Breaking Bad: Felina (Series Finale)

Caro leitor que ainda não assistiu aos outros episódios de Breaking Bad: é evidente que se o título fala de Felina, este post será sobre Felina, portanto recheado de spoilers. Não seja bobo de continuar lendo isso aqui para depois sair xingando que tomou spoilers. Eu avisei: SPOIIIIIIIIIIIIILERS, SPOILERS MIIIIIIIL. Dica para quem quer começar, Netflix tem todas as temporadas (aqui no Brasil a quinta vai até o episódio 8, no Netflix UK eles já colocaram o episódio 16). E agora você, que já assistiu ao finale, pega na minha mão e vem comigo.

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Que final. Que final. Como eu tinha comentado no post anterior, não tinha como ter “final feliz”, até porque Walt arrastou todo mundo para o fundo do poço. Eu me sentiria bastante lograda caso o último capítulo da história de Walt fosse, sei lá, com a personagem inventando uma mentira que livrasse sua pele, e aí todo mundo vivendo feliz e contente como se nada tivesse acontecido. Porque não foi só a metanfetamina que aconteceu, muito foi dito e feito e por causa disso para o protagonista sobrava apenas uma vaga redenção. Então veio como um alívio o fato de não termos Walter Jr. abraçando o pai e dizendo que o perdoa, ou qualquer outra variante do tipo.

O plano de Walt basicamente foi de voltar para sua cidade para garantir que de alguma forma o dinheiro que tinha fosse entregue aos filhos, assim como acabar com a rede criada por ele mesmo para a produção e venda de metanfetamina. Sobre o segundo item, tem o fato de que o repórter que entrevista Eliott e Gretchen comenta que a blue meth ainda estava nas ruas, e é isso que faz com que ele retorne. A questão é: antes de tudo dar muito errado lá em Ozymandias, ele mesmo tinha deixado a rede de produção “montada” para Lydia, e embora ela tenha comentado com Walt que a qualidade do produto tinha caído, ainda assim ele sabia que Todd tinha a receita para a blue meth. Não seria de se esperar então que ele soubesse que os neonazistas continuaram produzindo depois do encontro com Hank no deserto? Eu acho que não foi a menção ao cristal que fez com que Walt voltasse, mas aquela fala de Eliott e Gretchen sobre ele não ter nada a ver com a empresa que fundaram juntos. Ali ele começou a bolar o plano dele: uma vez que não tinha jeito de deixar o dinheiro dele com a família (já que nenhum membro o aceitaria se soubesse que vinha de Walt), e já que a própria imprensa já sabia que Walt de alguma forma esteve envolvido com a Gray Matter, então ele poderia fazer exatamente o que fez, forçar Eliott e Gretchen a repassarem o dinheiro para a família usando como desculpa a necessidade do casal de limpar o nome da empresa agora que estava sendo associado a um sujeito que cozinhava metanfetamina.

E aí, já que já estava lá, qual o mal de acabar com aqueles caras que estragaram todo o plano dele, não é mesmo minha gente? “No more half measures, Walter”, já diria Mike. Porque a ideia de deixar a rede montada para Lydia foi uma half measure, e deu no que deu. E então ficamos sabendo qual seria o destino da ricina, o que pelo menos para mim foi uma das (poucas) falhas do episódio: como Walt colocou a ricina no pacotinho de Stevia da Lydia? Sei que o processo não aparece para que tenhamos o elemento surpresa, mas um produto que vem em embalagem lacrada, não sei, parece algo meio forçado. Mas ok, Lydia envenenada (e depois ouvindo de Walt que foi envenenada, imagina o efeito disso para uma control freak), seguimos em frente.

Aqui chega a hora de falar do meu momento favorito do episódio, o encontro com Skyler. O modo como com o movimento da câmera ficamos sabendo que Walt está na cozinha, de como ainda naquele momento ela consegue pensar friamente (falando das ameaças de Todd para Walt), e como a expressão dela muda de dor para surpresa quando Walt diz “I did it for me”, é tudo muito forte.

Aliás, que fala do Walt! “I dit it for me. I like it. I was good at it. And… I was… really… I was alive“, o que no final das contas só confirma a ideia que já tinha, de que apesar de repetir ‘n’ vezes que era “pela família”, ele fazia por causa dele mesmo. Era seu ego que colocava as coisas para funcionar, era a sensação de estar vivo que fazia com que ele seguisse adiante. Lembrei agora da cena do carro do playboy na primeira temporada, ou mesmo o momento em que ele vai recuperar o dinheiro que o traficante não pagou para Jesse. Situações de risco extremo, como que para desafiar a própria morte que se anunciara com o câncer. Então é isso, se me perguntarem de uma cena favorita desse episódio, eu apontarei essa conversa. Não só pelo que Walt diz, mas pelas expressões de Skyler. Caramba, como ela ama Walt. Como Anna Gunn dá conta de passar tudo isso sem dizer quase nada. Que cena mais bonita.

