A trama do casamento (Jeffrey Eugenides)

Não vou mentir e dizer que amei A trama do casamento (de Jeffrey Eugenides) logo de início. Nas primeiras páginas fiquei com certo receio de que tinha em mãos um livro que focaria em uma protagonista tão vazia que precisava se completar com uma figura masculina, daí sua incansável busca pelo par. Madeleine Hanna surge como uma personagem cujo eixo central dos eventos da sua vida são os homens com que se relacionou, se relaciona ou possivelmente se relacionará. E é evidente que esse tipo de figura cria uma certa antipatia inicial (especialmente se o leitor, como eu, buscava algo mais como As Virgens Suicidas, e não mais um romance juvenil no estilo de “quem vai ficar com quem”).  Mas a realidade é que acredito ser um daqueles casos em que valeu a pena continuar a leitura, mesmo tendo começado com o pé esquerdo: aos poucos Eugenides vai te seduzindo, mostrando que Madeleine não é só aquilo, assim como A trama de casamento não é só sobre a escolha da garota entre Leonard e Mitchell, seus dois “pretendentes”.

Não é que realmente a base do enredo não seja a relação de Madeleine com os dois rapazes. De fato, temos desde o início a narrativa centrada nas dificuldades de seu romance com Leonard (que aparecera em sua vida como o cara perfeito que ela nem conseguia acreditar que começara a namorar) e da possibilidade de algo acontecer com Mitchell (o rapaz que a conhecia desde o primeiro ano na faculdade e que obviamente fora colocado na friend zone e não parecia ter muitas perspectivas de sair dali). A questão é que o escritor usa as relações entre as três personagens para ir além, falando não só sobre o amor, mas sobre solidão, sobre crescer, tornar-se adulto, sobre até mesmo a própria literatura. A leitura do romance de Eugenides é como se encontrássemos um objeto coberto de pó e aos poucos, enquanto fôssemos limpando, descobríssemos toda sua real beleza.

Tomando a própria protagonista, Madeleine, como exemplo. Ela é de fato uma filhinha de papai mimada, que parece ter em mente um modelo de cinema para felicidade: o da mocinha nos braços do amado, sobe o letreiro, fim. Ela tem sua paixão pelos livros, que não só a conduz para o curso de Letras do qual aparece se graduando no começo da história, como também cria uma primeira simpatia com o leitor (pelo menos aquele que é um leitor mais voraz, e especialmente aquele que, como ela, resolveu cursar Letras). “Ela tinha escolhido se formar em letras pela mais pura e mais boba das razões: porque adorava ler”, conta o narrador. Mas o que parece ser o grande motor de seus atos são sempre os homens que ela (aparentemente) ama. Porém, ao longo de A trama do casamento você começa a conhecê-la melhor, ver seu desenvolvimento, ver como Madeleine não é diferente de muitas mulheres em sua idade, que mais do que um par, querem na realidade encontrar a si mesmas. Há um momento em que fica nítido que apesar de nos apresentar uma personagem difícil de gostar, Eugenides consegue o que parecia impossível: faz com que o leitor se importe de fato com Madeleine. Chega a dar uma alegria ver a garota se encontrando finalmente, dizendo para o pai “Eu sei o que quero ser”.

Além disso, há o caso de Leonard, extremamente complexo principalmente por conta de sua condição (ele é um maníaco-depressivo). Do trio principal ele é de longe o mais fácil de se gostar – é imediato. Há um diálogo que ele trava com Madeleine logo no início que mostra bem o motivo pelo qual Leonard é tão encantador. É um gênio, e daqueles com senso de humor:

“O meu objetivo na vida é virar adjetivo.”, Leonard falou. “As pessoas iam ficar dizendo: ‘Aquilo foi tão bankheadiano.’ Ou ‘meio bankheadiano demais pro meu gosto’.”

“Bankheadiano soa bem”, Madeleine completou.

“É melhor do que bankheadesco.”

“Ou bankheadélico.”

Élico não tem salvação. Tem joyciano, shakespeariano, faulkneriano. Mas quem é élico? Tem alguém que seja élico?

