And there is Death.

Depois que você perde uma pessoa muito próxima, a tendência é que fique com medo de perder outras, não? Bem, no meu caso não foi assim, e acredito que tenha a ver com o fato de ter acontecido muito cedo. Morte não era bem o assunto que passava pela minha cabeça, pelo menos não a morte de pessoas da minha vida.

E então o Puck morreu no ano passado.

E sim, eu sei que ele não é uma pessoa, mas esteve comigo durante nove anos. Além disso, eu gostava muito dele (aquela história de Teresa e Karenin que só quem leu A Insustentável Leveza do Ser pode entender) e acompanhei todo o processo, desde que começou a ficar desanimado até quando não conseguia mais comer. E sério, foi doído paca.

Aí depois disso, veio aquela história da Pati, que morreu em um acidente de carro no ano passado e só fiquei sabendo quase um ano depois. A sensação da pessoa que antes era tão próxima e de que não há mais a possibilidade de uma reaproximação doeu também. Somando tudo, o fato é que de lá para cá, criei uma verdadeira fobia de alguma pessoa querida morrer. Fico relembrando histórias como da vez que fui ao funeral do pai de uma amiga, ou de quando meu vô morreu e penso na falta que determinadas pessoas farão na minha vida.

Na verdade o que não para de martelar na minha cabeça é que é tudo tão efêmero que eu não posso ficar perdendo tempo, que eu tenho que cuidar das pessoas que cuidam de mim. Gee, fico aqui dando voltas quando o Renato já definiu muito bem:

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
porque se você parar pra pensar na verdade não há.

(E sim, sei que ‘Pais & Filhos’ é uma música sobre suicídio, mas vamos aproveitar o caráter self-service das músicas da Legião e encaixar a coisa nesse contexto).

Preciso voltar a visitar minha psicóloga.

Editado: Conversei com o Fábio hoje sobre isso, e enquanto falava com ele lembrei de um texto do Betinho que li certa vez que, apesar de falar sobre a AIDS, acredito que carrega uma mensagem que abrange toda essa questão de como lidamos com a Morte. A conclusão:

Viver sob o signo da morte não é viver. Se a morte é inelutável, o importante é saber viver, e para isso é importante reduzir o vírus da AIDS à sua real dimensão: um desafio a ser vencido. É fundamental, portanto, reafirmar que esse vírus não é mortal. Mortais somos todos nós. Isso sim é o inelutável e faz parte da vida.

Para ler todo o texto, clica aqui.

8 comentários em “And there is Death.”

  1. A morte não me dá medo. Depois de perder meu pai aos 8 anos, eu tinha um pouco de medo sim, mas hoje, depois de tudo que eu passei, eu perdi esse medo. Fiquei um pouco frio com tudo isso, mas acabei encarando que as coisas nascem, crescem e morrem num sentido natural. É assim, vai ser assim. Além disso, tem mais isso aqui também:

    “O mundo inteiro teme a própria vida. A morte é coisa que não é nossa. Mas a vida, a vida é, e eu morro de medo de respirar.” (Clarice Linspector)

  2. Poisé, eu pensava exatamente como você. Não sei exatamente se foi um certo sentimento de culpa (no caso do Puck, eu poderia ter ficado mais tempo com ele e no caso da Pati, eu poderia ter procurado ela anos antes), mas o fato é que quando eu me achava completamente bem resolvida sobre o assunto, pãns.

  3. Renato Russo deveria ter sido escritor. Letras boas. Mas a música era uma bosta.

    Pensar na morte é o que a maioria das pessoas não querem fazer. Apesar de viverem vidas-lixo sem nenhum propósito, é surpreendente como a macacada humana deseja sempre mudar de assunto. Mas, emfim, chega de falar disso.

  4. é engraçado como a idéia da nossa própria morte pode ser reconfortante, já que é a única coisa certa nesse mundo nonsense, mas a idéia da morte dos outros é aterradora. o ruim de quando alguém morre é aquele buraco na rotina, na vidinha de todo dia que nunca se fecha… as coisas nunca mais serão as mesmas.

    divido esse medo com você. morro de medo que meu gato morra 🙄 só por lembrar de todas as pessoas e “não pessoas” importantes que se foram, e acabaram mudando a minha vida geralmente não pra melhor. acho que esse é um medo que carregamos até o final.

  5. fê on 4 Janeiro, 2006 at 4:18 pm said:

    é engraçado como a idéia da nossa própria morte pode ser reconfortante, já que é a única coisa certa nesse mundo nonsense, mas a idéia da morte dos outros é aterradora. o ruim de quando alguém morre é aquele buraco na rotina, na vidinha de todo dia que nunca se fecha… as coisas nunca mais serão as mesmas.

    divido esse medo com você. morro de medo que meu gato morra 🙄 só por lembrar de todas as pessoas e “não pessoas” importantes que se foram, e acabaram mudando a minha vida geralmente não pra melhor. acho que esse é um medo que carregamos até o final.

    Na verdade demora para o buraco ser preenchido, mas preenchido é. No caso do meu pai, por exemplo, eu passei meses pensando que num dia qualquer ele voltaria do hospital. Aí “caiu a ficha” e eu senti o vazio. Mas já era tarde demais, minha vida já estava colocada nos eixos de novo, já era uma vida “sem o Renato”, entende?

    Mas aí veio esses casos que a ficha caiu na hora, e o buraco continua ali. Fica realmente difícil levar desse jeito =/

Deixe uma resposta para Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *