Dark Places (Gillian Flynn)

darkplacesConsiderando que Garota Exemplar foi um dos livros mais bacanas que li agora em 2013, é natural a curiosidade sobre os outros romances já publicados pela escritora Gillian Flynn. Aquela coisa: alguém que acertou tanto em um, com certeza tem mais coisa bacana publicada, certo? Mas aí comecei a lembrar da maldição da Intrínseca que eu e a Dani comentamos no meu post sobre O Teorema Katherine: a editora lançava um livro que era um total sucesso aqui no Brasil, mas a escolha seguinte era sempre fraquinha e por isso mesmo um tanto decepcionante e, por coincidência, quase sempre trabalhos anteriores ao de sucesso (exemplos: A culpa é das estrelas seguido de O Teorema Katherine, A visita cruel do tempo seguido de O Torreão, Um Dia seguido de Resposta Certa, A menina que roubava livros seguido de Eu sou o mensageiro). Então fica aqui minha sugestão para a Intrínseca: ó, vai sem medo em Dark Places. MESMO. Só dessa vez faz o material promocional sem spoilers, ok? Ok.

Então. Eu não sei se já aconteceu com você de gostar muito de um autor, e aí você vai atrás de outro livro dele e quando lê ou tem a sensação de que aquilo não tem nada a ver com o cara (sabe, o estilo, a voz, nada está ali) ou é tão a ver que bem, parece só uma cópia/continuação do que ele já tinha escrito antes. É um terreno perigoso, no final das contas: como inovar sem perder o mojo? É engraçado que ao mesmo tempo que queremos algo familiar, queremos o novo. Sim, somos leitores exigentes e queremos o impossível. E é por isso que é sempre bom ter a surpresa de encontrar quem consegue fazer um ótimo malabarismo com essa nossa vontade, como é o caso de Gillian Flynn. Embora Dark Places tenha sido publicado anteriormente ao Garota Exemplar, você consegue enxergar as semelhanças, aquele tom que indica que está lendo algo da Flynn, ao mesmo tempo que entra em um novo terreno para ser explorado.

Dark Places começa com Libby Day, já nos seus 30 e poucos anos, descobrindo que todo o dinheiro que tinha recebido quando criança agora estava chegando ao fim. O motivo de ela ter recebido doações? Bom, Libby Day aos sete anos de idade foi a única sobrevivente de um massacre conhecido como “O sacrifício satânico de Kinnakee, Kansas”. Sua família inteira foi assassinada, com golpes de machado, tiros, estrangulamento. E aqui o detalhe sórdido: como única testemunha viva, ela teve que depor contra o assassino, que era ninguém mais, ninguém menos do que seu próprio irmão, Ben Day, de apenas 15 anos.  Vinte e cinco anos depois uma série de eventos faz com que ela tenha que revisitar os acontecimentos daquela fria noite de janeiro de 1985, que em sua memória ganharam o apelido de “dark places”.

Já nessa abertura com Libby reconhecemos a típica protagonista de Gillian Flynn, uma garota inteligente mas com características que fazem com que pensemos que seja simplesmente insuportável. Para se ter uma ideia, em um momento diz sobre si “desenhe uma figura da minha alma, e ela será um rabisco com presas“. Ou mesmo do modo como revela um grande ressentimento por conta de uma garota que viveu uma tragédia que acabou chamando a atenção das pessoas, fazendo com que esquecessem dela e, portanto, dessem menos dinheiro. Libby cresceu marcada pela tragédia, mas nunca fez nenhum esforço para mudar, parecendo até desenvolver um gosto para agir de modo que as coisas ficassem sempre piores. “Sou uma mentirosa e uma ladra“, ela se define, “Não deixe eu entrar em sua casa, e se deixar, não me deixe sozinha“. Como poderíamos chamá-la de heroína? Se ela mesma assume que está só “esperando morrer” desde o massacre? A marca de Libby é a não-ação, é uma preguiça tremenda de fazer qualquer coisa que deixe sua vida melhor. E é afundada em uma espécie de letargia e pensamentos suicidas que Libby conhece o Kill Club.

