Desonra (J.M. Coetzee)

Quando um autor é sugerido por mais de uma pessoa, é natural que o leitor crie alta expectativas sobre sua obra. É um misto de curiosidade, tentando entender a razão pela qual ele agradou tanta gente, com um pouco de dúvida, se para você o livro também será especial. Foi dentro desse contexto que finalmente pude ler Desonra, do sul-africano J.M. Coetzee. Inicialmente achava que seria algo no estilo da narrativa que conquistasse tantos elogios, mas logo pude perceber que não era esse o ponto alto do trabalho do escritor em questão.

Se em muitos casos o que salta aos olhos é o modo como se narra uma história, aqui o importante é de fato a história. Não que a escrita de Coetzee não seja digna de nota, pelo contrário: ele consegue fazer uma prosa que flui muito bem, sem qualquer excesso que venha a causar enfado ao leitor. A tensão vai sendo construída aos poucos, de modo que chega um momento em que não se quer largar o livro. Mas mesmo assim, a força de Desonra está nos diálogos e no desenvolvimento da trama e das personagens.

De início somos apresentados ao professor David Lurie, que aparentemente leva uma vida medíocre em todos os sentidos. Após se envolver com uma aluna, é forçado a deixar o emprego. Mal visto em sua cidade por conta dessa “desonra”, decide passar um tempo com a filha (Lucy), que mora em uma fazenda criando cães. É aí que chega o evento mais importante do livro, quando ambos são atacados violentamente por três homens da região.

Esse ataque poderia até conduzir o leitor a achar que trata-se principalmente de um livro com crítica sobre o pós-apartheid, mas não seria justo com a obra reduzi-la a um mero panfleto político. O que move a narrativa é mais do que a visão óbvia do débito histórico, da raiva que se desenvolveu aos longos dos anos entre negros e brancos daquela região. A ideia sutil do que nos faz humanos, do que nos faz selvagens, está sempre ali em Desonra, em cada ato ou reflexões das personagens.

A principal dica sobre esse tema por incrível que pareça não está no ato bárbaro realizado pelos três homens que violentam a filha de Lurie, mas na constante presença dos cachorros na história. Sejam os do canil de Lucy, sejam os que são sacrificados na clínica local, com eles temos a volta do tema do que significa ter uma alma (e se é isso que os torna diferente dos humanos). É interessante que a alma aqui tem uma relação com sentimento, e ao contrário do lugar-comum em discussões sobre o assunto, não é a razão que nos difere, mas como agimos de acordo com o que sentimos.

Algumas passagens chegam a despertar sensações como agonia e raiva – e qualquer escritor que consiga fazer com que o leitor sinta emoções fortes pela história que está contando merece elogios. Há a curiosidade por querer saber o que Lurie não quis, ou ainda a vontade de fazer algo quando a filha de Lurie, Lucy, não quis fazer. Há realmente uma interação com o texto, que requer um pouco mais de quem o lê.

Não apenas isso, mas também é o tipo de obra que exige reflexão. Embora Desonra seja tão bom que a vontade é devorá-lo em um dia, ele precisa ser lido aos poucos, para saborear o que Coetzee sugere, especialmente na fala de Lurie (que em dado momento se repreende por estar “palestrando” e o primeiro pensamento é “Ei, não tem problema, pode continuar!”).

Um livro excelente, que acabou respondendo todas minhas expectativas. É bom quando um autor não é recomendado por ter obra obtusa ou “difícil”, mas simplesmente porque sabe nos envolver e conduzir através de uma galeria de ideias, colocadas de uma forma ao mesmo tempo tão simples e tão bonita que a única coisa que você pode perguntar após terminar Desonra é: por que não li este livro antes?

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