Haunted (Chuck Palahniuk)

hauntedchuckMuitas pessoas conhecem a história de como Frankenstein foi escrito: quando tinha ainda dezenove anos, Mary Shelley passou um período em Genebra junto com Percy Shelley, John Polidori e Lord Byron. Reza a lenda que foi proposto um desafio sobre quem escreveria a história mais assustadora, e que Shelley vencera. Se isso é verdade ou não, não há como confirmar, mas é certo que foi de um sonho que teve enquanto dormia na chamada Villa Diodati que surgiu um dos monstros mais famosos da literatura. E é tendo esse encontro de escritores em mente que em Haunted, de Chuck Palahniuk, a personagem Mr. Whittier cria uma espécie de retiro de escritores, convidando outras 18 pessoas para “abandonarem suas vidas por três meses”, de modo a finalmente estarem aptos a escrever uma grande obra.

Esta reunião é a moldura de Haunted. Seguindo o exemplo de outras obras com estrutura similar (como Os contos da Cantuária e Decamerão), o livro de Palahniuk é o que chamam de narrativa de moldura (ou frame story em inglês), onde temos uma (ou mais) histórias inseridas dentro de uma história. Aqui, Whittier reúne em um teatro abandonado o grupo de pessoas, tranca as portas, e pede para que cada um conte sobre suas vidas, afirmando que só deixarão o lugar quando escreverem suas obras primas ou quando passarem os três meses propostos inicialmente (o que vier antes). A história de cada personagem, que em sua maioria poderiam ser lidos como contos independentes do romance, é precedida de um poema de versos livres que de certa forma apresenta a pessoa que prestará o depoimento.

Essas poesias na minha opinião são o único momento fraco de todo o livro, que eu provavelmente teria deixado de lado. Enquanto lia os versos pensava muito naquela cena de Chicago com o John C. Reilly cantando Mr. Cellophane, até pelo modo como as personagens são chamadas (fora Whittier e Clark, todas por apelidos, sendo que os nomes reais de alguns só são revelados dentro dos contos) ou mesmo a situação em que as personagens se encontram (em um ponto mais avançado da narrativa elas passam a usar fantasias que encontram nos bastidores).  E alguns são até interessantes e já preparam o leitor para o que virá (e aí a necessidade deles) mas outros pareciam só estar ali para manter o padrão, tanto é que os contos extras de Mrs. Clark chegam sem apresentação e funcionam muito bem.

Sobre os contos, em sua maioria eles têm aquele jeito Palahniuk de dar um soco na boca do estômago do leitor, já que a maioria dos depoimentos são uma espécie de confissão sobre o que foi deixado para trás quando as portas do teatro foram trancadas. Há um momento em que uma personagem pergunta para outra “E você? Quem você matou para estar aqui?”, como se o retiro não fosse mais um lugar em busca de criação, mas de expiação de culpa. Não vou dizer que todos os contos são excelentes, mas é certo que ficam todos acima da média. E você tem que admirar a coragem de Palahniuk de abrir o livro com Guts, sendo que poderia ter utilizado algum outro depoimento mais “leve”. Logo para minha teoria de porque Guts abre a sequência de histórias, calma aí.

Gostei como as quatro histórias da Mrs. Clark de certa forma criam ainda uma outra moldura, até por isso falei que a maior parte (e não todos) dos contos poderia ser lida de forma independente, já que os da Mrs. Clark de certa forma se ligam à trama. Porém, os outros são completamente diferentes entre si, e fora o fato de se apresentarem como o motivo pelo qual eles estão lá, não têm conexão com a moldura. De todos os contos os meus favoritos foram Swan Song, Ritual e Something’s Got Give e os mais WUUUUUT???? foram Guts (obviamente), Dog Years e Product Placement. Alguns são bem pesados (de dar um nó na garganta mesmo) como Exodus e Speaking Bitterness, outros são mais leves porém não necessariamente “felizes” como os dois últimos, Evil Spirits e Obsolete. Aliás, o último tem pinta de ficção científica, achei muito bem sacado.

Assim, acredito que se Haunted fosse o conjunto de poemas e contos já seria um livro acima da média (e com uma coleção de momentos “WTF!!” igualmente acima da média). Mas a moldura, que poderia ser só isso, começa a ganhar força a medida que o tempo vai passando. O narrador da moldura em determinado momento fala de uma das personagens “The ghost of Miss Sneezy, sacrificied to juice the plot“. É um dos primeiros indicativos de que rumo a história vai tomar. Obcecados com a ideia de fama fácil, todos os confinados começam a criar o que seria o drama vivido por eles, de como confinados por um malvado Mr. Whittier sobreviveram sem comida, sem aquecimento, sem condições mínimas de higiene.

É impressionante a crítica que Palahniuk faz a já comum cultura das subcelebridades, de como o desejo de ter uma boa história para contar acaba falando mais alto do que a arte em si. “As human beings, our first commandment is: something needs to happen” e assim eles começam a criar situações em que ALGO ACONTEÇA. Estragando os mantimentos que teriam para os três meses, o aquecedor de água, o vaso sanitário e assim chegar em um ponto em que, assim que alguém os encontrassem no teatro, eles seriam grandes sobreviventes merecedores de amor e atenção do público, e não mais os zé-ninguém com histórias horríveis que eram quando entraram lá. Como diz o narrador, “a story to save us from all the stories of our past“.

