This One Is Mine (Maria Semple)

thisoneNada como a leitura de um outro título do mesmo autor para entender o que fez com que você gostasse tanto da primeira leitura. Estava dando uma sondada aleatória na Amazon, vi uma capa num padrão familiar e “Uou, livro novo da Maria Semple?”. Bom, não é novo. É anterior ao Cadê você Bernadette?, mas essa edição nova chegou no fim de agosto e tem a tal da capa que comentei (e que ilustra esse post).

This One Is Mine foi o primeiro livro da Maria Semple, publicado em 2008. Pelo que eu entendi, marcou um pouco a transição da carreira dela de roteirista de séries de TV para escritora. É um primeiro livro, deve ser avaliado como tal e blablabla, mas meudeus, que decepção.

Não é que seja ruim, pelo menos no sentido de “mal escrito”. Vai ver “escrever bem” é meio como andar de bicicleta, não sei. O problema é que nessa primeira obra ela abre mão de algo que tanto encantou em Bernadette: o senso de humor. Aquelas situações malucas, as falas que te fazem rir e tornam a leitura algo divertido, gostoso.  Pelo contrário, é um livro amargo em que você acompanha a protagonista só pensando “por favor, não seja burra, não faça isso!”. E olha, sei que pode agradar um monte de gente, mas a sensação que tenho é que Maria Semple sem o senso de humor é só mais uma num mar de outros autores que escrevem decentemente, entende?

Enfim, sobre a história: Violet vive uma vida dos sonhos com o milionário David, irmão de Sally. A trama se concentrará principalmente nas duas personagens femininas, mas às vezes o ponto de vista é de David ou de outro homem, como Kurt e Jeremy (namorados de Sally). A ideia toda é mostrar que mesmo com a vida perfeita Violet sente falta daquele “algo a mais”, e vai buscá-lo num baixista no estilo “bad boy” chamado Teddy. É o que eu disse antes: você já deve ter cruzado com um plot assim em algum momento, e This One Is Mine não traz nada que o diferencie de outros livros do tipo.

Talvez o que mais atraia a curiosidade seja o desenvolvimento das personagens, a começar por Violet. Inicialmente você a percebe como uma mulher inteligente, mas a partir do momento que Teddy entra em cena, caramba, é uma burrice atrás de outra. Não dá para entender como a “Ultra” lá do começo se permite ser tratada pelo cara daquele jeito. E é em uma passagem em que David pensa no que fez com que ele fosse fiel durante anos em que temos uma dica do que faz Violet passar por essa mudança:

Not because fidelity was sacrosanct, but because infidelity turned good people bad.

“Bad” não no sentido de maldade. Mais de esculhambar a vida sem nem refletir, acho. Porém, acredito que o melhor caso de personagem a se observar é o de Sally, que tecnicamente não é uma protagonista, mas acaba roubando a cena. Ela é detestável, pura e simplesmente. Talvez até tenha roubado o lugar da Briony na minha lista de personagens odiáveis.  O modo como ela trata a amiga no começo mal serve para te preparar para o que vem a seguir. Vou marcar como spoiler porque né, não quero estragar a leitura de ninguém:

Spoiler: clique para ler
A guria é tão egoísta, tão centrada no próprio umbigo, que sequer percebe que o namorado é autista. Aliás, eu não sei se a revelação do autismo do Jeremy foi calculada como um “plot twist” – espero que não, até porque acaba invalidando um pouco esse lado da Sally: se nem o leitor consegue ver as pistas deixadas pela Semple, então está ok a Sally não ter notado também. De qualquer forma, tem mais algumas passagens que te fazem pensar “WTF, Sally?”, tipo ir ao médico para abortar porque achava que o filho seria “retardado” como o pai. Pois é.

David também passa por uma transformação aos olhos do leitor, mas acho que no caso dele é algo como “sai do negativo para o positivo”. Aliás, se tem uma passagem divertida no livro é justamente a do retiro, onde dentro da cabana David passa de uma raiva gigantesca por Violet o estar traindo para um amor igualmente grande no momento em que decide que a reconquistará, meio que o que marca a transformação dele como personagem.

Pausa: estava pensando aqui “nossa, isso parece familiar”. Sim, I’m having so much fun here without you. É isso que queria dizer sobre This One Is Mine ser só mais um livro entre outros tantos. Sei que parte da minha decepção foi porque achava que me divertiria tanto quanto com Bernadette (não me diverti), e acabei encontrando um livro mais amargo. Não acho que livro para ser bom tenha que ser só engraçado ou alegre ou sei lá o que, não é isso. Mas faltou aquele diferencial, aquela coisa que te faz lembrar do livro muitos anos depois de ter lido. E para a Semple, o diferencial por enquanto é o humor.

Então não é que eu tenha um prazer bizarro em escrever sobre livros que achei simplesmente ok (na realidade não tenho, acho um saco), mas fica o registro:

a) se for ler algo da Maria Semple pela primeira vez, fique com Cadê Você Bernadette?

b) se gostou de Bernadette pelo humor, fique longe de This One Is Mine

c) se gosta de passar raiva com personagens que tomam sempre as PIORES decisões, procure This One Is Mine

E é isso. Agora vamos lá ver qualé a de Stoner.

Um comentário em “This One Is Mine (Maria Semple)”

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