Cinquenta Tons Mais Escuros (E. L. James)

Sim, eu traí o ~movimento~, continuei a ler a trilogia Cinquenta Tons de Cinza de E.L. James. Passei para o segundo volume, Cinquenta Tons Mais Escuros (a ser lançado no Brasil pela Intrínseca em setembro deste ano) e, embora tenha quase desistido no começo, fui até o fim por conta de uma série de motivos, entre os quais: a) tenho TOC com séries, não consigo abandoná-las sem ler todos os livros; b) ainda não conseguia entender a quantidade apavorante de leitoras apaixonadas por um cretino como o Christian Grey (não, a resposta “ele é rico, bonito e pauzudo” não serve para mim) e c) não queria ser injusta com a série, tentei observar o todo. Vai que. Então respirei fundo e resolvi observar a história apenas quanto à diversão que pode proporcionar, já que pelo primeiro volume sabia de antemão que a parte da escrita era sofrível mesmo. A saber, continua sofrível no segundo livro, assim como também continua a chatíssima repetição de expressões/verbos (alguém por favor ensina esta mulher a procurar sinônimos na internet, sim?).

Poréééém, é fato que Cinquenta Tons Mais Escuros é bem mais tolerável do que o primeiro volume. Por tolerável quero dizer: não é bom, mas também não é mais tão ruim. A começar que a dona E.L. James resolve criar um enredo de fato. Isso faz toda a diferença, porque se for observar bem, a estrutura de Cinquenta Tons de Cinza era praticamente uma colagem de micro-contos eróticos, repetindo sempre a mesma sequência de criar a base para o momento em que Grey e Ana transariam e o ato em si, e o livro meio que é só isso, o que é obviamente chato (motivos explicados no meu post anterior). Mas, como disse, no segundo livro temos algo além disso. E. L. James lança mão de vários clichês de livros para mulherzinha, mas consegue criar uma situação de antagonismo e um pouco de mistério, que faz com que o leitor consiga chegar até o final (apesar de um certo mal uso de uma poesia linda de Emily Dickinson). Um pouco do passado de Grey aqui, a ex-sub louca acolá, um acidente com helicóptero, uma tentativa de estupro e vamos indo.

Para situar os leitores: no final do romance anterior, Anastasia pede para Grey que ele mostre o pior que ele pode fazer. Ele mostra, ela não gosta (oh, really?) e o abandona. ComeçamosCinquenta Tons Mais Escuros com Anastasia e Grey separados, pensando “puxa, sopraram juízo na cabeça de vento da garota”, mas nãããão, não dá nem um capítulo direito e eles já estão fazendo as pazes. Eu ainda não entendi muito bem como para a Anastasia era tudo só uma questão de ter dito a safe word (os distúrbios da menina fazem com que ela passe de vítima para culpada, no final das contas). Mas ok, eis que entra em cena o Christian “Cute” Grey, que não quer perder Anastasia de jeito nenhum, e resolve deixar todos os chicotes e palmadas e tentar “Mais” (o código do casal para amor/namoro/compromisso/etc.). Confesso que comecei a entender por qual motivo tanta menina diz que Grey é maravilhoso, mas eu ainda não mordi esta isca. Vamos aos fatos:

1. Ele quer proteger Anastasia de tudo, virando um chato completo: chato ao ponto de se meter na vida profissional da garota, de decidir qual carro ela dirigirá e quando dirigirá, etc. etc. etc. É o perfil exato do cara que sufoca a namorada de tal jeito que o namoro não vai além de dois meses. Deixemos de lado o fato que a insistência da Anastasia em ser “uma garota simples” namorando um cara rico como o Grey é simplesmente inverossímil. Não estou dizendo que abriria mão da minha vida profissional se namorasse um cara assim, mas vá, pelo menos aceitar presentes caros de boa eu saberia.

2. Ele continua “de lua”: Ele vai de “Estou muito bravo” com “Você me deixa louco” em tipo, dois segundos. E quando está no modo “de mal” é extremamente grosseiro com a garota, coisa que eu não toleraria de ninguém. Saca aquela figura do homem das cavernas puxando a mulher pelos cabelos? Então.

3. Casamento?!!: a narrativa de E.L. James é meio caótica (aka: mal desenvolvida) e eu perdi a linha do tempo, mas pelos meus cálculos eles estão ali na casa de um mês e meio quando Christian pede Anastasia em casamento. Lembrei automaticamente do episódio de How I Met Your Motherquando Ted diz para Robin que a ama no primeiro encontro. Hold your horses, amigão! Precisamos de eventos para o terceiro livro!