Chegamos assim a parte b do plano de Walt, o ataque aos neonazistas. Como já era de se imaginar, Walt salva Jesse, há um momento de confronto entre eles, tudo dentro do esperado, no final das contas. A surpresa para mim foi aquela fala de Jack antes de tomar o tiro de Walt, em que ele dizia que se morresse, Walt nunca saberia onde estava o dinheiro. E bum! Tiro. Walt não queria mais o dinheiro, queria acabar com aquilo tudo. É quando fica claro que não temos mais Walt dissociado de Heisenberg, mas mesclados em uma pessoa só (como comentou o Quickbeam lá na Valinor). Lembrando daquelas aulas de Walt no começo da série, o que temos é quase que a representação da fala dele sobre o que é Química, ainda no piloto:

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Por transformação, não dá para esquecer a de Jesse. Aquela cena em que ele está delirando, imaginando que está fazendo uma caixa de madeira quando na realidade ainda está preso é uma referência a um episódio da terceira temporada, Kafkaesque (S03E09), no qual Jesse conversa com o líder do grupo de reabilitação sobre uma caixa de madeira que fez quando era mais jovem. Segue o diálogo:

Group Leader: Jesse, last time, you seemed down about your job at the Laundromat. Let me ask something, if you had the chance to do anything you wanted, what would you do?

Jesse Pinkman: Make more green, man. A lot more.

Group Leader: Forget about money. Assume you have all you want.

Jesse Pinkman: I don’t know. I guess I would make something.

Group Leader: Like what?

Jesse Pinkman: I don’t know if it even matters, but… work with my hands, I guess.

Group Leader: Building things, like carpentry or bricklaying or something?

Jesse Pinkman: I took this vo-tech class in high school, woodworking. I took a lot of vo-tech classes, because it was just big jerk-off, but this one time I had this teacher by the name of… Mr… Mr. Pike. I guess he was like a Marine or something before he got old. He was hard hearing. My project for his class was to make this wooden box. You know, like a small, just like a… like a box, you know, to put stuff in. So I wanted to get the thing done as fast as possible. I figured I could cut classes for the rest of the semester and he couldn’t flunk me as long as I, you know, made the thing. So I finished it in a couple days. And it looked pretty lame, but it worked. You know, for putting in or whatnot. So when I showed it to Mr. Pike for my grade, he looked at it and said: “Is that the best you can do?” At first I thought to myself “Hell yeah, bitch. Now give me a D and shut up so I can go blaze one with my boys.” I don’t know. Maybe it was the way he said it, but… it was like he wasn’t exactly saying it sucked. He was just asking me honestly, “Is that all you got?” And for some reason, I thought to myself: “Yeah, man, I can do better.” So I started from scratch. I made another, then another. And by the end of the semester, by like box number five, I had built this thing. You should have seen it. It was insane. I mean, I built it out of Peruvian walnut with inlaid zebrawood. It was fitted with pegas, no screws. I sanded it for days, until it was smooth as glass. Then I rubbed all the wood with tung oil so it was rich and dark. It even smelled good. You know, you put nose in it and breathed in, it was… it was perfect.

Group Leader: What happened to the box?

Jesse Pinkman: I… I gave it to my mom.

Group Leader: Nice. You know what I’m gonna say, don’t you? It’s never too late. They have art co-ops that offer classes, adult extension program at the University.

Jesse Pinkman: You know, I didn’t give the box to my mom. I traded it for an ounce of weed.

“It’s never too late”. Dá para imaginar algo de bom no futuro de Jesse, apesar de tudo. Aquele breve e tímido sorriso antes de entrar no carro como quem se despede foi de partir o coração. E faltou um “Yeah, bitch” na hora em que ele fugia dirigindo o carro em alta velocidade, só dizendo.

