Suíte em quatro movimentos (Ali Smith)

suiteNão sou pessoa do tipo que acredita em magia. Mas acho que livros têm, em alguns casos, um poder de encantamento, quase um feitiço. Poderia dizer que isso se dá pela escolha das palavras, pelo ritmo – mas aí no caso das traduções, o efeito acabaria, não? Então não é isso. Só sei que vez ou outra cai um livro em minhas mãos e penso “Ok, esse é diferente”. É quando você se envolve de tal maneira com a leitura que nem percebe o tempo passar. Quando nada do “mundo de fora” parece te distrair, quando você quer logo voltar para dentro daquele mundo tão logo o abandona para executar as tarefas mais triviais (como, ahn, comer e dormir).

Com Suíte em quatro movimentos de Ali Smith foi assim – e tenho certeza que eu não fui a única a ficar encantada. Conheço pelo menos mais duas pessoas que falaram sobre terem lido a primeira e a segunda parte de um dia para o outro (o que é uma porção considerável do livro).

E aí quem chega aqui pensa “Mas nossa, deve ser uma história extraordinária certeza que eu vou amar também!” e beeeeem, não é por aí. Não acho que seja o tipo de leitura que agradará todo tipo de leitor porque, apesar do inusitado do enredo – em um jantar um convidado sobe e se tranca no quarto de hóspedes, se recusando a sair- é um daqueles livros que muita gente reclamaria que não gostou porque “nada acontece”.

Eu ainda pretendo escrever um post defendendo as histórias em que “nada acontece”, mas por enquanto vamos falar do Suíte em quatro movimentos, sim? Porque algo que chamou minha atenção durante a leitura é como justamente a recusa a praticar uma ação (sair do quarto) coloca outras personagens em movimento (sim, daí o trocadilho da tradução do Caetano Galindo). Miles fechado no quarto, mesmo que fazendo nada, toca a vida de quatro outras pessoas. Não no sentindo de promover transformação (não acho que isso se aplique a todas as personagens), mas mais de empurrão, a saída da inércia.

A comparação com Bartleby e seu “I would prefer not to” é inevitável, eu sei. Há algo em Miles que lembra um tanto a melancolia do escrivão, mas acho que a nota principal de Miles é a doçura. Talvez isso aconteça porque só o conhecemos a partir do ponto de vista das outras quatro personagens, que são, por sua vez, também doces e melancólicas. Por exemplo, Mark, que é o foco da segunda parte, além de escutar a voz da mãe (falando em versos!) anos após sua morte, ainda é do tipo que pede desculpa para a torrada porque escolheu sucrilhos (eu pedia desculpas para meus outros ursinhos de pelúcia porque não gostava deles tanto quanto do Sansão, então meio que rolou uma identificação imediata).

“O fato é que cada árvore que já viveu ou que está viva tem uma história exatamente como aquela árvore. É importante saber as estórias e histórias das coisas, mesmo que tudo o que a gente souber for o que a gente não sabe”.

E é assim que conhecemos Miles, mais pelo que “a gente não sabe” do que pelo que sabemos. Pense no caso de Anna, a personagem principal da primeira parte. Por que ele tinha o endereço dela guardado tantos anos depois da última vez que se encontraram? Ou ainda, no caso da Sra. Young, por que o menino Miles se sentia responsável por visitá-la no dia da morte da filha?

Não se engane, o livro não responderá essas (e outras tantas) perguntas, a realidade é que não me parece ser exatamente a intenção de Ali Smith explicar suas personagens ou ainda, o que fez com que uma delas se trancasse naquele quarto. Até porque tentar responder todas essas perguntas seria como tentar responder para a filha da Sra. Young “Qual a finalidade dos seres humanos?“. Finalidade? Qual, afinal? Nenhuma. Andamos para lá e para cá sem saber ao certo o que estamos fazendo.

E tal como Miles pedalou quilômetros fechado em um quartinho de hóspedes, Ali Smith pode parecer ficar no mesmo lugar (quando se recusa a responder as perguntas) mas revela muito de suas outras personagens para o leitor, mesmo que aparentemente tenhamos tão pouco de ação/movimento propriamente dito.

