Da manipulação

Ontem quando voltava para casa tive uma conversa sobre manipulação que me fez lembrar do livro do Choderlos de Laclos, o As Relações Perigosas. Muitos já devem ter assistido a versão cinematográfica com a Glenn Close como Marquesa de Merteuil (quem não viu, assista. Vale a pena).Enfim, já que lembrei do livro, vou colocar aqui um dos momentos mais bacanas da história (que é toda contada através de cartas, o que faz do livro algo bem original).

Carta CLIII

(do Visconde de Valmont à Marquesa de Merteuil)

Respondo imediatamente a vossa carta, e tratarei de ser claro; o que não é fácil convosco, quando tomais a resolução de não entender.

Não eram necessários tão longos discursos para estabelecer que, tendo cada um de nós tudo que é preciso para perder o outro, temos igual interesse em nos poupar mutuamente; não é, por tanto, do que se trata. Mas, entre a resolução violenta de nos perdermos e aquela, sem dúvida melhor, de permanecermos unidos como até agora estivemos, de nos tornarmos mais ainda reatando a antiga relação; entre essas duas resoluções, digo, há mil outras. Não era, portanto, ridículo dizer-vos, nem o é repetir-vos, que a partir deste dia serei vosso amante ou vosso inimigo.

Sinto muito bem que a escolha vos embaraça, e que preferíeis tergiversar; e não ignoro que nunca apreciastes ser colocada assim entre o sim e o não; mas deveis sentir, também, que não posso deixar-vos sair desse círculo estreito sem me arriscar a ser ludibriado; e deveis ter previsto que não o suportaria. Cabe-vos decidir agora; posso deixar-vos a escolha, mas não ficar na incerteza.

Previno-vos, tã-somente, de que não me enganareis com vossos raciocínios, bons ou maus; que não me seduzireis, tampouco, com alguns carinhos com que talvez procureis enfeitar vossa recusa; e que, enfim, o momento da franqueza chegou. Não desejo outra coisa senão dar o exemplo; e declaro, com prazer, que prefiro a paz e união; mas, se for preciso romper uma coisa e outra, acredito ter o direito e os meios de fazê-lo.

Acrescento pois, que o menor obstáculo de vossa parte será tomado da minha por uma verdadeira declaração de guerra. Vedes, assim, que a resposta que vos peço não exigenem longas nem belas frases. Duas palavras bastam.

Paris, neste 4 de dezembro de 17**.

RESPOSTA DA MARQUESA DE MERTEUIL, (escrita ao pé da mesma carta):

Pois bem, a guerra!

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