A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert (Joël Dicker)

averdadeUm novo livro, Marcus, é uma nova vida que começa. É também um momento de grande altruísmo: você oferece, a quem estiver disposto a conhecer, uma parte sua. Alguns vão adorar, outros, detestar. Alguns vão tratá-lo como celebridade, outros, desprezá-lo. Alguns sentirão inveja, outros, terão interesse. Não é para eles que você escreve, Marcus. E sim para todos aqueles que, graças a Marcus Goldman, terão tido um bom momento em seu dia a dia. Você me dirá que isso não é nada de mais e, não obstante, já é muito. Alguns escritores querem mudar o mundo. Mas quem realmente pode mudar o mundo?

A citação acima, um dos vários ensinamentos do professor Quebert para o jovem Marcus Goldman, aparece em um momento já avançado do romance A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert (que saiu recentemente aqui no Brasil pela Intrínseca). Na hora que bati os olhos nessa fala imediatamente pensei na recepção que esse livro vem tendo desde que foi lançado. Como previsto por Quebert, tem quem adore e tem quem odeie. E como em quase todos os casos de livros que despertam opiniões tão contrárias, acho que pelo menos no caso do ódio o romance de estreia de Dicker foi meio que vítima do hype.

Olha, é óbvio que um autor publicado deseja que sua obra seja lida pelo maior número de pessoas. O problema é que quanto maior o número de pessoas “lendo para saber o motivo de tanta gente estar falando desse livro”, parece que a expectativa sobre o conteúdo da obra aumenta. Como se existisse uma relação direta entre qualidade e pessoas falando do livro, ou números de exemplares vendidos (o fato de noticiarem que A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert desbancou Cinquenta Tons de Cinza do topo das listas de mais vendidos parece já falar bem alto sobre como não existe esse tipo de relação, certo?). Resultado: muita gente lendo o livro como se Dicker fosse o próximo nome a ser cogitado para o Nobel, quando na realidade aquela citação que abre o post já indica muito bem qual o caminho que ele quer tomar ao escrever esta ficção: te oferecer um momento de distração no seu dia. Só.

Dito isso, vamos lá: sim, o estilo de escrita de Dicker chega a ser irritante em alguns momentos. Eu adoraria conseguir explicar aqui de forma direta e objetiva, como se através de uma equação x + y = uma caca, mas mesmo após chegar na última palavra do livro eu não consegui captar a fonte do problema. O curioso é que não é o todo que é ruim: são os diálogos. A parte da narração em si segue até que bem, mas tem algo na troca de palavras entre as personagens que passa longe do natural, o que afeta (e muito) a base da trama: o relacionamento de Quebert com a adolescente Nola. Porque só conseguimos captar  o romance dos dois através de falas, e, como eu já disse, diálogos não são o forte de Dicker. Aliás, dizer que não são o forte é meio que um eufemismo.

Porém, há (raras) situações em que os diálogos parecem funcionar: quando Dicker fala com o agente Douglas e com o editor Barnaski, construindo uma crítica óbvia ao mercado editorial – a ideia de se aproveitar de “janelas” entre um evento ou outro para publicar um livro, faturar quando o assunto ainda é comentado e, do outro lado, o ego ferido do autor que percebe que não é o cara que ganha o Pulitzer, mas o tal do “autor de entretenimento”. Nessas horas pensei bastante se Dicker não fazia piada sobre si quando o agente descreve o narrador-protagonista da seguinte maneira:

Você entendeu o que eu quis dizer… Você é um escritor, digamos… moderno. Você agrada porque é jovem e dinâmico… E antenado. Você é um escritor antenado. É isso. As pessoas não esperam que você ganhe o prêmio Pulitzer, elas gostam dos seus livros porque você está dentro das tendências, porque os diverte, além de ser bom também.

