Main Characters (Bobby Palmer)

Quando adolescente eu adorava carnaval, e por causa disso tenho cá meu baú de memórias do tempo em que comemorava a data. E sim, eu sou uma pessoa autocentrada (o exercício de escrever em blog já serve como indicativo), portanto a maior parte das minhas lembranças são sobre mim: eu dançando macarena com a Marilia no ferryboat enquanto o sol nascia, eu e a Nane vestidas de capetinha e máscara da Tiazinha (???) e muitas, muitas Quarta-feiras de Cinzas acompanhando apuração de desfile de escola de samba do Rio de Janeiro (era algo que eu gostava de verdade, sem um pingo de ironia).

Mas tem uma lembrança que vem à mente sempre que penso em carnaval, e não é sobre mim. São duas pessoas que eu só conhecia tangencialmente, porque eram primos, amigos, vizinhos ou seja lá o que for de amigos meus. Eu estava em um baile de carnaval do clube local, tinha subido na galeria do segundo andar que tinha vista para o salão onde acontecia a festa. Dali eu vi um casal que dançava Taí, completamente felizes e apaixonados, criando um mundo próprio dentro de um salão lotado de foliões.

Foi um pouco como aqueles primeiros versos de Debaixo de um Telhado Estranho do Professor Antena:

Ontem à noite
da janela do meu quarto
eu vi um anjo dançando
no meio da rua
Debaixo da garoa fina
o poste de iluminação
se fingindo de lua
pra um casal de namorados
inteiramente molhados e
perfeitos
indestrutíveis
como só os namorados podem ser

E estou resgatando essa lembrança porque acho que é algo que descreve bem o motor do romance Main Characters de Bobby Palmer. A história do casal protagonista é toda contada através do olhar do outro, de quem é coadjuvante na vida deles, às vezes nem isso, meros observadores que passam sem que eles sequer tenham conhecimento da existência da pessoa.

Eu sei que pode soar meio gimmicky, ainda mais quando o marketing está vendendo o livro o comparando com Um Dia de David Nicholls. Mas acho que no caso de Main Characters funciona porque não é só uma ferramenta bonitinha para contar uma história já conhecida, é uma proposta que nos convida a perceber que ao nosso redor o tempo todo muitas outas histórias estão acontecendo. É um pedido para desligar a síndrome de protagonista.

E assim 20 anos da vida de Clara e Seb vão sendo narrados em capítulos que podem ser lidos quase como mini contos. O fotógrafo que percebe o momento em que o casal se conhece. Uma mulher esperando alguém em um café, ouve a conversa do que é claramente um primeiro encontro de um casal, enquanto lembra do tempo em que era jovem e tinha possibilidade de encontros assim. Alguém no ônibus lendo uma troca de textos de outro passageiro. Um catálogo de conversas com a pessoa responsável pela maquiagem e um filme.

O interessante é que o autor consegue se manter dentro do projeto, e que mesmo assim a história flui muito bem. É um quebra-cabeças com algumas peças propositalmente sem encaixe, não há aquela tentativa de descrever tudo nos mínimos detalhes – há espaços em branco, informações que o leitor terá que inferir a partir do que lerá em outros pontos de vista. Eu gostei disso especialmente porque em tempos de apocalipse anunciado, é reconfortante encontrar autor que ainda confia no leitor.

Tem apenas um capítulo que eu torci o nariz porque o autor saiu da ordem cronológica só pelo choque que a informação causaria. É uma decisão que acabou prejudicando um pouco o ritmo da narrativa em alguns capítulos, uma espécie de vai e vem completamente desnecessário (até porque o choque em si nem é tão grande, é algo que já se esperava se considerarmos o conflito principal do casal).

E como em toda história que abraça um período grande de tempo, ela acaba fazendo algumas menções a eventos importantes das últimas décadas, mas é sempre como pano de fundo, talvez uma forma de ajudar a situar o leitor onde é que o casal protagonista se encontra naquele momento: brexit, covid, etc. A verdade é que o tempo não tem destaque e essa é uma história que retirando esses marcadores poderia ser contada em qualquer década.

Acho que fora o capítulo já mencionado da mulher no café, um dos meus favoritos foi o do vizinho que observa a chegada do casal e conta como é que eles foram responsáveis pelo fim do seu relacionamento. É aquilo: para o vizinho, Seb e Clara são coadjuvantes (ou antagonistas) na história em que ele é o ator principal. É um capítulo engraçado e que ao mesmo tempo consegue cobrir muito bem cinco primeiros anos de Seb e Clara vivendo juntos.

E acho que o melhor indicativo de que a proposta do autor funciona, é que fiquei presa ao livro, curiosa para saber onde ele chegaria, mesmo sem ter gostado muito das personagens principais. O olhar do outro permite que o leitor vá além do que seria o julgamento rápido, justamente porque é despido da tentativa de fazer tudo ser sobre eles, como costumamos fazer quando vamos contar nossa história. Não que eles não sejam personagens importantes nas vidas de algumas pessoas, mas elas só são protagonistas da história deles mesmos.

Enfim, valeu a leitura. Dos lidos recentementes foi uma experiência melhor do que Lovesick, por exemplo, que testou um tanto minha paciência (embora não tanto ao ponto de chegar a pensar em largar o livro). É engraçado que eles lidam com temas mais ou menos parecidos (e nos dois casos o marketing cita Sally Rooney), mas não há nada que prenda muito a atenção em Lovesick a não ser descobrir o que é que causou o rompimento entre o casal.

A história é contada sob o ponto de vista de Gabby e Gordon, os capítulos de Gordon partindo de quando eles se conhecem, os de Gabby partindo do período após o fim do relacionamneto. É interessante ver as narrativas finalmente cruzando o ponto em comum, mas assim, não é um livro do qual eu vá me lembrar daqui uns anos.

Os dois livros ainda não tem tradução no Brasil, no caso do Lovesick acho um pouco difícil de acabar ganhando tradução porque é australiano e vá lá, bem maizomeno.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.