Guimarães Rosa

jgrosa.jpgOntem chegou minha Bravo! de fevereiro, com o tio Rosa na capa. Eu já tinha achado bacana o fato de ter uma matéria sobre ele, mas eu nem imaginava qual seria. Abro a revista e vejo: trata-se da publicação de trechos do diário do escritor dos tempos em que ele esteve na Alemanha. Que tempos são esses, você me pergunta. Bom, nada mais nada menos do que a Segunda Guerra Mundial.

Para quem não sabe, nesta época Guimarães Rosa era cônsul-adjunto em Hamburgo. Foi mais ou menos isso que o meteu numa roubada de presenciar uma guerra, mas que por outro lado lhe rendeu uma segunda esposa. De qualquer forma, antes que me prolongue: corre para a banca e compre a Bravo. Não só pelos trechos do diário, mas pelo perfil do escritor, é aquele tipo de revista para ter guardada em casa.

Vale muito a pena guardar, porque é a prova de que não só de Ayrton Senna e Pelé são feitos os heróis brasileiros. Aliás, tenho cá a teoria de que só cultivamos o hábito de idolatrar esportistas porque nesse caso a diferença entre o vencedor e o perdedor é bastante clara. No cinza do mundo “real”, às vezes fica difícil distinguir quem é herói, quem é oportunista, quem deu sorte, etc.

E eu não quero entrar na discussão “pobre do país que precisa de heróis”, porque se heróis não fossem necessários, a literatura não teria criado e registrado tantos. Heróis são exemplos. Assim como tem aquela peça na França que mostra quanto é um metro, um herói mostra quanto é ser bom, em todos os sentidos aplicáveis ao adjetivo.

E Rosa era bom. Era fenomenalmente bom. Ele não arrancava com a bola de futebol do meio do campo até fazer um daqueles gols que deixariam qualquer goleiro num misto de constrangimento e estupefação. E não falo do escritor. Do escritor, eu nunca tive dúvidas que tratava-se de um dos melhores do mundo. Vou demorar parar encontrar alguém que brincasse com as palavras tão seriamente quanto ele, disso tenho certeza.

A questão é o homem. É esse que serve de modelo, é esse o herói brasileiro que tanta gente desconhece porque ou não caminhou pelos bosques da literatura, ou porque, como disse anteriormente, não é fácil distinguir o vencedor e o perdedor do jogo da vida. Trechos do perfil escrito por Mariana Delfini para que compreendam o que digo:

A história de sua aprovação no Itamaraty é lendária. Classificado em segundo lugar, por conta das restrições literárias que fizera a Rui Barbosa na prova de português, surpreendeu os examinadores na argüição oral. “O que o senhor conhece de literatura francesa?”, perguntaram-lhe. “Toda”, respondeu. “Desde quando o senhor lê francês?” Nova resposta: “Os clássicos comecei a ler aos 9 anos.

Vale atentar ao fato de que, segundo o perfil da Bravo!, nesta época ele já dominava mais de 20 idiomas. Mas se você acha que a inteligência não é o que destaca um sujeito dos demais humanos, o que tem a dizer daquele que sabe ser humano em um momento desumano? Sim, isso mesmo. Durante a Grande Guerra, Rosa ajudou diversos judeus a escaparem, inclusive sendo fichado por lá.

“Certamente não é um dos nossos”, consta no arquivo da polícia alemã encontrado por Adriana Jacobsen e Soraia Vilela.

Eu não acho que viver a mais de 300 km/h não tenha seu valor. Também não acho que todos os meus heróis morreram de overdose. Só acho que talvez estejamos procurando nossos heróis no lugar errado.

5 comentários em “Guimarães Rosa”

  1. Para minha vergonha conheço pouca coisa do Guimarães Rosa, li apenas “Grande Sertão: Veredas” e “Sagarana”, mas morro de vontade de ler “Primeras Estórias” e “Noites do Sertão”. Vamos ver como fica esse ano…

  2. “Apenas” é modo de dizer, né? Porque eu conheço um punhado de gente que começou Grande Sertão e largou antes da metade, como se fosse o Ulisses brasileiro.

    Edit: Ei, Marco, colocamos a mensagem ao mesmo tempo heim? Ó, já deixei separadinha no braço do sofá para você ler =D

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