A ideia do Kill Club é reunir pessoas obcecadas por crimes famosos, sejam solucionados ou não. Como está com o dinheiro contado e não parece nem um pouco interessada em começar a trabalhar, ela aceita o convite do grupo para uma “aparição especial” em um evento, para que conte o que ocorreu na noite do massacre (ela vê também a possibilidade de vender objetos pessoais de sua família para ganhar um extra). É nesse encontro que a narrativa começa a seguir para um ponto até então inesperado. Mas antes de falar disso, vou retroceder um pouco para o começo.

Dark Places é estruturado da seguinte maneira: um capítulo nos tempos atuais narrado por Libby, seguido por um capítulo descrevendo o dia do massacre em 1985, ora sob o ponto de vista de Ben, ora sob o ponto de vista de Patty, mãe de Libby.  Presente, passado, presente, passado (etc) com Flynn liberando aos poucos as peças do quebra-cabeça que responderá a pergunta: o que diabos aconteceu naquela noite? E a ideia é muito bem sacada e lá para frente funcionará bem (falo sobre isso depois), mas inicialmente há uma quebra no ritmo da narrativa que faz o livro ficar um pouco chato. Vemos Libby se odiando no presente, e a vida infernal dos Day no passado, mas não dá para entender onde a autora quer nos levar com aqueles flashbacks descrevendo a falta de dinheiro da família, ou os problemas de Ben em se relacionar com as irmãs. Sendo justa: é um número pequeno de páginas, mal chega em 15% do livro, acho. Mas nesse momento lembrei de uma piada minha e do Fábio de quando vemos filmes de terror que começam meio devagar, aí dizemos um para o outro “Vai ficar foda, vai ficar foda!” numa referência a um episódio de Beavis & Butt-head onde eles assistem Creep do Radiohead:

E sim, fica foda. Daquele tipo “Ih, são três da manhã mas deixa eu ler só mais um capítulo!”, só que a partir daqui começam a aparecer spoilers, então só leia caso já tenha conferido Dark Places (e depois não reclame que não avisei), caso não tenha lido vá lá para o último parágrafo. O que marca a mudança é o fato de que ao chegar no evento do Kill Club, Libby é forçada a confrontar as informações envolvendo o massacre, coisa que ela não faz desde o ocorrido. A começar pelo pior: o clube reuniu informações que mostram que Ben na realidade era inocente, e que ela prestou falso testemunho. Dá para ter uma ideia do que esse tipo de informação faz com Libby: o que antes tinha a ver com conseguir dinheiro fácil, agora torna-se uma busca pela paz de espírito. Aquele ponto final que precisamos colocar em nossas histórias para seguir em frente.

E aí que os capítulos intercalando presente e passado começam a funcionar. Porque se no começo assumimos que Ben é o culpado e fará aquilo porque odeia a mãe e as irmãs, agora com essa nova informação mudamos o modo de ver seu lado da história, e tentamos resgatar desses capítulos do passado elementos que apontem a identidade do assassino. Só que Flynn vai liberando essas informações aos poucos, equilibrando o que Libby descobre no presente com o que nos é apresentado do passado, como por exemplo a história de Ben com Krissi e aí no presente Libby conversando com a garota. Tudo é montado de um jeito em que mesmo no passado vemos como Ben no final das contas é vítima do preconceito da cidadezinha onde mora.

Para mim o ponto máximo dessa estrutura adotada pela autora é já perto do final (e aqui vai um mega spoiler, vou avisando):

SPOOOOOILER!!!!!!!!
Quando no capítulo do passado ficamos sabendo que Diondra matou Michelle, e aí no capítulo do presente vemos Libby comentando sobre como Michelle adoraria ficar sabendo sobre Crystal e tanto Crystal quando Diondra reagem como tivessem levado um tapa. A sequência de perseguição depois é de tirar o fôlego.