Sobre o Walt, foi o melhor final possível. Nas especulações do que poderia acontecer neste episódio, lembro que cheguei a ler uma teoria falando que Walt usaria a ricina, se entregaria para a polícia e acabaria morrendo antes de ser realmente preso. Mas eu gostei daquilo, Walt caminhando pelo laboratório e tocando os objetos como quem está em um lugar que só traz boas recordações. E o mais tocante sobre a última cena da série para mim acaba sendo por causa de algo de fora de Breaking Bad: no episódio anterior, quando Walt chega na cabana ele descobre que para se distrair ele contará apenas com dois DVDs do filme Mr. Magorium’s Wonder Emporium. Eu não assisti ao filme, mas no reddit alguém postou uma fala de uma personagem que parece descrever exatamente esse desfecho de Breaking Bad, não só sobre o Walt, mas sobre a série em si:

When King Lear dies in Act V, do you know what Shakespeare has written? He’s written “He dies.” That’s all, nothing more. No fanfare, no metaphor, no brilliant final words. The culmination of the most influential work of dramatic literature is “He dies.” It takes Shakespeare, a genius, to come up with “He dies.” And yet every time I read those two words, I find myself overwhelmed with dysphoria. And I know it’s only natural to be sad, but not because of the words “He dies.” but because of the life we saw prior to the words. [pause, walks over to Molly] I’ve lived all five of my acts, Mahoney, and I am not asking you to be happy that I must go. I’m only asking that you turn the page, continue reading… and let the next story begin. And if anyone asks what became of me, you relate my life in all its wonder, and end it with a simple and modest “He died.”

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He dies. É lógico, a canção do final mais aquele tom de azul no corpo de Walt são o toque final, não tem como não achar aquilo bacana. E com isso chegamos ao fim. Eu poderia dizer que é a primeira vez que fico satisfeita com o finale de uma série, mas por coincidência neste final de semana acabei vendo o finale de The IT Crowd, que também foi ótimo. Mas valeu a pena a maratona. Deu até para curar meu TdSBCnF (Trauma de Série Boa Cagada no Final) e talvez agora eu acabe dando uma olhada em Hannibal ou Bates Motel, que juro que só não comecei a ver porque tenho medo que, hum, enfim, que fique ruim como quase todas as séries que resolvi acompanhar na minha vida.

6 comentários em “Breaking Bad: Felina (Series Finale)”

  1. Ótima análise, Anica. Ainda nem vi o episódio, mas li sem medo. (Adoro tomar spoiler). Das que tu citou querer ver agora, indico Bates Motel. Assisti toda a primeira temporada em dois dias, gostei bastante.

  2. Eu gostei do finale, mas discordo que tenha sido o melhor final possível. O principal é que o Gilligan não conseguiu completar a tal transformação de Mr. Chips em Scarface. E nesse sentido, o final é um final feliz, com alguma redenção para o Walt (como você notou, a Skyler ainda o ama, ele consegue dar o dinheiro para a família, se vinga da Lydia, salva o Jesse etc).

    A principal questão dessa última temporada (e já anunciada na anterior) era entender como a audiência podia continuar torcendo pelo Walt, mesmo depois de ele ter se tornado o vilão da série. E esses últimos episódios jogam todo esse desenvolvimento pela janela, da forma mais preguiçosa possível: criando um vilão pior. Quando o Jack se torna o antagonista do Walt, imediatamente o Walt volta a ser o herói da história. Ele nunca se torna unidimensional, mas deixa de ser um problema torcer pra ele, afinal de contas, o Jack é muito pior.

    A morte do Walt não é tanto negação de um final de feliz, mas o único final feliz possível. Depois que ele mata o Jack, o personagem não faz mais sentido, não tem desenvolvimento possível, mas encontrou alguma redenção.

    Nada disso estraga a série (não mais do que a geringonça da metralhadora, ou ele colocando o chapéu no episódio anterior), mas explicita algumas limitações que não podem ser ignoradas. A série é boa, mas podia ter sido realmente incrível.

    1. Boas observações, Paulo =]

      Não tinha pensado em Jack como um vilão (para ser sincera, nem pensei em Jack), mas não acho que uma escala de “vilania” apaga o que Walt fez antes. A “redenção” ali é ele assumindo que tocou o horror mesmo, e fez porque quis ou porque podia e morrer com isso. Mas não há perdão – tanto que não temos cenas com beijos e abraços entre ele e Skyler. O fato de ela ainda o amar só mostra a complexidade das personagens: é algo que ela não pode controlar, não é uma opção. Mas se afastar dele para proteger a família, é.

      Mas voltando ao Jack, apesar de eu não concordar com a escala de vilania, eu ainda acho que a chegada da personagem é um dos pontos baixos da série. Algo que gostei desde o começo de Breaking Bad é que a série tinha poucas personagens, mas eram todas bem aproveitadas. E então do nada surge esse tio do Todd, sendo que existiam outras ‘n’ maneiras de recontar Ozymandias sem a existência daquela personagem. De qualquer forma, é como você disse: não estraga a série.

      Mas sobre isso aqui que você disse: “A morte do Walt não é tanto negação de um final de feliz, mas o único final feliz possível” concordo totalmente, e foi isso que eu quis dizer sobre o melhor final possível. Melhor final possível para a personagem, não para a série. ^^

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