Claro, há todo o humor construído através do circo absurdo criado ao redor da casa da Sra. Lee, com pessoas que dão para Miles uma faceta quase messiânica. Mesmo o tom caricato da anfitriã, que não cogita derrubar a porta do quarto porque é uma antiguidade, ou a saída da Sra. Young da casa de repouso (ri um monte com aquele “fala pouco”). Mas na maior parte do tempo o leitor está lá, imerso no fluxo de consciência de personagens que possuem alguma conexão com Miles, mas que de certa forma estão mais concentrados em sua vida do que na do estranho trancado no quarto.

Anna e a crise de ter o tipo certo de “presença ausente” aparentemente não só no seu ex-emprego (você só é/está se você faz?). Ou ainda, se pegarmos o passeio de Mark pelo parque em Greenwich, lembrando da noite em que Miles se trancou – repare como apesar de serem desagradáveis quase que durante toda a noite, o que pesa mais daquele jantar na memória de Mark não é quando Miles se tranca, mas o momento em que começam a falar dele, Mark, achando que ainda estava no banheiro. A Sra. Young perdida nas lembranças da filha morta, e Brooke sofrendo com o modo como era tratada na escola. Miles não é de forma alguma essencial em suas vidas, mas mesmo lá, em um canto da memória para alguns (como Anna), ainda assim deixou uma marca.

E o importante é isso, que de certa forma nossas vidas se tocam, e sempre deixamos alguma marca em quem conhecemos. O movimento das quatro partes parece representar exatamente isso, como podemos confirmar quando chegamos próximo ao desfecho, no capítulo da menina Brooke (o mais caótico, talvez em uma tentativa de representar o pensamento de uma criança).

“Imagine se todas as civilizações do passado não tivessem tido a imaginação de erguer os olhos pro céu e pra lua e pras estrelas e entender que as coisas estavam ligadas, que aquelas coisas bem na frente delas podiam estar ligadas ao tempo e a o que o tempo é e como funciona.”

Vale deixar registrado também o parabéns para o Caetano Galindo pela tradução. Parte do charme do livro (sobretudo na parte de Brooke) está em jogos de palavras, alguns praticamente intraduzíveis. A própria opção de traduzir There but for the (cada palavra abre um capítulo e apresentam alguma relevância para o capítulo em questão) como Suíte em quatro movimentos, já dá uma boa ideia de como as decisões do tradutor foram acertadas.

E aí tem o encantamento que comentei inicialmente. Eu não sei sobre outros leitores, mas terminei o livro e depois quando fui procurar outra coisa para ler, me dei conta de que queria continuar ali, com aquelas personagens. Não, não é ressaca literária. É saudade mesmo.

Turistando em Greenwich.
Eu e Fábio turistando em Greenwich.

9 pensamentos em “Suíte em quatro movimentos (Ali Smith)”

  1. Ah, que bacana! Tenho esse livro há um tempo mas ainda não li… Adorei saber como foi sua reação a ele, adoro livros assim… Vou ler também 🙂

    1. Gabriel, você é o tipo de leitor que eu tenho certeza que vai gostar. Pode ler sem medo, é muito bom. Eu tinha dado quatro estrelas no goodreads, mas depois que percebi que deu saudades do livro, subi para cinco hahaha

  2. Anica, gostei demais dos teus comentários (sobre o livro! sobre a parte elogiosa à tradução eu nem falo, ehehehe). Ali Smith é nesse momento talvez a autora mais imerecidamente desconhecida do mundo. Me deixa muito feliz fazer parte da tentativa de levar os livros dela a todo mundo, e me deixa exultante ver, como no teu caso, uma irmã, uma leitora feita pra essa autora tão especial.

    1. Obrigada, Caetano! E obrigada pela tradução também, é claro. Muito bom ler um livro como o Suíte, já no meio da leitura começar a fazer uma lista mental de pessoas para quem recomendar e saber que ninguém vai ficar de fora da festa porque tem livro em português =D

  3. Gostei muito de sua resenha, Anica! E também me aconteceu, com esse livro, essa coisa de magia. 😉 Nunca comento por aqui, por receio de ser repetitiva: sempre me identifico com sua perspectiva sobre os livros, sempre gosto. Abraço. 🙂

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