E vai indo tudo muito bem, mas aí chega uma derrapada final que deixa um gostinho meio amargo para quem estava tão empolgado com a história. Todo o trabalho em montar a cena do crime, o cuidado em ir revelando a história aos poucos, para então preguiçosamente colocar a presença do tal do Angel of Debt, brevemente mencionado quando Libby está conhecendo o Kill Club. Me pareceu meio relaxado, apesar de todos os capítulos de Patty apontarem para o fato de que algo envolvendo suas dívidas seria um dos prováveis motivos para o crime.  Então assim: não chega a estragar o livro, tal como o comecinho lento. Mas não dá para deixar de pensar que ele merecia um desfecho mais caprichado do que esse. No mais, foi realmente uma ótima experiência, até porque explora temas parecidos com o de Garota Exemplar, no final das contas (como o perigo da história única que mencionei no post sobre o outro livro, por exemplo).

No fim, é um livro que depende bastante de lermos com poucas informações em mente até para nos deixarmos levar pelas mudanças da narrativa, assim como para o desenvolvimento da tensão. Então sim, eu sinto muito se você foi teimoso e chegou até aqui mesmo eu tendo avisado sobre os spoilers. Blé.  Agora é ver quando chegará no Brasil (e se será pela Intrínseca mesmo). E, para os que têm TOC com capa de livro, que chegue com a mesma que ilustra esse post, já que ela combina com a de Garota Exemplar.

20 comentários em “Dark Places (Gillian Flynn)”

  1. Eu não li a tua resenha toda, porque ainda não cheguei na autora (em breve o farei), mas deixa eu te dizer uma coisa, pois o início dos teus posts sempre rendem assunto:
    Eu li as duas obras que a Intrínseca publicou do John Green por aqui.
    São livros diferentes, Anica.
    Eu sei: a gente cria uma expectativa completamente desnecessária, a gente tende a acreditar que vai superar a obra anterior ou, pior: vai ser “parecido”.
    “A Culpa é das estrelas” se difere muito de “O Teorema Katherine”. São livros excelentes, mas com teor diferenciado, emoções diferenciadas, enfim, quase tudo em lados opostos.
    Acho que a gente precisa criar menos expectativa e ter a mente mais aberta, mesmo que o autor ofereça uma obra “ruim”. Ele não será bom o tempo todo. Ser convincente basta.
    (isso não é uma bronca, rs).
    Abraços.

    1. Eu concordo que um autor não vai entregar livro bom sempre, mas não concordo que “ser convincente basta”. É evidente que as expectativas aumentam depois que chega um livro muito bom, porque a partir daí sabemos que ele é capaz de fazer algo acima da média – então é natural esperar algo acima da média para os outros livros. Tem escritor que patina, faz livro mediano e depois excelente e aí volta pra média (vejo o Gaiman e o Hornby aqui, apesar de adorar os dois) em autor que faz livro excelente atrás de livro excelente (tipo o Rushdie e o McEwan – eu sei que vc não gostou de Serena, mas é um livro impecável do ponto de vista literário).

      Então assim, eu tenho noção de que O Teorema é um livro diferente, ele é YA mesmo, leve, bobinho e só para divertir (e eu me diverti, como ficou claro no meu post sobre o livro). Mas a partir do momento que você vê que o cara consegue fazer um A culpa é das estrelas, não acho que é demais esperar que ele tenha coisa tão boa quanto – que não seja só “bobinha e para divertir”. No comentário que linkei nesse post a própria Dani comenta que um outro livro do Green, o Onde está você, Alaska, mantém o nível de A culpa é das estrelas, o que talvez aponte que a anomalia seja Teorema – um livro fraco, se comparado com outros. Então está errado apontar que a produção dele não é regular? Acho que não.

