chocante imaginar como as pessoas que o conheciam há tempos passam a tratá-lo, simplesmente por causa dos óculos, especialmente em sua vizinhança. Fred (que em determinado momento comenta sobre o medo de que negros comecem a morar em sua rua) passa a fazer parte de uma Frente Cristã, contrária aos judeus no bairro. Focam principalmente em Finkelstein, de fato judeu, tramando em como expulsá-lo da região. Mas Newman, que anteriormente era convidado para as reuniões, depois que passa a usar os óculos começa a sofrer os mesmos tipos de abuso que Finkelstein, como ter a lata de lixo revirada no quintal com um bilhete ameaçador mandando que se mude. E a mesma reação ele acaba recebendo nas entrevistas quando tenta buscar um novo emprego. Por causa de um objeto o classificam como judeu, o julgam e o tratam como escória. Nisso o protagonista se vê sem saída, porque:

“Os pensamentos do sr. Newman começaram a se confundir. Porque sabia que, a despeito de qualquer prova, o sr. Stevens não iria contratá-lo, nem gostaria dele mais do que gostava agora. Era uma coisa irreal, fugidia, mas ele sabia que era assim. Pois sabia que na sua época no cubículo de vidro nenhuma prova, nenhum documento, nenhuma palavra poderia mudar a forma de um rosto de que ele próprio desconfiava.”

Mas, apesar do caos que sua vida se transforma (e talvez até por causa disso), Newman se envolve com Gertrude, uma bela mulher que todos pensam também ser judia. A relação entre ambos traz um dos momentos mais emblemáticos sobre o que significa o “Foco” do título. Ambos vão para um hotel que o protagonista costumava frequentar antes dos óculos. Ele está bastante animado em levar Gertrude até lá, é um lugar especial. Chegando ao local, ouve do dono que não há vagas para ele, o hotel está ocupado. Gertrude enfurecida questiona como pode não haver vagas com apenas 12 carros do lado de fora. Newman sente que é como na citada entrevista de emprego, que nada que ele diga vá poder mudar algo sobre o que o dono do hotel pensa sobre eles. E aí vem o toque de mestre de Miller: no caminho de volta, Newman repara na placa do hotel, que junto com o nome diz “Clientela Restrita”.

Newman não consegue lembrar se quando frequentava o local a placa já estava lá. Depois conclui que provavelmente estava, mas ele atribuiu às palavras um sentido diferente, já que ele mesmo não fazia parte do grupo de pessoas excluídas pela política do estabelecimento, e disso, com raiva ele questiona como podem julgá-lo só de olhar para ele. Exatamente como ele fazia antes. O Newman do sobrenome não vem por acaso. Ele de fato acaba se tornando um novo homem a partir do momento em que todos passam a considerá-lo judeu.

E o leitor pensa que Newman aprenderá alguma coisa, mas ele patina, patina e patina. Chegando ao ponto de sugerir a Finkelstein que se mude, e não enxergando ele mesmo que precisaria fazer a mesma coisa (ou pelo menos fazer algo). E a partir desse encontro com o dono da confeitaria, o que já era um livro bom torna-se belíssimo. Há uma sequência de diálogos entre as personagens que é de apertar o coração, por ser tão verdadeira e ao mesmo tempo tão triste. Finkelstein, que é personagem secundária, ganha a atenção do leitor como se fosse protagonista quando responde a sugestão de Newman para que se mude da seguinte maneira:

“Me desculpe, meu senhor, não precisa explicar para mim que judeus trapaceiam nos negócios. Isso está fora de discussão. Pessoalmente, eu sei de uma fonte limpa que a companhia telefônica cobra cinco centavos em uma ligação local quando já podiam ter um bom lucro se cobrassem um. Isso é fato que está sob investigação. A companhia telefônica pertence e é administrada por gentios. Mas só porque o senhor é um gentio não fici louco da vida com o senhor quando ponho uma moeda de cinco centavos para fazer um telefonema. E os gentios estão me roubando. O que estou perguntando, sr. Newman, é por que o senhor quer que eu me mude deste quarteirão.”

E quando Newman responde que não é o que ele fez, mas o que o povo dele fez, Finkelstein responde de forma certeira: “Em outras palavras, quando olha para mim, o senhor não me vê”. E aqui retomamos novamente a questão dos óculos, do foco, da visão. De como tudo isso muda a vida de Newman, que tem seu momento de redenção nas últimas palavras do conto. Eles e eu, ele diz, sendo que “eles” é a família de Finkelstein. É um desfecho lindo para uma história que é igualmente maravilhosa. Seja pela força dos diálogos, seja pela voz precisa do narrador, sempre apontando onde dói a ferida, Foco é um livro para mexer com o leitor que, sem qualquer intenção de trocadilho, poderá começar a se observar com novos olhos. Especialmente porque embora publicado em 1945, o livro continua assustadoramente atual.

(Este post foi originalmente publicado no falecido blog Meia Palavra, que Deus o tenha, e que seja feliz no céu dos bloguinhos. Faço questão de colocá-lo aqui porque Foco foi sem sombra de dúvidas um dos melhores livros que li em 2012.)

5 comentários em “Foco (Arthur Miller)”

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