Enfim, ele é maluco e ninguém vai me convencer que é o cara dos sonhos de qualquer mulher, não. Dúvida respondida, continuemos aqui com outra coisa que tenho visto diversas revistas/jornais e afins comentando a respeito do sucesso do livro. Em mais de um lugar vi pessoas sugerindo queCinquenta Tons de Cinza vendeu/vende tanto porque mostra uma fantasia que as mulheres costumam deixar bem escondida, de serem subjugadas por homens (e aí li até teorias meio loucas envolvendo mulheres no mercado de trabalho e algo que o valha). Ok, pessoal, foco: isso é ridículo. Lendo Cinquenta Tons Mais Escuros fica óbvio que não é a relação dom/sub que atrai, até porque nesse segundo livro isso é quase inexistente (as fantasias eróticas ficam mais por conta dos lugares inusitados onde eles transam do que pelas práticas peculiares de Christian). A questão é que E.L. James traz um punhado de sonhos de consumo feminino, que ao contrário do que possam imaginar não tem a ver com o fato de Christian ser rico, bonito (e pauzudo), mas pelas coisas que ele faz e diz para Anastasia (tirando as barbaridades citadas acima). Há uma inversão e quem domina a situação (pelo menos em teoria) é Ana, porque Christian (supostamente) é tão louco por ela que não consegue imaginar a vida sem ela. Compreendem? Não é a fantasia sexual. É a fantasia do amor declarado, do sujeito que se entrega sem jogos, se rende completamente, de forma transparente. Reparem na quantidade de vezes que a narradora comenta que tem mulheres babando por Grey e ele nem dá bola. Reparem na infinidade de vezes que Grey se esparrama no chão dizendo que a vida dele sem Ana não faz sentido. Etc.

E com isso eu meio que comecei a compreender porque, afinal, tanta gente se encantou com os livros e com Christian. A pessoa que comentou meu post anterior alegando que eu deveria ler todos os livros para opinar não estava de todo errada: as coisas realmente mudam um tanto de figura com o segundo volume. Não entendam mal: o livro continua sendo ruim. Mas se ao terminarCinquenta Tons de Cinza eu não conseguia entender o motivo pelo qual tanta gente estava lendo o livro, pelo menos agora isso ficou um tanto mais claro. Grey é completamente maluco, mas na hora de ser fofo ele é tipo isso:

I can haz pussy?

Acho que deu para entender.

Mas deixando de lado o Grey, continuo achando a escolha de Anastasia como narradora absurdamente infeliz. Ela é burra demais, tem a maturidade emocional de uma ervilha. Há todo um conflito envolvendo uma ex-sub maluca de Christian e uma arma, e a preocupação número um dela é se ela vai conseguir satisfazer o namorado, ou se ela é bo-ni-ta o suficiente para ele. Sério, Anastasia? A maluca entrar no seu quarto enquanto você dorme não é seu maior problema, garota? Somando a isso a inverossimilhança da voz da narradora (porque convenhamos, alguém que ~lê muito~ como ela diz ler não teria um vocabulário tão limitado), pronto, temos aí a narradora-protagonista mais chata da história da Literatura. E se fosse só protagonista você dá um jeito de deixar para lá, focar no antagonista, torcer para que o livro seja uma tragédia e todo mundo morra no fim, sei lá. Mas ela é narradora. As piras de baixa autoestima dela estão ali toda hora. É. IRRITANTE. DEMAIS.1

É tão chato que influencia até nas descrições das cenas de sexo porque, convenhamos, quão sexy é uma narração que além de incluir as já mencionadas expressões Holy-qualquer-coisa, Oh my ou a tal da deusa interior, ainda mostra uma séria dificuldade para se referir as partes íntimas da personagem? Não é um pouco irônico que em um livro que tenta quebrar um tabu mostrando um pouco de BDSM ao mesmo tempo se refira à vagina como “lá” e ao ânus como “lá atrás”?  Sei lá. Sensação de filme pornô para passar no Discovery Kids.

Então é isso. Os defeitos da escrita de E.L. James continuam lá, como eu já imaginava que continuariam. As expressões abobalhadas da Anastasia também. Christian Grey continua bizarramente inconstante, mas vá lá, tende mais para o fofo do que para o babaca nesse livro. Anastasia continua completamente idiota. Mas ei, veja o lado bom: agora tem historinha mesmo. Pelo menos você chega até o fim sem ter aquela sensação de ter jogado seu tempo fora.

(Este post foi originalmente publicado no Meia Palavra em 6 de agosto de 2012)

Um comentário em “Cinquenta Tons Mais Escuros (E. L. James)”

  1. Os opiniões sobre essa série estão causando verdadeiras polêmicas, não?!

    Bater em seis semanas o número de vendas que O Código da Vinci fez em um ano e meio não é pouca coisa…

    Estou super curiosa para ler a série e poder conhecer o que há de tão difamador e libertador nessas páginas. Pelo o que vi na sua resenha, a autora não é uma boa escritora, por não saber desenvolver a estória, mas… bem, deve haver algo de muito especial nesses livros para estar fazendo tanto sucesso… talvez essa linguagem mais medíocre tenha tornado-se um abridor de portas para tantas leitoras, assim como algumas outras séries de sucesso atuais.

    Beijos,

    Samantha Monteiro

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