(…)

“Não esqueça do tolstoianismo.”, Madeleine disse.

“Meu Deus!”, Leonard exclamou. “Substantivo! Eu nunca sonhei em ser um substantivo!”

“Bankheadiano ia significar o quê?”

Leonard pensou um segundo. “‘Relativo ou característico de Leonard Bankhead (Estados Unidos, 1959), caracterizado por introspecção ou preocupação excessivas. Sombrio, depressivo. Ver maluco.”

No caso desta personagem, Eugenides usa um recurso parecido com o que lançou mão em As Virgens Suicidas. Somos apresentados a Leonard sob o olhar da pessoa apaixonada. Aqui a diferença é no narrador, em terceira pessoa, ao contrário da voz do rapaz obcecado pelas irmãs Lisbon do romance anterior. Mas mesmo assim, são os olhos de Madeleine que descrevem Leonard, e que nos fazem compreender o motivo pelo qual a garota aceita as dificuldades que encontra para tentar manter o namoro vivo. E é por isso que seu último momento com Madeleine no livro é tão belo, tão tocante.

No caso de Mitchell ele também aparece como uma personagem extremamente simpática, mas ele parece tão separado, tão longe de Madeleine durante a maior parte da narrativa que os trechos em que o narrador conta das aventuras dele viajando após a graduação parecem um pouco desnecessários em um primeiro momento, mas aos poucos vai ficando claro o papel da história dele em A trama do casamento, não é apenas fazer uma contraposição a Leonard, mas de mostrar para Madeleine o óbvio, de que ela não precisa estar com alguém para ser feliz.

O que chama a atenção no estilo de escrita de Eugenides é como ele lida com o tempo no romance. A história começa no dia da formatura de Madeleine, então retrocede, depois avança e assim segue. São saltos temporais marcados principalmente por uma mudança entre qual personagem é focado pelo narrador. Há uma mescla entre os encontros e desencontros de Madeleine e Mitchell, ora o narrador se concentra nela, ora nele. Um evento descrito sob a visão de Mitchell depois aparecerá sob a visão de Madeleine, e assim segue. Há um breve momento em que o foco é Leonard, mas o interessante é que é aí que toda a trama se apresenta de forma coesa, e muito bonita. Os dois capítulos finais causam um turbilhão de sentimentos em quem está lendo, e não dá vontade de abandonar o livro, ou ainda, abandonar aquelas personagens.

Há ainda um outro aspecto extremamente positivo no romance que são citações de outros livros. É óbvio que trata-se de um terreno perigoso, porque na dose errada as citações poderiam funcionar contra a narrativa de Eugenides: em teoria é extremamente fácil se apoderar das ideias dos outros, não? Mas o escritor não joga os trechos de modo solto e relaxado no romance, como que para enfeitar sua prosa, criando uma espécie de Frankenstein literário. Ele encaixa as passagens como se elas tivessem sido criadas especialmente para o livro (eu, por exemplo, estou morrendo de vontade de ler Fragmentos de Um Discurso Amoroso, do Barthes). É algo que só um apaixonado pela literatura poderia fazer, e nisso vejo um pouco de Madeleine como uma homenagem a esta paixão.

Não sei bem se a escolha por situar a história no começo dos anos 80 tem algum propósito além de colocar as personagens em um período específico, mas confesso que foi engraçado identificar a época em que a história se passava antes de começarem as menções aos anos de fato. Dicas como as músicas que eles ouviam, ou mesmo as roupas (a mãe de Madeleine invocando com as ombreiras logo no começo, por exemplo). Assim, para quem viveu nos anos 80, o livro acaba ganhando alguns pontos extras pelo fator nostalgia.

A trama do casamento não é um romance fácil, principalmente porque Eugenides parece partir do óbvio mas na realidade está nos enganando desde o princípio: nada é tão óbvio assim. É uma história densa e bela, que mexe tanto com o leitor que tem aquele forte potencial de livro inesquecível.

(Post originalmente publicado no Meia Palavra em 17/07/2012)

Um comentário em “A trama do casamento (Jeffrey Eugenides)”

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