Room 237

Room_237Se um dia eu e o Fábio participássemos daqueles programas de auditório em que o casal tem que responder perguntas um sobre o outro, na pergunta “Qual o filme de terror favorito da Anica?” Fábio acertaria com toda certeza, respondendo “O Iluminado“. Sei disso porque dia desses perguntei para ele, e a resposta foi correta, há. Enfim, eu sei que meu favoritismo oscila bastante entre esse e A espinha do diabo, mas no final das contas o longa de Stanley Kubrick sempre sai ganhando pelo fator nostalgia (já que a primeira vez que vi ainda era criança). E se estou falando tudo isso é só para dar a dimensão da minha curiosidade sobre o documentário Room 237, que busca dissecar algumas teorias de conspiração envolvendo a adaptação cinematográfica desta obra de Stephen King.

O filme é montado da seguinte maneira: imagens de O Iluminado e outros filmes (como De Olhos bem Fechados e A Lista de Schindler) formam uma espécie de colcha de retalhos, ilustrando os depoimentos de alguns entrevistados sobre as tais das teorias de conspiração. Algumas delas eu tenho certeza que você já ouviu por aí, como a de que O Iluminado é um jeito de Kubrick falar sobre a participação dele na falsa gravação dos primeiros passos do homem na Lua; ou a de como o filme conta de maneira subliminar o massacre sofrido pelos índios nos Estados Unidos. Confesso que nunca acreditei em nenhuma dessas teorias: vejo O Iluminado como um filme de horror, e se formulei alguma teoria a respeito do filme não foi sobre significados ocultos, mas mais sobre o que diabos o hotel Overlook fez com o Jack. E olha, continuo não acreditando. E aí que eu acho que o que é bacana nesse documentário não é a argumentação dos entrevistados, mas mais alguns detalhes que eles apontam.

Das argumentações, a maior parte do tempo o documentário trabalha com: 1) genocídio dos índios; 2) holocausto; 3) o labirinto do minotauro; 4) revelação da farsa da apollo 11. Entre elas vão aparecendo outras “sub-teorias”, digamos assim, que servem como apoio à teoria principal (coisas como 1) Kubrick estudou e aplicou no filme recursos para deixar mensagens subliminares; 2) erros de continuação que na realidade não são bem erros; 3) intenção do diretor em tirar qualquer possibilidade de orientação de quem vê o filme, etc.). O problema de todas as teorias é que elas parecem forçar a barra e em momento algum conseguem apontar algo realmente conclusivo. Aliás, do jeito que os depoimentos se sucedem, Kubrick poderia ter falado de tudo isso *e* feito um filme de terror e estaria tudo ok. Esse é o problema: uma não elimina outra, e muitas são soam só como uma piração mesmo, por exemplo, o poster com o Minotauro (onde na realidade temos um sujeito esquiando) ou ainda, a sobre o quarto 237, mostrando a imagem da chave na porta:

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Para dizer que o “Room nº” que antecede os números 237 é um jeito de Kubrick dizer Moon (wut?). Ou todo aquele papo sobre o número 7 e sobre o número 42 (Douglas Adams aprova). Enfim, de todas as teorias a única que não pareceu uma total viagem na maionese foi a de que Kubrick propositalmente colocou um fusca vermelho estraçalhado por um caminhão em determinada cena como um modo de dizer para o Stephen King um “Fuck you, é meu filme!”, digamos assim. Vale lembrar que King não é exatamente um fã da adaptação cinematográfica (e inclusive nem foi entrevistado para o documentário).

E se as teorias são forçadas, o que prende a atenção do começo ao fim? Porque é sério: eu não conseguia nem piscar, e algumas coisas ditas ali inclusive me deixaram tensa (como se eu estivesse vendo um filme de suspense, e não um documentário). Bom, como disse antes, são os detalhes que esses entrevistados apontam e que nunca percebi (mesmo tendo assistido ao filme repetidas vezes), que fazem com que O Iluminado fique ainda melhor (ou seja, que o trabalho de Kubrick seja ainda mais genial). Cito como exemplo a cena da cadeira que desaparece:

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Pode ter sido um erro de continuidade? Claro que sim. O diretor era um gênio, mas não dá para dizer que é infalível. Mas se considerarmos a natureza metódica de Kubrick (que inclusive coordenou até as dublagens de O Iluminado) será que coisas assim acabariam passando sem que tivesse alguma intenção por trás disso? Não entenda mal: não que eu ache que a intenção seja de falar sobre o holocausto ou seja lá qual teoria essa cena tente comprovar. É só que Kubrick opta por revelar a atmosfera sobrenatural do Overlook também de forma sutil. Poderia ser uma cena como a das cadeiras em Poltergeist (e eu morro de medo dessa cena ¬¬), mas é algo sendo trabalhado no fundo, não tão óbvia.

Gostei também da sacada de que O Iluminado é um filme para ver do jeito normal e ao contrário. A pessoa que fala dessa teoria conseguiu sobrepor as imagens do filme em flashforward e em flashback – algumas das cenas que aparecem desse jeito são bem perturbadoras e, o pior: parecem realmente se conectar de alguma maneira, mesmo que às vezes seja pela ironia (Jack todo calmo na entrevista de emprego junto com a cena de Jack alucinado correndo atrás do filho para o matar, por exemplo). Para ter uma ideia do que estou falando, vai aqui uma cena do documentário sobre isso:

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E é por causa dessas sacadas (e de outras, como o sujeito que diz que a desculpa que Kubrick deu para ter mudado o número do quarto do livro – 217 – para 237 era esfarrapada) que o documentário é tão legal. Se você for considerar pelas teorias em si talvez fique no mediano, porque as teorias são fracas. Mas o olhar que estes entrevistados trazem para algo que você pensava já conhecer é realmente muito interessante e faz valer cada minuto. Ah, sim, e se você já assistiu, neste link tem mais algumas teorias que não estão em Room 237. E para quem ainda não viu, eu até ia colocar o trailer, mas ele tá tão bobo que acho melhor deixar o link para uma matéria da Gazeta sobre o documentário.

5 comentários em “Room 237”

      1. Pois é… tb não achei um release bacana. Vamos ver se a curiosidade vence. Li uma crítica que fala que é meio pisada na bola o documentário só apresentar as teorias, sem verificar a validade de cada uma. A da Apollo 11, por exemplo, acho uma viagem. Mas a do índio na embalagem de fermento acho que super faz sentido.

        1. O problema é que nenhuma delas é conclusiva o suficiente, entende? Ok, tem alguns temas indígenas em roupas e no cenário, mas isso já basta para a metáfora? Quem é o colono e quem é o índio na história? Porque se o Jack representa o colono, ele não consegue matar o filho e a esposa (que, por sua vez, representariam o povo indígena), então não há um “genocídio” representado ali. Enfim, é nisso que eu vejo problemas nessas teorias, elas nunca parecem levar em consideração a história em si, mas “mensagens dentro da história”. Aí fica muito vago mesmo, dá para colocar qualquer coisa. =/

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