Habibi (Craig Thompson)

Antes de qualquer coisa que se possa falar sobre o mais recente trabalho de Craig Thompson, Habibi, uma coisa é inquestionável: a graphic novel é linda. Linda mesmo, de encher os olhos – cada página parece um quadro, com vários detalhes a serem observados. Não à toa o processo de criação da HQ foi de quase 8 anos: basta observar a página que marca a divisão de capítulos, com uma padronagem belíssima, que eu até por curiosidade observei cuidadosamente para ver se não era um bom ctrlc ctrlv do computador; mas não – se tiverem o livro em mãos, reparem como cada desenho é único, formando um painel rico e, como já dito anteriormente, muito bonito. O efeito se repete de forma mais discreta nas outras páginas, onde o destaque da arte passa a ser o cuidado com que Thompson retrata as histórias contatas por Dodola, e vividas por ela e seu filho adotivo Zam.

Ambos representam minorias no lugar em que vivem: Dodola é mulher, vendida como esposa ainda criança, e desde cedo precisa usar o corpo para sobreviver. Zam é negro, e tem a chance de não ser escravo quando Dodola o salva ainda com três anos de idade, quando então eles passam a viver juntos em um barco abandonado no meio do deserto. Dodola assume um papel de mãe e irmã, mas com a idade logo Zam passa a enxergá-la acima de tudo como mulher, passa a sentir desejo pela pessoa que até então o criara. Isso fica muito bem representado na sequência de quadrinhos que mostra como era o banho das personagens, antes juntos e de forma inocente, e depois separados, com o pedido da garota de que ele não ficasse olhando fixamente para o corpo dela.

Mas para quem achava que a tensão da narrativa se construiria nesse momento, Thompson chega com uma surpresa – uma série de eventos que separam Dodola de Zam. A narrativa inicialmente foca o destino da moça, que passou a ser uma das amantes de um sultão. Nesta passagem não consegui esquecer da imagem de Sherazade de As mil e uma noites, até porque é o momento que a personagem começa a mostrar uma de suas características mais fortes: a inteligência. As dificuldades ainda existem, os insultos a sua condição de mulher ainda estão lá, mas ela consegue um meio de sobreviver enquanto não reencontra Zam.

Quando o foco muda para Zam, vemos que ele também passou por situações difíceis, mas a palavra que parece pesar em sua história é culpa: culpa do desejo que sente por Dodola, e do que ela tinha que fazer para dar comida para ele. Gosto de ver como Thompson traça um paralelo entre duas mudanças no corpo que ambas personagens acabam sofrendo: Dodola fica grávida, Zam passa a ser um eunuco. No caso do garoto, durante toda a leitura não conseguia esquecer de Retalhos, obra anterior de Craig Thompson. Tal e qual a personagem, a relação dele com o sexo é extremamente complicada, como um peso na consciência por sentir algo que não compreende bem. E Zam é assim, mesmo com outras garotas – o pensamento de que não é correto.

Aqui daria para facilmente levantar o tópico da religião, até porque as histórias contadas por Dodola são retiradas do Corão. Há paralelos entre essas histórias e as situações que as personagens estão vivendo a todo momento, quase como se a fé pautasse (ou justificasse) suas ações. E é bastante curioso como um autor criado em uma família cristã bastante conservadora consegue passar todo um universo de uma outra crença sem julgamentos (e, espero, sem esteriótipos – não sou profunda conhecedora para avaliar sobre isso). Acredito que parte do tempo que Habibi levou para ser criado também inclui muita pesquisa de Thompson, o que fica claro até pelas notas no final do livro.

Por falar em final, está aí o único problema de Habibi, na minha opinião. O desenvolvimento da história até o momento do reencontro é genial, incluindo aí o pouco tempo que passam com o pescador (minha parte preferida na HQ). Mas aí Dodola e Zam vão morar sozinhos e parece que Thompson simplesmente erra a mão. Não é pelo dramalhão (que, convenhamos, é o tom que impera em toda a narrativa), mas na inclusão de elementos desnecessários, que tiraram um pouco a sutileza como o escritor conduziu a história até ali. O desfecho em si é belíssimo, mas os momentos anteriores parecem mais do que desnecessários – simplesmente não tem o mesmo nível do resto de Habibi. Eu saltaria do pescador para a compra da menininha sem nem piscar.

Mas de fato é o único aspecto negativo de todo o conjunto. Neste sentido ainda prefiro Retalhos, que é impecável (sem intenção de trocadilho aqui). Porém, ainda assim Habibi é uma HQ superior a muitas que já li, especialmente pelo cuidado com a arte, que é de fato uma delícia de ver e ficar encarando – quase daquele jeito meio embasbacado que Zam admirava a beleza do corpo de Dodola.


Post originalmente publicado no Meia Palavra em 03 de outubro de 2012.

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