Enfim, acho que deu para entender o que quero dizer. Se você não consegue se concentrar só no enredo, desista de A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, porque não te agradará, com toda certeza. Mas se quer só um tempinho se divertindo com um thriller, não tem muito na obra do que reclamar. Não chega a ser um livro que você se força a terminar de ler ou que se odeia por ter terminado de ler quando poderia simplesmente ter abandonado, entende? É meio quando você assistia mais um episódio de House mesmo sabendo toda a mecânica dos episódios de House, ou quando vê mais um filme slasher já conhecendo toda a mecânica dos filmes slashers.

A história se concentra em Marcus Goldman, autor de um sucesso só que busca curar o bloqueio visitando seu mestre, Harry Quebert. Tão logo ele volta para casa (ainda sem um livro para entregar para a editora, que o pressiona cada vez mais), recebe uma ligação de Quebert: o professor foi preso acusado do assassinato da adolescente Nola Kellergan em 1975. A “prova” que a polícia tinha era de que o corpo da menina (dada como desaparecida até então) finalmente fora encontrado, com o manuscrito da obra de maior sucesso de Quebert, As origens do mal.

A partir daí a trama toma um rumo com elementos até já bem conhecidos. Embora Dicker seja suíço, ele situa sua história nos Estados Unidos, e o crime em si ocorre na fictícia Aurora, em New Hampshire. Aquela coisa: cidadezinha pequena, nada é o que parece, todo mundo tem um segredo. Goldman decide investigar a verdade sobre o caso Quebert para provar que seu professor é inocente, pesquisando o passado de Nola inicialmente por conta própria, depois com a ajuda do policial Gahalowood.

Sobre o desenvolvimento em si, não me senti lograda com as (esperadas) reviravoltas da trama, pelo contrário, até gostei do que surge mais para o fim. Tampouco achei que houve abuso de “prováveis suspeitos”, esse é um elemento típico em histórias situadas em “cidadezinha do interior onde nada é o que parece”.

Se algo no enredo me incomodou foi a paixão de Quebert por Nola – como disse, o que o leitor sabe sobre os dois se sustenta basicamente nos diálogos, e os diálogos são ruins. Acho que de certa forma Dicker esperava que usássemos um pouco uma imagem já previamente construída da paixão entre um homem mais velho e uma adolescente tal como visto em Lolita (a semelhança dos nomes Lola/Nola e Humbert/Harry não seria por acaso). Mas vá lá, nesse caso daria até para entender a ideia do autor, buscando induzir o leitor a pensar que Nola não retribui o amor de Harry (ou é uma leitura só minha de que Lolita não retribui o amor de Humbert tal como ele esperava? Estou loqueando?), portanto Harry tem chances de ser culpado, apesar do que diz.

Mas como deve ter dado para perceber, é tipo o feijão com arroz dos livros com crimes em cidades pequenas. Não é ruim, mas não é exatamente uma novidade, e você certamente deixaria passar por uma churrascada, hehe. Assim: não tem nada de muito espetacular que justifique uma corrida louca até a livraria mais próxima, fora o falatório todo sobre o livro. Aliás, certeza que o Dicker será bastante tietado na FLIP desse ano, não tanto pelo livro, mas mais por ser moderno, jovem e dinâmico (haha, desculpa, não deu para perder essa oportunidade). Resumindo: é um livro ok, e só.  Diverte, serve para passar o tempo. E como o próprio Quebert diz para o pupilo, isso não é nada de mais e, não obstante, já é muito. Nem todo mundo escreve pensando em mudar o mundo. Nem todo mundo escreve para ser o próximo Nobel.

7 comentários em “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert (Joël Dicker)”

  1. Gente, essa capa portuguesa ficou ó, uma bosta!

    Além dos diálogos bem duros e da subsequente impossibilidade de enxergar o casal Nola x Harry como crível, duas coisas me incomodaram infinitamente nesse livro: um imenso sexismo e a impressão de que todos os personagens eram óbvios clichés ou irremediavelmente delirantes.

