O menino do pijama listrado (John Boyne)

Já vi mais de uma vez editoras tentando vender uma obra com aquela ideia de “quanto menos você souber sobre esse livro, melhor”. E a verdade é que por conta disso já me meti em algumas roubadas, em que virava as páginas de um livro sem graça esperando quando chegaria aquela grande surpresa que ninguém deveria saber antes de ler. E ela não chega, ou se chega, é bem sem graça. Estou comentando isso como uma espécie de defesa e pedido de um voto de confiança em mim, porque a verdade é que sobre O menino do pijama listrado, de John Boyne, quanto menos você souber antes de ler, melhor.

É evidente, você cidadão educado que já estudou alguma coisa sobre a Segunda Guerra Mundial saberá que o tal do pijama listrado tem a ver com as roupas dadas aos judeus nos campos de concentração. E por ser um livro dito infantojuvenil (classificação da qual discordo e logo direi o motivo), há de se esperar aí uma história de amizade em tempos de guerra. Bom, sem entregar o ouro eu posso dizer que é quase isso. Mas soma-se ao enredo encantador o fato de que Boyne lança mão de um truque fantástico ao escolher como protagonista uma criança.

Somos apresentados ao mundo e à vida de Bruno através de seus olhos. O narrador não é onisciente, embora seja em terceira pessoa – ele descreve apenas aquilo que Bruno vê, escuta e compreende. E muito dessa história está justamente no lento processo que Bruno atravessa, da segurança de sua casa de cinco andares em Berlim para um mundo novo na casa em Haja-Vista, onde conhecerá Shmuel. A amizade dos dois é improvável, mas se desenvolve apesar das diferenças gritantes entre um e outro, que não são apenas físicas, mas também psicológicas.

E quando falo de saber tão pouco quanto for possível sobre o livro antes de o ler, é justamente  porque é muito gostoso ir descobrindo as coisas junto com Bruno. Como a verdadeira pronúncia de Haja-Vista, ou ainda o nome do “chefe” do pai do garoto. Boyne é extremamente sutil inclusive em sub-enredos, sendo o melhor exemplo disso (aqui vai um spoiler, então leia por sua conta e risco) é o caso da mãe de Bruno com um dos oficiais que vivem em Haja-Vista. Em nenhum momento se pronuncia a palavra amante, mas pelo que Bruno observa e ouve, fica claro que ele foi mandado embora por causa disso.

E tanto pela sutileza da narrativa e também pelo desfecho desse que acredito que não seja um livro voltado preferencialmente para o público infantojuvenil. Não digo que uma pessoa mais jovem não conseguirá absorvê-lo, há todo tipo de leitor por aí, e restringir o alvo apenas considerando a idade é complicado. Mas sem uma certa bagagem emocional e cultural, alguns detalhes são tão sutis que podem passar batido para o leitor, que então erroneamente considerará o livro fraco ou ruim quando a realidade é outra.

O menino do pijama listrado é encantador e conquista por dizer tanto com tão pouco. Aliás, é um daqueles casos em que o maior defeito é justamente ser tão curto. O final certamente te deixará com um nó na garganta, o que aparentemente é uma especialidade de Boyne, se for considerar outro livro do autor, O Palácio de Inverno. Vale se deixar levar pelo mundo como Bruno vê, numa inocência tocante onde uma criança ensina ao leitor adulto que não há uma explicação para o ódio entre pessoas por serem diferentes.


Post originalmente publicado no Meia Palavra em 28 de janeiro de 2012.

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