      (também não é uma bronca, só estou dando minha visão sobre o assunto ;* )

      1. Também temos que ver uma coisa: “O teorema”, lá fora, foi publicado antes da obra que conta a história da Hazel e do Augustus, não é? A Intrínseca inverteu a ordem por aqui. Eu gostaria que a Intrínseca relançasse o “Quem é você, Alaska?”. Está esgotado na Martins. E de obras “importantes” do John, parece que só tem essas duas mesmo.

        1. Mas aí entra o segundo problema: Alaska veio antes de Teorema e, pelo menos de acordo com a Dani, é melhor. Também estou esperando o relançamento do Alaska, estou bem curiosa, mas será que sai pela Intrínseca? Não sei como fica a questão dos direitos no caso desse livro. Aliás, os livros do Green são uma festa do butiá aqui no Brasil. A record está lançando um dele este mês.

          1. A Rocco já distribuiu algumas cópias de “Quem é Você, Alasca?” nas livrarias – timidamente, mas é possível encontrar, sim.

            Agora, sobre “Teorema”… achei-o infinitamente melhor que “Alasca”, mas fraco em relação à “Culpa”. No entanto, relevo minhas expectativas com relação à “Teorema” por entender que houve uma evolução estilística na escrita de Green – “Culpa” ainda é sua obra mais marcante, na minha opinião.

        2. Um vendedor da Cultura falou que fizeram reimpressão do Alaska. Já está nas livrarias, aparentemente.

          O que sai pela Galera Record (meio que odiei a capa) foi escrito junto com o David Levithan, cujos YA tenho curtido (muito provavelmente foi ele que escreveu o lado gay da história). Vou dar uma olhada, mas acho que talvez leia in english mesmo (mas sou tão preguiçoso que quase sempre prefiro ir pra tradução).

          Preferia se tudo saísse pela mesma editora e ficasse bonitinho junto… Mas, pelo jeito, não será o caso.

    1. confesso que pensei em você na hora que vi que tinha capa seguindo o mesmo estilo de garota exemplar =F sharp objects também ganhou capa nesse estilo, devem ficar tão bonitos todos juntos na estante :~~

  2. Bem de inicio eu fugi da maldição mencionada, li A culpa é das estrelas/ Um dia/ A menina que roubava livros – sem ler os lançados depois. Mas eu li e gostei bastante de O Torreão, sem ler A visita cruel do tempo. Curioso isso.
    Isso já me aconteceu, amei um livro do autor, fui ler os outros, os dois seguintes foram mornos, e eu não desisti e continuei procurando algo tão bom quanto o 1°, mas tenho um pé atrás com os livros anteriores ao que curti, é a ilusão de que o autor ficou bom naquele livro.
    Gostei muito de Garota Exemplar, e me animei a ler esse (mesmo sendo anterior) pois a ideia geral é muito legal, eu gosto de dinâmica familiar nos livros, principalmente entre irmão. Não li os spoilers.

  3. Beavis ficaria louco se sintonizasse as rádios de hoje em dia. Até imagino ele arrancando os cabelos com tanto rap misturado com pop e outras tantas aporrinhações.

  4. oi gente! so mto fã da Chloë Moretz e ela vai estar no filme Dark Places. Mas antes, eu gostaria de comprar o livro, vcs podem me indicar sites que tenham ele em português? pelo mais incrível que pareça, não estou conseguindo achar.. kkkkk brigada!! 😀

    1. Não é tão incrível assim – o livro ainda não foi traduzido e editado e lançado no Brasil. Talvez a Intrínseca lance até o final do ano, perto do lançamento do filme, mas não há disponibilidade dele em nosso idioma.

  5. Perfeito o q vc disse, Anica! Falou tudo. Achei exatamente a mesma coisa que você sobre o desfecho do livro, achei q merecia algo melhor, mas não estragou o livro para mim.

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