    Até o narrador é delirante! É complicado ficar batendo na tecla de que As Origens do Mal é um dos melhores livros da história da literatura americana quando todos o excertos do livro, em especial as cartas de amor, são tão “meh”.

    Do sexismo: além dos ridículos personagens femininos, quando o Goldman e o Gahalowood vão visitar o Kellergan, isso acontece:

    “We think Nola was in a relationship with Mr Stern. I’m sorry to tell you this in such a blunt way.”
    Mr Kellergan’s face turned red.
    “Nola? What are you trying to insinuate? That my daughter was a whore?”
    […]
    “We just implied that his daughter was a slut, and he got mad.”

    Eles sugerem que uma menina de 15 possa ter tido um caso com dois caras mais velhos e os adjetivos que eles derivam daí são “whore” e “slut”?

    Enfim, história ok, escrita beeeem mais ou menos, mas bem melhor do que as 53 menções à “Deusa interior” da E. L. James!

    1. Você leu em inglês e mesmo assim sentiu os diálogos meio estranhos? Sabe que eu estava quase levantando a possibilidade de ter sido um problema na tradução, mas pelo visto é o estilo do autor mesmo ô.O

      Sobre as personagens femininas, o que é que é aquela mãe dele, heim? Sei que era para ser meio que um alívio cômico, meio que caricatura de mãe de guri que mora longe (tipo o editor sendo caricatura do cara que só quer lucrar) mas cheesus, foi puxado.

      1. É o estilo dele mesmo. Eu tinha levantado a possibilidade de ser problema de tradução também, mas depois comecei a enxergar dificuldades tão óbvias nos diálogos que vi que o culpado era o autor mesmo.

        “I read your book. I borrowed it from the library, and I read it in a single night! I loved it! You are a truly great writer, Harry! Harry … this afternoon, I sang for you. That song, it was for you.”

        Como ele não insere alguma ação da Nola no meio desses dois Harry’s? Ela muda o tom da fala, muda o assunto, sai de um elogio entusiasmado e passa para um momento de fragilidade, de admitir para o cara que ela ama (do nada) que estava cantando pra ele, etc, e o autor não descreve a cena? Não descreve a cadência da voz, uma mudança de postura, nada? Aí o leitor passa batido, mas fica uma sensação estranha, um sentimento de que acabou de ler uma coisa esquisita…

        Quanto às mulheres da trama, não só a mãe dele, a mãe da Jenny também, que loucas, que caricatas, que exagero, meodeos!!! Puxadíssimo! hehe

        1. nossa, bem observado! essa questão da mudança sem nenhuma marca do narrador incomoda mesmo. outra coisa: as reticências. eu sei que elas tentam mostrar um momento de pausa (e aí talvez justamente a tal da mudança de tom, de assunto, whatever), mas não funciona. parece texto que a gente escreve quando é adolescente, sabe como?

          e aí no final das contas é isso: nola depende muito da ideia que temos da lola do nabokov, porque fora isso eu não consigo vê-la ali, como personagem. (SPOILER) o único momento em que você tem uma leve noção de construção de personagem é quando ficamos sabendo sobre a mãe estar morta há tempos. mesmo assim, isso está nos últimos 10% do livro, um livro de 500 páginas. não faltou oportunidade ali para desenvolver melhor a nola – e o harry. tem algo de estranho na amizade dele com o marcus também.

  2. Eu sou mais uma que ficou curiosa sobre o livro por causa dessa capa maravilhosa. Hopper é muito amor.
    Mas agora quero ler por causa do babado, gritaria e confusão mesmo.
    E interessante sua teoria sobre Lola/Nola.
    Tava pensando em ler Lolita (já comecei umas 4 vezes) e depois esse, mas nah… Pode estragar de vez o do Dicker, né?
    E ele me pareceu um pouco mimizento a la Jonathan Franzen com esses trechos, mas ok, eu até curto alguma coisa do Franzen.
    Ótimas opiniões, como sempre 🙂

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