O azar do Moore (parte I)

vendetta.jpgCom os comentários sobre as filmagens de Watchmen, fica difícil não voltar ao assunto do azar que o Alan Moore tem com as adaptações feitas a partir dos trabalhos dele. O azar é tamanho, que ele simplesmente decidiu passar o dinheiro que ganha pelos direitos autorais direto para o desenhista da obra – mas em alguns casos até isso deu errado.

De qualquer forma, o mais interessante é que normalmente as adaptações só são ruins para aqueles que leram as HQs. E antes que os fãs mais exaltados das películas joguem pedras nos pobres nerds, venho aqui em defesa desses apontar quais são os problemas que obviamente quem não leu, não consegue reconhecer.

A questão é basicamente essa: normalmente, os filmes tornam-se uma coisa à parte. Pegam a idéia inicial e depois desenvolvem a partir disso – o que não significa que o filme seja ruim, mas como adaptação, é.

Um dos melhores exemplos sobre isso é o caso de V de Vingança. Se você esquece que Alan Moore contou a história de V, o filme é até bem batutinha. A questão é que foram realizadas mudanças desnecessárias em pontos importantes da história do Moore. Desnecessárias sim. Não é tipo “WTF, esse filme tem mais de 9 horas, não podemos colocar o Tom Bombadil”. É simplesmente um “Acho que os idiotas não entenderão, vamos deixar mais palatável”.

dc139.jpgUm exemplo? O principal é V lutando pela democracia, e não a anarquia. Isso faz uma diferença tremenda – porque no segundo caso, há toda uma amargura, uma descrença com relação ao homem (tanto que tem um momento fantástico da HQ no qual o V “demite” a humanidade). A opção pela democracia também acaba com outro momento marcante, que é a conversa de V com a Justiça.

Indo mais além, há também uma meleca danada que fizeram na história ao deixarem certo de que V era um homem. Uma das coisas mais bacanas da história do Moore é você NUNCA saber quem é V, e mesmo assim, ter zilhões de possibilidades (incluindo personagens femininas).

Acaba o mistério e junto com isso transformam a oportunidade de mostrar que não importa quem é V (V é uma idéia) através da sutileza da imagem refletida no espelho do sorriso da Evey em uma cena piegas de um monte de gente colocando máscaras, porque vamos lembrar, V não demite a humanidade no filme, ele a convoca!

E também não dá para deixar de citar a questão das demais personagens da história, algumas simplesmente deixadas de lado e outras de papel importantíssimo que são rebaixadas a quase figurantes. Entende? Há toda uma complexidade que foi deixada de lado em nome de uma boa bilheteria.

E isso que são só detalhezinhos, mas que jogam o que poderia ser uma obra-prima num poço de aventura blockbuster para adolescente ver. Aí realmente não admira que, ao ver um adulto lendo uma HQ, pessoas ainda perguntem “Mas você já não passou da idade disso?”.

Outra hora eu falo de Hellblazer, fiquemos com V, por enquanto. E, para quem quer conhecer melhor o Alan Moore, dia desses saiu uma entrevista bem legal dele no G1. Para ler, basta clicar aqui.

6 comentários em “O azar do Moore (parte I)”

  1. Para mim, no momento em que uma adaptação não está totalmente nas mãos do autor da obra original, a adaptação torna-se uma expressão artística do adaptador. E isto de forma nenhuma é ruim por si só.

  2. O problema é que nem todos têm noção disso. Aí tem gente que acha que assistir V é a mesma coisa que ler V – o que não é. São obras distintas, e não só porque a adaptação foi fiel ou não. Na própria adaptação já nasce a distinção.

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