iDrakula (Bekka Black)

iDrakulaJá comentei diversas vezes que sinto que boa parte dos livros atuais ainda não conseguem retratar o impacto da internet no nosso cotidiano. Não só da internet, é claro, mas de todas as mudanças nas formas de se comunicar que vieram nos últimos 20 anos. Tem livro de adolescente em que o adolescente não manda mensagem de texto ou NUNCA dá uma olhadinha nos emails, por exemplo. Dude, existe algum adolescente que não manda mensagem de texto nem dá uma olhadinha nos emails nos dias de hoje? Não entenda mal, não é uma questão de verossimilhança: os autores criam um universo próprio, se nesse universo adolescente não twitta, tá tudo certo, leia logo a história e não seja xarope, Anica. Oooooook. Mas enfim, o anacronismo chama minha atenção, e por isso fico até surpresa quando encontro um livro que tenha algo aproximado do que é o cotidiano de uma pessoa nos dias de hoje.

E se falo isso tudo, é para explicar o que fez com que eu começasse a ler iDrakula, de Becca Black. Pela sinopse, entendi que a ideia era trazer a história de Drácula para os dias atuais, justamente com a adição do elemento “internet” no enredo: Mina, Jonathan, Lucy, etc seriam personagens que trocariam e-mails e mensagens de texto, ao invés de trocarem cartas como acontece no romance de Bram Stoker. O negócio é que mesmo sabendo do que se tratava o livro, nada poderia me preparar para o susto que foi, logo na primeira página, dar de cara com isso aqui:

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Sim, a imagem de um celular mostrando a troca de mensagens entre Jonathan e Mina. E há varias dessas imagens ao longo da história, mas o estranhamento inicial realmente acabou prendendo minha atenção. Não há uma “transcrição” das mensagens, elas estão ali, representadas graficamente, do mesmo modo que os e-mails ou páginas de internet que as personagens acessam (que incluem sites de poesias, receitas e viagens e até uma versão própria do romance de uma Wikipedia). É como se acompanhássemos os eventos através de nossos smartphones, e não de um livro (o fato de eu ter lido no kindle pode ter potencializado esta sensação).  Não lembro exatamente da idade das personagens no romance de Stoker, mas aqui todos são jovens na faixa dos 18 anos, até mesmo Van Helsing, que ainda é um estudante de Medicina. Na adaptação para os tempos atuais, os relacionamentos entre algumas personagens mudam de figura (prefiro não dar nenhum spoiler, mas digamos que Lucy passa o rodo nas personagens masculinas disponíveis no livro), mas a essência do enredo se preserva: Jonathan preso na casa do Conde, o Conde de mudança para uma cidade moderna (aqui seria Nova York), Lucy fica doente e depois morre, Van Helsing investiga os acontecimentos, etc.  então, como você meio que já sabe o que vai acontecer, a graça toda é realmente perceber as alterações na história quando transportada para os dias atuais.

Algo que chamou minha atenção é como a narrativa ficou mais breve (li o livro tudo em poucas horas), ainda mais se lembrarmos que o Drácula original é um catatau. Com isso, não dá para deixar de perceber um efeito que realmente aconteceu na comunicação escrita dos dias atuais: com a agilidade do envio e recebimento, você não precisa mais escrever TUDO em um email, e assim o que antes eram cartas longas acabaram virando mensagens breves. Não, não acho que a autora buscasse fazer uma crítica ao modo como nos falamos nos dias atuais, acreditem, o livro é bem bobinho e realmente se sustenta na estranheza de acompanhar a história através de meios de comunicação que normalmente não aparecem em romances modernos. Mas de qualquer forma foi uma experiência interessante, mostrou o outro lado do espectro, digamos assim: se eu reclamava que os livros não tinham nada disso, em iDrakula só tem isso.

Sobre a história em si (possivelmente alguns spoilers, aconselho um pulo para o próximo parágrafo), estranhei bastante o Jonathan como retratado pela autora. A Mina eu meio que já esperava que fosse uma jovem corajosa e curiosa (há fagulhas disso no romance original, e bem, ela chuta bundas em A Liga Extraordinária). Mas o Jonathan é um cara tão bobinho e tão certinho no livro do Stoker que vê-lo não só traindo a Mina com Lucy, mas também sendo bem safadééénho e pegador foi meio que uma surpresa). Van Helsing com uma idade mais próxima das personagens principais também trouxe algumas mudanças interessantes, embora eu não tenha gostado muito do desfecho (o que era para ser diferente, portanto novidade, acaba sendo só óbvio).

De qualquer modo, se alguém me perguntasse “Devo ler o livro, Anica?” minha resposta seria:

a) Se você é fanático por Drácula, não, não leia. Fanáticos odeiam mudanças no cânone, isso significa que você só vai ficar puto enquanto lê.

b) Se você for adolescente, pode ler. É divertido e sim, você é o público-alvo da autora.

c) Se você não for adolescente nem fanático e só está mesmo curioso mas é meio ranzinza, melhor não ler. Acho que a ideia de ler este livro é meio que a mesma que te faz ver filme trash.

d) Se você não for adolescente nem fanático e só está curioso mas tem senso de humor, pode ler. Não será a melhor leitura da sua vida, mas provavelmente será um dos livros mais wtf que você terá lido este ano.

Antes que eu me esqueça: toda vez que mencionei a autora neste post, tocou esta música na minha cabeça. E por hoje é só, pessoal.

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