Nós, os fetichistas.

Breve relatos sobre o fetiche na vida de amantes dos Livros:

1. Carla*, jovem com problema de visão acaba sendo proibida de ler. Tem no quarto uma prateleira com alguns livros, os quais a mãe sempre conferia para saber se ela não estava burlando as ordens médicas às escondidas. O que a mãe não sabia, é que ela tinha criado um sistema: dez livros novos eram comprados, os outros dez antigos substituídos. E com isso Carla conseguiu acumular mais de três mil livros.

2. Pedro*, sujeito que após vencer concurso de Literatura, comprou um apartamento novo com uma única finalidade: guardar seus livros. Obcecado, tem todas as edições possíveis dos livros mais “importantes”. Na verdade, costuma ter mais de um exemplar de cada edição.

Eu sei que esse tipo de coisa soa bizarra para quem não tem paixão por livros, mas é algo bastante comum entre os mais viciados por Literatura. Ter os livros em alguns momentos é mais importante do que ler. Disso saem coleções enormes com 5 “O Retrato de Dorian Gray” (traduções diferentes!), 2 “Cyrano de Bergerac”, 3 “Cândidos” e aí vai.

Em um encontro de fetichistas (facilmente encontrados pelos corredores do curso de Letras, por exemplo), você escuta coisas como “Eu tinha um livro com dedicatória do Umberto Eco e nunca mais devolveram para mim” ou ainda “Eu não empresto livro de jeito nenhum, vai que estragam?“. Sim, somos escravos desses objetos de papel.

Hoje conversando com a Luci, ela levantou uma questão interessante sobre esse fetiche: até onde não há vaidade nesse tipo de “coleção”? Uma vaidade intelectual, como se os livros na estante fossem troféus de caça pendurados na parede? (Aqui deixemos de lado as pessoas que sequer lêem os livros que têm – considerando mais o “tornar visível a cultura acumulada”, digamos assim).

Pensando nisso, ela tomou uma atitude bacana: passou a dar os livros que já não lia mais. Eu, infelizmente, continuo completamente presa ao meu fetiche. Mas talvez comece a considerar empréstimos, nunca se sabe.

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* os nomes foram trocados para preservar a identidade dos fetichistas. :mrpurple:

5 comentários em “Nós, os fetichistas.”

  1. O livro fica jogado em uma parteleira empoeirada no meio de um monte de gente que não tem amor por livros. Vou salva-lo! E eu coloquei entre aspas, por que vou pegar pra mim, falar que perdi e pagar sei lá o que eles pedirem. =]

    Eu não roubo não, ta locona? 😛

  2. Eu estou louco para comprar a obra completa do Poe que vi um dia desses.

    o meu amor pelos livros como objeto na verdade é por causa das capas: se tenho mais de uma edição, as capas são a razão. Mas num tenho frescura com emprestar ou até dar (alguns): creio que com isso estou compartilhando uma coisa excelente com a pessoa, o que dá no fim um serto sentimento de “propagador da cultura e melhorador do mundo”. And such like.

  3. Lukaz on 10 Dezembro, 2005 at 1:49 pm said:

    O livro fica jogado em uma parteleira empoeirada no meio de um monte de gente que não tem amor por livros. Vou salva-lo! E eu coloquei entre aspas, por que vou pegar pra mim, falar que perdi e pagar sei lá o que eles pedirem. =]

    Eu não roubo não, ta locona? 😛

    eu tava zoando :mrpurple:
    mas vc já pensou que bem, “comprando” o livro você pode privar alguma pessoa que não tinha acesso nem ao Bilbo Bolseiro, que dirá ao Bilbo Baggins, de conhecer o livro? Esse é o charme das bibliotecas, por mais vazias e empoeiradas que sejam :dente:

    Newspaper editor on 10 Dezembro, 2005 at 11:40 pm said:

    Eu estou louco para comprar a obra completa do Poe que vi um dia desses.

    o meu amor pelos livros como objeto na verdade é por causa das capas: se tenho mais de uma edição, as capas são a razão. Mas num tenho frescura com emprestar ou até dar (alguns): creio que com isso estou compartilhando uma coisa excelente com a pessoa, o que dá no fim um serto sentimento de “propagador da cultura e melhorador do mundo”. And such like.

    Hum. Capas e outros mimos contam alto no mundo fetichista mesmo. Só ver o caso da minha amiga, que torrou uma grana num livro do Blake que bem, pode ser lido na inet, mas não em papel pólen e fonte verde escura. Aquele livro é mesmo de babar hehe

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