Uivo (Howl)

Confesso que poesia nunca foi o meu forte até começar a cursar Literatura Inglesa com a maravilhosa Luci Collin. Não que eu não gostasse, só não via “aquilo tudo”, especialmente no que havia de mais moderno (por moderno entenda-se: do século passado para cá, hehe). Foi por causa dela que conheci poetas como T.S. Eliot, William Carlos Williams e Allen Ginsberg. Então, se não fosse por ela, talvez nem me interessasse por esse filme que saiu ano passado lá fora e ainda não tem previsão de chegar aqui no Brasil. Até porque pelo título dá para saber que ele gira em torno do poema mais importante de Ginsberg, certo?

E aqui eu acho que conhecer um pouco da cultura Beat infelizmente é sim pré-requisito para acompanhar bem o filme, ou pelo menos para não se perder nas inúmeras referências aos escritores dessa geração, como por exemplo Jack Kerouac, ou mesmo Carl Solomon, para quem o poema Howl é dedicado. Mas acredite, mesmo que se perca nas referências, ainda assim Howl é um filme que pode mexer com você.

São quatro linhas de narrativa: uma é a animação do poema, outra é uma entrevista com Ginsberg (interpretado brilhantemente por James Franco), outra são uma leitura de Howl feita em um bar por Ginsberg e finalmente um momento do julgamento contra Howl (Ginsberg foi acusado de obscenidade). Eu sei que americanos tem uma tara por tribunais, mas é o tipo de coisa que não me agrada muito. E os momentos de Howl e Ginsberg são tão viscerais que o julgamento parece meio “solto”, sem propósito ali no meio. E isso que tem o fantástico David Strathairn como promotor – mas sinceramente, é uma passagem que não convence.

A animação de Howl é hipnótica. Eu adoraria que existisse uma edição só com a animação, sem os cortes para as outras linhas narrativas, ficou maravilhoso mesmo. Aliás, enquanto assistia fiquei pensando por que diabos não fazem mais disso com poesia? Misturar o visual fazendo uma animação (e não adaptação, que fique claro) para o texto? Ficou lindo mesmo, só essa parte já fez o filme valer.

Mas aí tem também os trechos com o James Franco. O menino que para mim era só o “Duende Verde” tem me surpreendido, e muito. Já em Milk ele está excelente, e agora em Howl é apaixonante. Os trechos da leitura de Howl são de arrepiar, pela entonação, o ritmo e o brilho que ele dá para o poema. E mesmo na parte da entrevista (mesclada com flashbacks), ele está perfeito. Isso fica ainda mais evidente quando na conclusão vemos algumas imagens de arquivo do poeta, e aí comparamos com cenas do filme. Sério, eu não vi 127 Horas ainda, mas vou ficar muito chateada se esse papel do Franco for mais reconhecido do que o Ginsberg que ele fez. É realmente genial.

Muito bom mesmo. Imperdível para quem gosta de poesia, e uma boa pedida para quem está querendo fugir um pouco daquela mesmice que impera de quando em quando. Para quem ficou curioso, aqui tem as partes I, II e III de Howl. E no site da L&PM tem quatro clipes legendados disponíveis, vale para conferir um pouco do que digo sobre a atuação de James Franco.

Em tempo: o momento da entrevista de Ginsberg que ele fala de ser profeta é lindo. Toca em um ponto que sempre pensei sobre a poesia (e a arte em geral)

I mean, what prophecy actually is, is not knowing whether the bomb will fall in 1942. It’s knowing and feeling something which someone knows and feels in a hundred years. And maybe articulating it in a hint that they will pick up on in a 100 years.

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