Para não correr o risco de estragar a história e revelar muitos detalhes, vamos colocar assim: em determinado momento os confinados passam a cortar os próprios dedos para alegarem que eram a única opção que tinham para continuarem a comer, e isso NÃO É o pior que acontece em Haunted. A partir de um determinado momento as personagens se entregam à ideia de construírem suas histórias de tal forma que uma personagem pergunta para as demais se pode ser “o que se apaixonará”. Falam de plot twist, de antagonismo, de subplot. Sim, meus caros, metalinguagem. Mas metalinguagem com um tapa na cara, digamos assim. E não são nem duas semanas no teatro até eles começarem a fazer isso, não leva muito tempo para que comecem a agir sozinhos e depois abertamente, como que encenando (ahá, o teatro como espaço!) cada um dos seus movimentos – chegam até a tirar no palitinho quem é que vai ter que chorar por conta de um evento, ou a falar para não complicar demais a trama caso contrário a massa não conseguirá acompanhá-la. Há algo aqui que lembrou um capítulo de Prelúdios e Noturnos de Sandman, chamado 24 Horas. Com a diferença que em Sandman os confinados fazem aquilo sob a influência de John Dee, e não porque querem. Caso não conheça a história, ela está disponível aqui.

Entra aí a questão da busca pelo vilão, uma questão bastante interessante que o autor levanta. De como independente do que façamos com nossas vidas, precisamos sempre culpar uma outra pessoa pelo que nos acontece de ruim. E precisamos que algo ruim aconteça, como se a presença de um antagonista nos tornasse mais fortes, ou que pelo menos justifiquem nossas más ações. Pense na busca de Bin Laden, ou no Macartismo. Não vá muito longe e pense no que a ditadura fazia com os “comunistas” no Brasil. Chegamos em tal momento em que estamos (nas palavras de uma personagem) viciados em conflitos. Não sabemos como levar uma vida sem um confronto, não sabemos o que é final feliz se não for a morte.

E assim a ideia da camêra atrás da câmera atrás da câmera vai se repetindo ao longo da história, de modo que Palahniuk nos coloca no meio disso, o narrador está ciente de que tem uma plateia. E é aí que entra minha teoria sobre a razão pela qual Guts é a primeira história (e aqui seguem alguns spoilers, então acho uma boa você pular o parágrafo caso ainda não tenha lido o livro): eu acho que o narrador é o Saint Gut-FreeA narrativa toda é na segunda pessoa do plural (nós fizemos, nós decidimos, nenhum de nós perguntou, etc.) e desse modo Saint Gut-Free acaba sendo tratado sempre pela terceira pessoa do singular (ele fez, ele falou, etc.). Mas considerando o desfecho, a sensação que fica é que ele é um dos confinados que está recitando o que chamam “A mitologia de nós”. Nós, até onde consegui ver bem, acabou sendo só ele e Mother Nature, exatamente os dois primeiros a contarem suas histórias (e que, se for pensar bem, são um dos poucos a não prejudicar/matar ninguém antes de ir para o retiro). Saint Gut-Free tem a horrível história da masturbação que deu muito errado, Mother Nature de certo modo se torna uma prostituta – mas não matam ninguém (Mother Nature é só testemunha de um assassinato, até onde consigo lembrar). A possibilidade de o narrador ser uma personagem que não conta uma história (como se a Moldura fosse a sua história, no final das contas) me parece meio vaga, até porque como a personagem teria passado tanto tempo sem se relacionar com as demais (de modo que as outras falassem com ele e soubéssemos, no mínimo, seu apelido?).

Enfim, divagações, mas é o tipo de coisa que fez a leitura de Haunted valer ainda mais. Pode não ser exatamente um livro fácil (e aqui não falo por técnicas narrativas ou vocabulário, mas pelo conteúdo mesmo), mas até pela coragem de dizer o que ninguém quer dizer (como comentou o Tuca enquanto conversávamos sobre o livro) já trata-se de uma ótima experiência. É um convite para pensarmos um pouco mais sobre nossa real história, e não a que tentamos criar para contar para os outros. E também um lembrete de que todos nós somos assombrados por nossos passados. E claro, o autor ganha pontos extras por não só contar uma boa história, mas por escrevê-la como o que costumo definir “um artesão”, o que requer um domínio das técnicas de escrita que poucos costumam ter.

Para quem se interessar, o livro saiu por aqui pela Rocco (má notícia, eu sei) com o título Assombro. Meu palpite é que no momento já deve estar esgotado, já que o ano de publicação no Brasil foi 2007. Para os colecionadores apaixonados pelos detalhes, lá fora saiu uma edição com uma capa que brilha no escuro. Ah, e o sobrenome dele se pronuncia “Paula Nick”. E só para finalizar: o twitter dele está aprovado, ele é um autor bem bacana de se seguir.

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