As personagens que somos

Não sei se você conhece o tumblr “Eu te dedico“. A ideia é de colocar uma imagem de uma dedicatória em um livro, e contar a história dessa dedicatória. Hoje cedo dei de cara com uma imagem de Apanhador no Campo de Centeio, com o seguinte texto:

Se alguém me perguntasse hoje
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qual o livro mais legal que eu já li,
eu com certeza diria ser este.
Porque há uma pérola nele, uma
metáfora forte, pura e bela, o
apanhador que protege a inocência,
impedindo-a de despencar no abismo.

E também tem a Phoebe.
Você é a minha Phoebe.

(…)

Ela conta: Meu namorado me presenteou, creio não só por ser um bom livro, mas também por ele ter se identificado muito com o personagem principal; ciente do meu amor, não teve dúvidas de que eu gostaria. Ao primeiro parágrafo lido, o identifico como Holden. Espero que com o decorrer da leitura consiga me encontrar na sua Phoebe.

A dedicatória é linda, senti inveja automática pela garota, confesso. Porém, o texto fez com que eu lembrasse de um assunto que tenho pensado já há algum tempo, o de como relacionamos nós mesmos e certas pessoas a determinados personagens de livros que lemos. É um negócio interessante, porque essa construção de imagem varia muito de pessoa para pessoa, e na maior parte das vezes o que você enxerga em alguém nada tem a ver com a imagem que a pessoa faz dela mesma. Em uma das leituras de tarot que eu fazia, lembro que existia um trio de cartas que representava, respectivamente, como a pessoa se via, como as outras pessoas a viam e como ela realmente era. Como se todos nós fôssemos desdobramentos de três histórias diferentes, três personagens que circulam juntos por aí.

A garota dizendo “espero que com o decorrer da leitura consiga me encontrar na sua Phoebe” reproduz o sentimento de várias outras pessoas que, ao aceitou a sugestão de leitura de alguém que além de recomendar a obra ainda acrescentou “Nossa, presta atenção naquele personagem! Lembrei muito de você quando li!”. Lembrou? Lembrou por quê? É criada então a oportunidade de se ver pelos olhos do outro, talvez reconhecer alguma característica para a qual você era completamente cego até então.

Sim, é uma egotrip, sempre uma egotrip.

Mas aí entramos no velho problema da interpretação, de como cada livro é uma obra diferente para cada pessoa. Diferente mesmo. Conheço pessoas que acham o Holden insuportável, e veriam o comentário da garota sobre ter identificado o namorado com ele como um belo de um xingamento. Eu mesma gostaria muito mais de ser uma Jane do que uma Phoebe para um cara, por motivos óbvios. Isso para não falar que às vezes essa busca por “o que ele vê em mim” acaba esculhambando completamente a leitura (já que voltamos nossa atenção apenas para isso). Já aconteceu comigo diversas vezes, de dizerem que tal personagem era muito parecido comigo e eu apenas pensar “Que foi que eu te fiz para você me odiar tanto?”.

Aí depende da pessoa ter um certo jogo de cintura e saber que para quem é apaixonado por livros, essa coisa de personagem é serious business. Quer um exemplo de como fugir do assunto? Segue uma conversa que tive por email com o Fábio hoje, assim que comecei a escrever o post.

Anica: que personagem de livro faz vc lembrar de mim?

Fábio: e o que é esse pergunta? <<<< tentando ganhar tempo o safado

Anica: só perguntando, ué

Fábio: pq? <<< consigo enxergá-lo pensando “Certo, quais os livros favoritos dela mesmo?”

Anica: pq estou escrevendo um post sobre isso ><‘

Fábio: eu tenho problema com essas perguntas à queima roupa ><

Anica: é porque você não sabe a resposta ><‘

Fábio: eu nunca *pensei* nisso ;P

Anica: você está comigo há quase 10 anos e nunca pensou nisso?!

Fábio: em qual personagem você seria em um livro? não, não pensei exatamente nisso 😛 << mais uma tentativa de ganhar tempo

Anica: nãããão! dos livros que você leu, que personagem fez você lembrar de mim

Fábio: preciso pensar, afinal eu leio mais de 40 por ano :/

Poisé.  Me enrolou, mudou de assunto e ainda não me respondeu. Só deixo passar porque vez ou outra ele diz coisas bonitinhas como “Sempre que estou lendo um livro penso se você também vai gostar”. Aliás, alguém tem que avisar para o pessoal que já leu aquele texto “Date a girl who reads” que ó, nós não somos bolinho, não. E antes que eu me esqueça: Rob Fleming. Sempre Rob Fleming.

7 comentários em “As personagens que somos”

  1. Demais 😀

    De vez enquanto quando leio tenho algum insight desses, de “essa cara parece com alguém conhecido”, só que é tão momentâneo que acabo esquecendo quem parecia com quem – e, claro, nem comento com a pessoa.

    Vou ficar de olho agora quando disserem que algum personagem lembra eu xD

    1. Para mim é assim também, normalmente acabo esquecendo. Até porque às vezes eu lembro da pessoa mais por alguma ação específica da personagem, mas não como um todo. Fica quase como um “Ah, sim, fulano com certeza diria algo assim!”

  2. Oi Anica 😉
    Nossa guria, esse post me faz lembrar um amigo que faz exatamente isso: ao ler um livro ou ver um filme fica identificando as pessoas que conhece… e não raro, compra o livro, destaca as partes que “relembra a pessoa” e presenteia 🙂 Acho isso uma graça e de uma dedicação enorme rsrs

    Bjocas guria

    1. Eu tenho uma amiga que relacionava as pessoas com trechos de músicas, era muito divertido. Porque ela falava assim “Ah, você está querendo dizer a “Fulana-você-tem-que-ter-jogo-de-cintura?” << imitando a voz da Elba Ramalho. O legal de pessoas assim é que você percebe que elas estão bem atentas para o outro, e não só para si.^^ Beijo!

  3. Que post legal XD

    Eu tive uma paixão constante que, pra falar a verdade, eu sempre idealizei um pouco. E nós dois gostávamos bastante de Harry Potter, então, de acordo com o meu personagem favorito do momento (e os meus personagens favoritos de Harry Potter viviam mudando), eu a relacionava com alguém diferente. Relacionei com a Hermione (tão inteligente e leal), com o Dumbledore (tão genial) e com o próprio Harry (uma pessoa tão boa). E essa pessoa falou que, quando leu Dom Casmurro, pensou em mim quando o narrador apresenta o Escobar.

  4. Meu namorado, a quem me foi dedicado o livro, me enviou essa postagem hoje… mais de 3 anos depois de toda história. À primeira vista me senti insultada, confesso. Mas relendo seu texto entendi melhor onde estava querendo chegar.

    O problema da análise é que ela é superficial. É realmente difícil chegar a algum lugar com meia dúzia de frases em uma dedicatória. A dedicatória não relaciona a personalidade dos personagens do livro com as pessoas reais, mas sim a relação entre eles. Eu não tenho nada de Phoebe e meu namorado tem pouquíssimo de Holden, o ponto em comum é o sentimento entre os dois, a confiança quase exclusiva que Holden deposita em Phoebe. Usando as palavras do meu Holden: Phoebe é a única que ele ama, respeita e se importa no livro. E nesse sentido, eu fui e sou a Phoebe dele na vida real.

    Parabéns pelo blog e perdão pelo atraso.

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